Maurício Siaines
Ricardo Maravilhas, 48 anos, professor de tai chi chuan, é figura conhecida por muita gente em Nova Friburgo. Dá aulas atualmente na Uerj, às terças e quintas-feiras, das 7h às 8h30, e na Ação Rural de Lumiar, desde junho de 2000, às segundas, quartas e sextas-feiras, das 7h às 8h30.
Mora em um sítio em Palmital, localidade entre Mury e Lumiar, e vive em certo isolamento, sem televisão ou computador. Gosta, porém de televisão e de cinema, mas desde que seu último aparelho de televisão quebrou, antes mesmo de se dedicar ao tai chi, aboliu o hábito de sua vida, ainda vivendo no Rio, porque acha que ele o levava a negligenciar suas atividades que considera importantes. Ele entende que se tratava de um vício, que resolveu cortar pela raiz.
Entre os alunos de Ricardo encontra-se uma variedade de pessoas com diferentes idades e vivências, todas tirando proveito daquele conjunto de exercícios. Ricardo explicou um pouco do que é o tai chi chuan em entrevista a A VOZ DA SERRA e pode ser encontrado para mais informações pelo telefone (21) 9812-3886.
A VOZ DA SERRA - Uma primeira questão é a seguinte: as pessoas passam no lugar onde você dá suas aulas e veem outras pessoas fazendo esses movimentos e poucos entendem do que se trata. Então, o que é tai chi chuan?
Ricardo Maravilhas – É uma arte marcial que surgiu na China e tem como característica usar a suavidade para vencer a força. Então, os movimentos que as pessoas veem formam uma sequência combinada de luta. São movimentos de ataque e de defesa.
AVS – São movimentos de luta feitos com suavidade. É como se estivesse destrinchando os movimentos. É isto?
Ricardo Maravilhas – A ideia da lentidão com que são feitos os movimentos é a seguinte: você aprende primeiro a dominar o lento, para depois dominar o rápido. Em um combate real, os movimentos precisam ser usados com rapidez. Fazer lento e todo mundo junto, você acompanhando o colega que está aos seu lado, isto vai desenvolvendo seu reflexo de acompanhar o movimento das pessoas. Esta é uma característica muito importante da arte marcial: acompanhar o movimento do adversário. Você começa a aprender a se esquivar. Por isto que se treina com lentidão e todo mundo junto, para se desenvolver essa habilidade. Aqui está um princípio marcial que é muito avançado, embora, às vezes, haja quem não entenda. E, ainda quanto à lentidão, se você domina bem o movimento lento, quando você começa a repeti-lo rapidamente, é como se o corpo já soubesse, já tivesse aquele princípio desenvolvido.
AVS – Você também desenvolve uma consciência do próprio corpo ao fazer o movimento lentamente, não?
Ricardo Maravilhas – Perfeito. É como se você desenhasse aquele movimento com perfeição. Na hora que você quiser realizar o movimento com rapidez, ele já está gravado na sua mente e ele sai de uma forma harmônica e perfeita. Há pessoas que não conseguem se adaptar aos movimentos lentos do tai chi. Não parece, mas o tai chi exige muito: a pessoa tem que ficar ali naquelas posições, fazendo movimentos lentos. Há pessoas que chegam muito ansiosas ou querendo desenvolver a musculatura. Para essas pessoas, é melhor fazer outro tipo de ginástica. O tai chi é uma prática ao alcance de qualquer pessoa, até pessoas com deficiência física, ou convalescentes de cirurgia. Se a pessoa consegue ultrapassar a fase inicial da prática, em que ela precisa se descondicionar um pouco de outros exercícios, ela sente os benefícios e não larga mais. É um descondicionamento da mente, principalmente. A partir desse momento, a pessoa começa a sentir o conjunto de seu corpo funcionando melhor, é como se experimentasse um rejuvenescimento.
AVS – É como se a pessoa compreendesse o próprio corpo, o potencial do próprio corpo.
Ricardo Maravilhas – Com certeza. Outra coisa é que o tai chi chuan é todo amarrado com os princípios da medicina chinesa. Com esses movimentos faz-se também uma automassagem, desobstruindo os canais principais de circulação energética do corpo. Esses canais estão ligados aos órgãos vitais do corpo. Com o exercício, os órgão começam a funcionar de forma mais intensa, potencializando, assim, o funcionamento orgânico do corpo. Com aqueles movimentos suaves, a pessoa mexe com todas as articulações do seu corpo, faz um alongamento suave sem agredir o próprio corpo.
AVS – Uma outra questão é a da concentração. Nós, do mundo ocidental, aprendemos a fazer exercícios de concentração a respeito de determinados saberes, aprendemos a escrever e a fazer contas desde muito crianças, mas esquecemos um pouco nosso próprio corpo. Os animais não têm consciência, mas fazem exercícios de alongamento a toda hora. Os gatos, por exemplo, perseguem tudo que se move, o que é um exercício da caçada. Na origem do tai chi houve essa observação dos animais?
Ricardo Maravilhas – A lenda da origem do tai chi conta que o mestre Shan San Feng [que teria nascido, segundo diferentes versões, no ano 960, ou 1247, ou 1279], que viveu no templo Wu Dang, na China, teve um sonho ou uma visão de um grou (uma espécie de garça) lutando contra uma serpente. Ele via o grou tentando matar a cobra com bicadas e esta fazia aqueles movimentos sinuosos esquivando-se, assim das bicadas. Vendo os movimentos desses dois animais ele percebeu que os movimentos arredondados da cobra eram mais eficientes do que os movimentos retos das bicadas do grou. De um modo geral, as artes marciais usam movimentos retos e diretos e o tai chi usa movimentos redondos e sinuosos, pratica sempre o alongamento e o desenvolvimento dos reflexos. O racionalismo, a valorização do aspecto intelectual acima de tudo, foi levando o ser humano a perder o contato com a natureza. Com o desenvolvimento das tecnologias, o homem foi se afastando dessa coisa mais natural, de precisar de repente fugir, ou defender-se.
AVS – Até mesmo o modo de respirar se alterou, não?
Ricardo Maravilhas – A respiração está totalmente ligada a esse tipo de vida com o uso intenso de artefatos tecnológicos. A respiração do homem ficou mais presa, menos natural, menos espontânea.
Veja esse acontecimento recente das chuvas, da catástrofe causada pelas chuvas. Ficamos sem meios de transporte, sem energia, sem telecomunicações. Aí se configura até um alerta para as pessoas para a necessidade de pensar e exercitar outro tipo de vida. Deveríamos usar nossos recursos tecnológicos de acordo com as necessidades reais e não apenas pela possibilidade de usá-los. Acabamos criando um engarrafamento infinito. E por que a vida tem que ser corrida?
A questão que se coloca com os avanços tecnológicos que trazem uma vida mais rápida é a seguinte: nós nos condicionamos à rapidez e não precisamos ter uma vida mais rápida. A tecnologia é muito usada para se ganhar tempo; é claro que é importante para salvar vidas, como estamos vendo agora máquinas transportando mantimentos e escavando, helicópteros salvando pessoas, a tecnologia para salvar vidas em um hospital. Claro que tudo isto é importante. Agora, cada pessoa ter o seu carrinho, seu celularzinho, é outra coisa. Exacerbamos o consumo de muito mais coisas que precisamos.
AVS – Fale um pouco de sua formação no tai chi.
Ricardo Maravilhas – A escola que eu fiz – do estilo da família Yang – foi a do mestre Hu Hsin Shan, que veio para o Brasil fugindo da Revolução Cultural chinesa. Ele ensinou o meu professor, Edson Márcio Lacerda, e viveu 103 anos [morreu em 30 de agosto de 2004, no Rio de Janeiro]. Dava aulas naquele espaço próximo ao Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro. Meu mestre Márcio diz que ele contava sobre o período em que esteve preso, durante o processo da Revolução Chinesa. Ele e um grupo praticavam tai chi dentro da prisão, em lugares exíguos. Às vezes o pessoal aqui reclama de que o espaço não está bom, mas eles praticavam em cubículos. E assim conseguiram sobreviver à insalubridade da prisão. Ele não contou como conseguiu fugir e, depois, vir para o Brasil.
AVS – Como é que você foi parar no tai chi chuan?
Ricardo Maravilhas – Sou carioca e fui morar em Minas Gerais com oito anos e voltei para o Rio com 18 anos. Formei-me em educação artística, dei aulas entre 1981 e 2007. Fui professor do município do Rio de Janeiro, depois do estado, trabalhei aqui em Nova Friburgo, na Escola Jean Bazet.
Comecei a estudar tai chi em 1992. Sempre gostei muito de artes marciais, mas não gostava de lutar, de brigar. Mas gostava de ver a arte marcial e me interessava por ela. Cheguei a praticar caratê, capoeira, tae kwon do. Mas por pouco tempo. Conheci por acaso uma professora de tai chi, que me chamou para fazer aula. Gostei, ela me chamou para conhecer seu professor, que era o Márcio, esse meu mestre. No dia que eu cheguei para conhecê-lo, ele falava sobre o curso de formação de professores de tai chi. Perguntei-lhe se poderia fazer o curso e ele me submeteu a um teste de aptidão. Fiz o curso durante três anos, depois fiquei um tempo ajudando o mestre Márcio.
AVS – E como foi esse curso?
Ricardo Maravilhas – É basicamente prático, com aulas todos os dias, inclusive nos finais de semana, com períodos extras, fora da cidade. Às vezes passávamos um feriado inteiro treinando sem parar. Aprendemos massagem, um pouco de medicina chinesa e todas as técnicas que ele conhecia. Talvez este seja um dos melhores cursos de tai chi do Brasil. E aí, eu gostei tanto que quis praticar para o resto da vida. Então, tinha que ser professor, para me dedicar profissionalmente.
AVS – E o Tao Te King [ou Tao Te Ching]?
Ricardo Maravilhas – É o fundamento filosófico do tai chi. Geralmente, as artes marciais têm como referência o budismo. O tai chi se apoia no taoísmo, que é anterior [Lao Tsé, ou Lao Tzi, autor do Tao Te King teria vivido no século VII a.C., ou no século IV a.C., segundo diferentes estudiosos] e se desenvolveu na China. O taoísmo propõe a harmonia, o equilíbrio entre o ‘yin’ e o ‘yang’, que o tai chi usa o tempo todo. E leva isto para o combate. Então quando a pessoa vai te dar um soco. Ela vai com a mão cheia de energia para acertar no seu rosto. E aí, você tira o rosto do local, deixando o vazio. Onde o adversário vai com o ‘yang’, você deixa o ‘yin’. Ou você esvazia aquele ‘yang’. E, enquanto adversário o ataca com o ‘yang’, deixa o outro lado de seu corpo ‘yin’, e é onde você vai atacá-lo.

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