A Voz dos Bairros - Lazareto: após a tragédia, um bairro quase fantasma

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
por Jornal A Voz da Serra
A Voz dos Bairros - Lazareto: após a tragédia, um bairro quase fantasma
A Voz dos Bairros - Lazareto: após a tragédia, um bairro quase fantasma

Henrique Amorim

Quem chega hoje ao Lazareto, um pequeno loteamento com acesso pela Rua Benjamin Constant, entre o bairro Duas Pedras e o Loteamento São Cristóvão, pode pensar que a localidade sofreu um bombardeio. Nas duas principais ruas do Lazareto, o cenário mais se assemelha ao um pós-guerra: casas destruídas, outras parcialmente derrubadas, muita lama, entulho, lixo e pedaços de construções, móveis, roupas, utensílios domésticos, brinquedos e sonhos espalhados pelo chão. Chegar ao loteamento, só mesmo a pé. As ruas tiveram o calçamento arrancado pela força das enxurradas. Carros, caminhões e o microônibus da linha Centro-São Cristóvão já não podem mais passar por lá. São as terríveis consequências da tragédia das chuvas de janeiro, que só no Lazareto mataram pelo menos quatro pessoas.

Pelas ruas, alguns poucos moradores que não tiveram suas casas diretamente atingidas pelos deslizamentos agora visitam seus antigos lares somente durante o dia. Ao anoitecer, buscam abrigo em outros bairros, em casas de familiares ou amigos. “A Defesa Civil esteve aqui e interditou as casas vizinhas. A minha escapou, mas se a barreira cair mais um pouco e chegar aqui, eu saio pelos fundos. Vou sair daqui agora por quê?”, diz o morador Paulo Mário de Paula, que reside há mais de 40 anos no Lazareto com a família e admite nunca ter visto algo parecido com a tempestade de 12 de janeiro.

“Parecia que o mundo estava vindo abaixo. Pedras rolaram, casas caíram, ruas sumiram. Nosso bairro praticamente saiu do mapa. Quase não tem mais ninguém morando aqui. Os poucos que ainda estão, quando chove, saem correndo”, completa o morador Sandro, que teme pela interdição das casas onde mora sua família no bairro. “Foram anos de luta para construirmos nossas casas e, se tivermos que sair daqui, será que teremos direito pelo menos a alguma indenização?”, questiona. “Até agora nenhuma autoridade veio até aqui dar uma solução. Se o bairro está condenado, temos que sair, mas, para onde? Se não houver uma solução, daqui a algum tempo muitas famílias retornarão e se arriscarão novamente”, comenta outro morador do Lazareto.

No fim da Rua Augusto Souza Freitas, uma encosta deslizou e formou uma imensa avalanche, que engoliu uma casa. Morreram soterrados três jovens e uma menina de 2 anos. O pedreiro Marcos Aurélio Silva estava em Rio das Ostras e quando retornou não acreditou no que viu. No lugar da casa, uma montanha de lama e entulho e seus familiares mortos. “É difícil permanecer aqui e ver toda essa destruição. Vidas levadas pela terra”, lamenta ele, com olhar fixo nos escombros, onde ainda se encontram pedaços de roupas, brinquedos e pertences da família.

Pedras no alto das montanhas podem cair a qualquer momento, temem os moradores

Perto dali, vizinhos ainda estão perplexos com a força avassaladora da enxurrada, que desprendeu pedras do alto de uma encosta, deixando outras aparentemente vulneráveis a novas quedas. Dezenas de casas ao redor estão interditadas e tiveram o fornecimento de energia elétrica e água interrompido. Alguns moradores acreditam que esses imóveis serão demolidos. Ao longo da Rua Benjamin Constant, diversas casas também sumiram, enquanto outras já foram condenadas pela Defesa Civil, já que há risco de novos deslizamentos.

Situado em área bem íngreme, o loteamento é cercado ainda por grandes rochas. Até servidões e escadarias de acesso à parte mais alta foram parcialmente atingidas. “Levei a vida inteira para construir minha casa. Agora o barranco cai e deixa a fundação da minha casa à mostra. É duro retornar aqui, ver essa cena e ter que tirar as coisas da casa. E levar para onde?”, lamenta um morador, emocionado com a triste situação. O pior é que dramas como estes não se resumem ao pequeno Lazareto, mas à grande parte de Nova Friburgo.

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