Tecnologia a serviço da saúde

segunda-feira, 27 de setembro de 2010
por Jornal A Voz da Serra
Tecnologia a serviço da saúde
Tecnologia a serviço da saúde

Alessandro Lo-Bianco

Quais são os procedimentos corretos que um médico deve tomar em momentos críticos e quais são as prioridades no atendimento a vítimas de emergência? Após ser amamentado, por exemplo, um bebê engasga e para de respirar. Depois dos primeiros socorros ele é levado para um centro cirúrgico, com parada cardíaca. Neste caso, o que fazer quando o tempo representa ganhar ou perder uma vida? Não seria bom se os médicos e estudantes universitários pudessem treinar com precisão este tipo de emergência antes que, de fato, ocorram com pacientes reais? Se o leitor acha que sim, existe uma boa e uma má notícia para esta questão: a má notícia é que a maioria dos estudantes só lida com este tipo de emergência na prática, quando, de fato, ela acontece. A boa notícia é que agora eles já podem realizar todos os procedimentos cabíveis, até se sentirem totalmente seguros, sem que, para isso, a vida humana fique em risco. O nome da tecnologia que proporciona este tipo de treinamento é Human Patient Simulator (HPS) e foi desenvolvida nos Estados Unidos, por profissionais da Nasa.

Conhecida no Brasil como “Simulador Real de Paciente” (SRP), esta nova ferramenta de treinamento consiste num robô com sofisticados modelos matemáticos de fisiologia e farmacologia, que reagem de forma autônoma e realista a todos os procedimentos médicos e terapêuticos, podendo, em situações extremas, apresentar morte clínica, ou seja, óbito. Esses simuladores são conectados a equipamentos médicos reais, como monitores, máquinas de anestesia e respiradores, fazendo com que o aluno viva uma experiência igual àquela enfrentada no dia a dia de sua profissão.

A Berkeley, empresa dedicada à comercialização, manutenção e treinamento de equipamentos médicos e hospitalares, é responsável por trazer ao Brasil o primeiro Simulador Real de Pacientes. Na ocasião, era o de número 42 no mundo, fazendo do país um dos primeiros a contar com esta tecnologia, que apresenta inúmeros quadros clínicos, bem como sinais vitais do ser humano, como pulso, pressão arterial e reflexos. Cada simulador custa cerca de R$ 350 mil e contém informações que a medicina observou durante décadas no homem.

A VOZ DA SERRA conversou com o diretor executivo da Berkeley, Cristiano Calmon Glória, que esclareceu tudo sobre esta promissora ferramenta. “Os simuladores não são apenas robôs que reproduzem infartos e outras situações clínicas específicas. A complexidade é tanta, que os treinandos recebem um paciente com todo um histórico rico em detalhes e com importantes dados para diagnóstico e tratamento”, explica Cristiano. Isso quer dizer que, por exemplo, num curso de “Emergências Cardiológicas”, eles recebem no hospital — no caso, o Centro de Treinamento Berkeley — um homem de 40 anos, fumante, com pressão alta, que não faz exercícios há cinco anos, que toma regularmente tais tipos de medicamentos e que, portanto, chegou apresentando condições específicas. “Todas essas informações são pertinentes para a conduta de tratamento desse paciente, pois um homem com essas características evolui de forma diferente de outro, como um atleta, por exemplo. O simulador reconhece todas essas características e evolui baseado no histórico do paciente e nas ações dos treinandos”, enfatiza o diretor.

O simulador é composto de diversas equações matemáticas, por isso as variáveis dessas equações são os dados clínicos dos pacientes. Cristiano explica que a ferramenta é usada de duas formas na Berkeley: “Na primeira, que chamamos de ‘solta’, o robô é programado para ficar livre, ou seja, ele vai evoluindo dependendo das ações dos treinamentos em relação ao tempo que eles levarão para tomar as decisões. Assim, o paciente pode ter diversas ramificações. A outra maneira é através dos fluxogramas, que são programados no simulador, o que gera controle sobre a evolução do paciente e o tempo que cada cenário clínico terá”.

Os simuladores também variam de idade e os profissionais podem, até mesmo, treinar com um “robô bebê”, que reproduz um quadro de bronquite crônica ou qualquer outro problema que uma criança possa ter, como um traumatismo craniano ou facial, a perda da consciência, uma parte do corpo fraturada que leve à perda de muito sangue etc.. O número de quadros clínicos é quase ilimitado e ainda é possível programar doenças raras nos simuladores. Os alunos ficam surpresos ao se depararem com a tecnologia vendo os simuladores respirando, piscando os olhos, apresentando batimentos cardíacos e até falando. “Criamos aqui na Berkeley um sistema circulatório interno no simulador. É o único no mundo que pode ser conectado a uma máquina de hemodiálise real, ou seja, a máquina não sabe que está conectada a um robô e faz todo o procedimento, inclusive separando as partes sólidas das líquidas do sangue. O interessante é que, pela primeira vez, os profissionais que fazem hemodiálise podem fazer um treinamento prático até mesmo em situações de crise, como, por exemplo, um cateter entupir”, esclarece Cristiano, alertando que, justamente por serem situações raras, podem ser fatais. “São situações que, antes do simulador, só eram mostradas de forma teórica”, afirma.

A tecnologia é tão real que os remédios são de verdade e o paciente virtual alerta sobre qualquer problema, podendo provocar vômitos nos simuladores ou a necessidade de coleta de sangue. A precisão é certeira, pois a máquina possui um banco de dados com diversos medicamentos. Todos os remédios possuem sua farmacocinética no software. Assim, para cada droga foi criado no simulador um leitor. Desta forma, os robôs respondem à medicação em tempo real. Se uma droga demora 20 minutos para fazer efeito no paciente, também vai demorar 20 minutos para fazer efeito na máquina. Segundo Cristiano Calmon Glória, o paciente virtual reage a todo tipo de droga e sua evolução clínica será exatamente igual a do ser humano em relação à dosagem e velocidade da infusão. “É comum em alguns cenários clínicos um treinamento, principalmente com grupos de estudantes universitários, em que alguém faz uma medicação ou usa uma droga errada. Assim como na vida real, eles precisam agir da mesma forma que agiriam numa situação real. Por isso, o instrutor explica e orienta os alunos do curso se eles precisarão infundir outra droga para contra-agir à ação da medicação errada, ou outro procedimento adequado para estabilizar o paciente e continuar o tratamento”, ressalta Cristiano.

Para o diretor executivo da Berkeley, o principal benefício é que os profissionais da saúde, como médicos, fisioterapeutas e enfermeiros, podem se aperfeiçoar sem colocar ninguém em risco, pois todas as ações nos simuladores são avaliadas em tempo real. “O treinamento também é avaliado em nível comportamental. Por exemplo, na equipe que está sendo treinada, todos sabem de seu papel? Todos se comunicam bem? O líder realmente é um líder? Tudo isso é catalogado e discutido após o treinamento”, diz Cristiano.

Todas as salas de treinamento na Berkeley possuem câmeras de vídeo, o que facilita a discussão quando o instrutor debate com os alunos sobre suas atuações. Quanto à porcentagem de precisão que se pode obter através deste tipo de treinamento em relação aos seres humanos, ainda de acordo com o diretor da Berkeley, foram feitas pesquisas usando agentes anestésicos em pacientes reais e com os simuladores. A taxa de erro foi de 9%, o que, a princípio, é insignificante, levando em consideração que existe uma diferença natural de um paciente para outro. Por isso, consideram que a morte clínica do simulador representa com precisão a morte clínica de um paciente real. “O simulador evolui exatamente como um paciente real evoluiria. Se as decisões tomadas não forem as mais corretas e se demorarem, ou o paciente virtual estiver num estado sem chance de evolução, o simulador evolui também para o óbito”, afirma Cristiano.

Ainda segundo ele, é fundamental que fique claro que o treinamento prático usando os Simuladores Reais de Paciente não visam substituir nada na formação dos profissionais de saúde. Para Cristiano, o contato real com o paciente é, e sempre será, vital no processo de formação. “O que buscamos é adicionar uma nova etapa neste processo”, ressalta.

Atualmente, o processo de formação possui as seguintes etapas: “aprenda, veja, faça e ensine”. Para os seguidores deste método, a nova tecnologia mudaria o cenário para “aprenda, veja, simule, faça e ensine”. “O principal objetivo do treinamento por simulação é propiciar ao treinando um ambiente onde ele possa praticar, treinar e se atualizar num contexto que não ofereça riscos. Assim, ele pode fazer quantas vezes seja necessário para aprender, de forma ética e que não exponha nenhum paciente real a risco de morte. Incluir este tipo de treinamento na formação dos nossos profissionais é, sem dúvida, deixá-los mais preparados e, acima de tudo, mais seguros e conscientes de seu papel dentro de uma situação corriqueira e emergencial”, garante Cristiano.

Logo ao se matricular, o aluno completa um pré-teste, no qual são feitas perguntas relacionadas aos objetivos do curso. Após esta etapa, os alunos assistirão a pequenas aulas teóricas, a fim de “refrescarem” a memória acerca dos principais pontos que serão vistos no curso. Estas aulas teóricas compreendem apenas 20% da carga total do curso. Depois deste estágio, os treinandos são divididos em grupos, a fim de passarem pelas estações de habilidade, nas quais cumprirão procedimentos práticos necessários para atingir os objetivos do curso. Assim, se o treinamento for sobre vias aéreas, treinarão protocolos como intubação, com a supervisão e o auxílio dos professores.

A próxima etapa são os cenários clínicos nas salas de simulação, onde ficarão sozinhos com os pacientes virtuais. O instrutor que fica com os alunos nesta sala tem apenas a função de facilitar o andamento do cenário, como mostrar aos alunos onde estão as drogas, ou onde está o carrinho de parada. Depois, tudo que aconteceu será discutido e analisado, tanto na parte técnica, quanto na parte comportamental.

No Centro de Treinamento Berkeley são oferecidos cursos para todas as áreas de saúde, tanto para profissionais graduados, como para estudantes. Para visualizar o calendário completo dos cursos basta acessar o site www.berkeley.com.br.

Após nove anos utilizada apenas na Berkeley, a tecnologia ganhou tanta importância que foram instalados no Hospital Albert Einstein dois Simuladores Reais de Pacientes e novos centros de treinamento começaram a surgir em todo o Brasil. A importância de sua utilização foi tamanha que foi criada a Sociedade Brasileira de Simulação na Prática Médica, que tem por fim ser uma referência para todos esses novos centros.

Segundo o diretor executivo da Berkeley, cada vez mais as instituições de ensino estão buscando incluir atividades práticas na sua grade curricular. “É de extrema importância que esses alunos cheguem preparados para os desafios de sua profissão. Não só de forma teórica, mas também de forma prática. Acredito que, num futuro bem próximo, todas as universidades incluirão este tipo de treinamento prático em sua rotina de aprendizado. E, as que não entrarem neste processo, ficarão obsoletas”, conclui Cristiano.

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