Leonardo Lima
Como agir em situações de desastre? Esta pergunta certamente passou pela cabeça de diversos profissionais após a tragédia do último dia 12. E com os psicólogos o questionamento não foi diferente. “Nos reunimos nos dias 17, 18 e 19 de janeiro e passamos por uma capacitação na sede da Academia Friburguense de Letras, para saber como orientar as pessoas que passaram por essa catástrofe”, informa a coordenadora do Programa de Saúde Mental da cidade, a psicóloga Elaine Gomes. Ela explica que todo o trabalho contou com apoio da organização internacional Médico Sem Fronteiras e, ao todo, 60 psicólogos voluntários e 23 da rede compuseram a equipe.
Após o período de capacitação, Elaine diz que o grupo foi dividido em diferentes locais de atendimento. “A partir do dia 20, alguns psicólogos foram aos abrigos para ver a necessidade das pessoas, outros ficaram nos hospitais de campanha e no IML, três se fixaram no Raul Sertã e outros na Maternidade, onde houve uma tendência de partos prematuros”, afirma. Entre os 83 profissionais, Elaine revela que muitos deles também haviam perdido muitos bens e, mesmo assim, superaram diversas adversidades para ajudar ao próximo.
Já na segunda semana o grupo se organizou de outra forma. “Dividimos os psicólogos em três grupos: um de orientação, para quem estava cuidando das vítimas; outro de atendimento psicossocial, que colheu informações e deu suporte nos bairros, fazendo uma triagem e encaminhando para as unidades de saúde mental; e outro chamado de grupo SUS, que eram os psicólogos da rede que voltaram a atender nos ambulatórios”, relata a coordenadora. De acordo com ela, foi somente após uma parceria com o Ministério da Saúde que os psicólogos deixaram de arcar com os custos do transporte para chegar até os locais atingidos.
“TEMOS QUE NOS FOCAR NA ESPERANÇA E NÃO NA DOR”
Cerca de 15 dias após a tragédia, Elaine diz que o Programa de Saúde Mental viu que era preciso voltar aos bairros para saber como estavam as pessoas que foram atendidas. Neste sentido, começaram a ser promovidos grupos de terapia comunitária. “O foco da equipe não é ouvir das pessoas o que elas passaram, mas verificar suas situações psicológicas e ver maneiras de retomar a vida. Até agora, o momento foi de choque, mas sabemos que três meses após a tragédia é que começam a aparecer outros transtornos”, explica.
Segundo ela, é possível lidar com a dor sem torná-la algo constante. “As pessoas têm que botar esse sentimento para fora. O medo irá passar. Nesse período de reconstrução temos que nos focar na esperança, e não na dor”, orienta Elaine. Ela revela que, assim como os próprios psicólogos passaram por um processo de aprendizagem para saber como lidar em situações como essa, há um projeto para que professores da rede e agentes comunitários de saúde também sejam orientados nesse sentido. “Os profissionais dos PSFs poderiam fazer uma espécie de triagem e encaminhar as pessoas para os postos de atendimento, e os professores saberiam como orientar melhor os alunos”, acredita.
A coordenadora também aponta o Centro de Atenção Psicossocial de Nova Friburgo como uma boa fonte de ajuda. “O CAPS já voltou a funcionar normalmente, das 8h às 17h, serve almoço e está aberto a toda população. Lá existe, inclusive, um grupo de acolhimento para vítimas da catástrofe, que se reúne toda quarta-feira, às 13h”, conta Elaine, que ainda faz um alerta aos profissionais: “É importante ter a consciência de que nem todas essas pessoas são pacientes da saúde mental. Temos que ser pontuais, para evitar uma demanda desnecessária de pacientes”, finaliza.

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