Há um paradoxo no relacionamento Estado, Governo e Sociedade que leva os filósofos, pensadores e sociólogos a elaborarem várias equações com estes valores sem chegar a uma conclusão que permita aferir até onde vai o grau de competência de cada um. No momento em que a Sociedade cria o fato político que codifica e estrutura o Estado – outorgando-lhe poderes para estabelecer as normas que viabilizam um Governo que pode ser monárquico, democrático, republicano, teocrático ou parlamentarista. A única certeza é de que as ditaduras não entram neste elenco. O poder que o Governo usa para proteger o Estado emana do povo, isto é, da Sociedade.
Fica difícil legitimar o uso da força militar ou policial para sufocar a Sociedade em seus anseios com a explicação que trata-se da defesa do Governo que ela constituiu. É esta incongruência que o mundo está assistindo quando se volta para a Líbia, um pequeno país produtor de petróleo e dono de um dos maiores índices de analfabetismo, pobreza e atraso cultural do planeta. Dominado quase 50 anos por um ditador Muamar Kadafi, apoiado pelas Forças Armadas, Polícia Política, clero Muçulmano e mercenários, o país se sublevou e quer destituir o mandatário que resiste desesperadamente.
Kadafi tem êmulo no Caribe representado por Fidel Castro (Cuba) que com mão de ferro decide os destinos do povo cubano também por quase meio século, sendo a mais antiga ditadura das Américas, no momento substituído pelo irmão Raul seu marionete. É preciso assinalar que em um primeiro momento eles foram conduzidos ao poder sob aclamações e nos braços do povo, isto é, a Sociedade para estabelecerem Governo representativo do Estado. Óbvio que traíram a confiança depositada, via suborno das classes armadas e usam o Governo para amealhar fortunas colossais.
No Brasil tivemos episódio semelhante. Em 1964, a Sociedade aplaudiu a "Marcha com Deus pela Família e pela Pátria" e entregou o poder aos militares para que estes detivessem a "comunização" em andamento pelo Governo e contra os mesmos se voltou duas décadas depois exigindo a Democratização com a campanha das "Diretas Já". Faço estas considerações para desclassificar a alcunha de rebeldes aos patriotas que lutam contra tropas e tanques do Governo Libio. É a Sociedade que julgou e condenou o Estado pelo apodrecimento do Governo agora mantido pela força das armas.
A vocação brasileira é a da liberdade de expressão, de democracia e de Direitos individuais e coletivos. E, pelas ultimas posições na ONU - Organização das Nações Unidas -, o Brasil vai repelindo o conluio com ditaduras cultivado pelo Palácio do Planalto durante a gestão anterior. Assim espera a Sociedade.

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