Centenas de católicos lotam catedral para o jubileu de d. Clemente Isnard

terça-feira, 06 de julho de 2010
por Jornal A Voz da Serra

José Duarte

O primeiro bispo da Diocese de Nova Friburgo, dom Clemente José Carlos Isnard, que completou Jubileu de Ouro Episcopal dia 25 de junho, foi homenageado sábado, 3, na Catedral São João Batista, em missa presidida por ele e que contou ainda com d. Edney Gouvêa Mattoso, atual bispo diocesano, e d. Waldyr Calheiros, bispo emérito de Volta Redonda, onde d. Clemente foi vigário geral quando deixou o pastoreio de Nova Friburgo, em 1994.

Dezenas de padres compareceram ao evento, além de religiosos, e centenas de católicos que têm em d. Clemente exemplo de humildade, sinceridade e vida dedicada aos menos favorecidos pela sorte. A liturgia do dia, extraída de Efésios 2, 19 – 2S, Salmo 116, São João 20, 24 – 29, exaltou o Bom Pastor. A homilia foi dividida em duas partes. A primeira, com d. Edney Gouvêa Mattoso, ressaltou “a presença de d. Clemente, seu carinho com o povo, sua atuação como verdadeiro pastor, sempre carinhoso, preocupado com os pobres, atento à liturgia e à hierarquia da igreja, zeloso com o clero e, acima de tudo, um pai para os pobres. Uma personalidade nacional e internacional que nunca se esqueceu das milhares de ovelhas que adquiriu ao longo de 33 anos de episcopado, num momento difícil da Diocese, que não tinha as facilidades de hoje. D. Clemente pode estar certo que como um homem santo que é, já tem seu lugar garantido no reino dos céus, pois nunca se negou a atender a ninguém, atendia a todos com a mesma atenção, o mesmo carinho e o mesmo amor de pai. É uma honra ter aqui o bispo que fundou a Diocese, 50 anos depois, para comemorar seu jubileu episcopal”, afirmou d. Edney.

A segunda parte da homilia foi proferida por d. Waldyr Calheiros, que levou d. Clemente para ser seu vigário geral, assim que ele deixou a diocese. “Há muito o que falar de d. Clemente e se ficássemos aqui uma manhã inteira seria pouco para destacar todas as qualidades desse beneditino, que se tornou bispo e continuou seu trabalho de apascentar as ovelhas. D. Clemente foi aquele pai que muita gente gostaria de ter e não teve, especialmente para o clero diocesano. Um bispo que não sabia chamar a atenção de ninguém e, quando tinha que fazê-lo, se reunia separadamente, mostrando seu espírito desprendido de vaidade e apego”, frisou d. Waldyr.

Gozando de pleno vigor físico e com um tom de voz de impressionar muita gente, o homenageado do dia, que foi presenteado após a comunhão, se manifestou fazendo um relato de seus 33 anos de bispado, lembrando que encontrou aqui 80 comunidades e hoje tem 432. Ele lembrou sua chegada em 1960, quando foi recebido pelo governador Roberto Silveira, o atual prefeito Heródoto Bento de Mello e o então núncio apostólico d. Armando Lombardi. “Naquele dia fomos recebidos com tapetes de flores na Avenida Aberto Braune, um momento muito emocionante”, destacou d. Clemente. Ele também relembrou as assembleias diocesanas. “Realizamos 13 assembleias diocesanas, meu sucessor, d. Alano, depois realizou uma e agora fico feliz em saber que d. Edney vai realizar a 15ª. Passamos períodos muito difíceis, fizemos muitas amizades, tivemos o carinho do povo nas ruas e onde passávamos éramos cumprimentados calorosamente. Lembro-me do primeiro padre que ordenei, até o último, antes de sair. Tenho que agradecer ao monsenhor Teixeira e monsenhor Mieli, que foram meus primeiros braços direitos. A CNBB e o Concílio Vaticano II me ajudaram muito a formar a diocese, mas também todos os padres, leigos e, não posso esquecer de fazer um agradecimento todo especial a d. José Batista de Almeida Pereira, ao padre Aldo, que muito contribuiu, até financeiramente, para o nosso sucesso; ao padre Romero e à irmã Cândida. Enfim, é muita gente que tenho que lembrar, mas tenho medo de cometer injustiça. A verdade é que nos 33 anos de trabalho pude colher todas as raças de Deus”, finalizou d. Clemente.

Falando em nome do clero diocesano, padre Luiz Cláudio assim se pronunciou: “Não posso deixar de falar sobre o senhor que, além de bispo, foi um pai para mim, me acolhendo na Diocese e me ordenando padre. É muita alegria, como disse d. Edney, ter aqui, 50 anos depois, o bispo que fundou a diocese que o senhor pegou, com 80 comunidades, e que hoje tem 432 e cresce a cada dia, fruto de sua incansável fé e amor a Deus. O senhor criou as assembleias diocesanas, participou do Concílio Vaticano III e da Conferência de Puebla, fez inúmeras visitas pastorais, organizou toda a parte social da Igreja Particular de Nova Friburgo, lutou pela reforma agrária, principalmente nos municípios de Papucaia, Cachoeiras de Macacu e Trajano de Moraes, realizou o sínodo diocesano em 1991 e uma série de outros trabalhos que deixou como legado, para que todos nós, hoje, possamos aproveitar e desfrutar dessa beleza que foi o seu pontificado”.

Encerrada a missa, foi oferecido almoço de confraternização na sede da Cúria Diocesana.

Um pouco mais

sobre d. Clemente

Nasceu no Rio de Janeiro, na Rua Paissandu 106, em 8 de julho de 1917. Terceiro filho, tem uma irmã e um irmão. Foi concebido cinco anos após depois de seu irmão. Sua mãe à época tinha 40 anos, seu pai era comerciante de automóveis na Rua Sete de Setembro. Ainda na árvore genealógica da família, dom Clemente é neto de imigrante francês, chegado ao país em circunstâncias estranhas. Seu avô veio brigado com a família de Toulouse, sul da França; de lá seu avô embarcou para a Austrália, pois seu pai tinha se casado pela segunda vez e ele não aceitava essa união. Filho de Ernesto Isnard e Zulmira de Gouveia Isnard, foi ordenado sacerdote em 19 de dezembro de 1942, nomeado bispo em 23 de abril de 1960, sagrado em 25 de julho de 1960. Em 26 de março de 1960, o Papa João XXIII criou a Diocese de Nova Friburgo, através da bula Quandoquidem Verbis, desmembrada das dioceses de Campos e Valença, sendo núncio apostólico da época dom Armando Lombardi.

Um mês depois, d. Clemente foi nomeado primeiro bispo da Diocese e tomou posse em 25 de agosto de 1960, adotando como lema Te Pastorem Sequens, que traduzido para o português quer dizer “Seguindo-te como Pastor”. Sua passagem pela Diocese foi das mais profícuas, pois organizou as pastorais, criou dezenas de paróquias, constituiu milhares de amigos em todos os 19 municípios e transformou a Diocese em exemplo para o estado do Rio de Janeiro.

Escreveu vários livros e foi empossado membro da Academia Friburguense de Letras e Associação Friburguense de Imprensa. Um dos principais escritos de sua autoria foi Magistério Episcopal (edição da diocese), com artigos da REB em Grande Sinal. No início de seus estudos d. Clemente teve um professor particular, apesar de sua mãe ter cogitado a hipótese de colocá-lo no Colégio Santo Inácio. Seu professor foi Ernane Reis, um notável que também lecionou para as famílias Guinle e Paula Machado. Com alguns de seus poucos professores católicos, como Alcebíades Delamare, e amigos que frequentavam as mesmas aulas, como Francisco Augusto de La Roque, que chegou a reunir outros alunos, também católicos, criou um outro centro de estudos religiosos, porém, a maior paixão de dom Clemente era realmente a Ação Universitária Católica, na Praça XV.

Teve a honra de ser amigo dos principais nomes da política, social e cultural do país, como Alceu de Amoroso Lima, senador Vergueiro, Lurdinha – neta do conde Paes Leme, Carlos Lacerda, o poeta Raul de Leoni Ramos, Jayme Ovale e muitos outros. Ele viajou quase o mundo inteiro pregando o evangelho de Cristo e se notabilizando por suas opiniões sobre política, cultura, religião e outros assuntos. Foi e ainda é a maior autoridade em liturgia religiosa, pois seus escritos ainda hoje estão à disposição de todas as pessoas. Exerceu o cargo de vice-presidente da CNBB por vários mandatos; foi coordenador nacional de liturgia; vice-presidente do Conselho Episcopal Latino Americano (Celam)); conviveu com quatro diferentes papas - Paulo VI, João XXIII, João Paulo I e João Paulo II. Tinha o carinho de todos eles e constantemente era chamado ao Vaticano para reuniões da religião católica. Foi um dos poucos bispos brasileiros a ter importância no Concílio Vaticano II e nas reuniões especiais de Medelin e Puebla, escrevendo, inclusive, documentos importantes sobre os dois grandes eventos da década de 70.

Governou os católicos de Friburgo por 33 anos, de 1960 a 1994, quando foi sucedido por d. Alano Maria Pena. Criou o próprio clero, trouxe padres espanhóis e italianos para a Diocese, que foram de fundamental importância para o desenvolvimento pastoral. É tido como o pastor de todos os momentos, pois tinha sempre uma palavra de carinho para todos que o procuravam. Sua voz serena e seu estilo calmo, típico de monge beneditino, o consagraram como um bispo confidente e aconselhador. Mesmo quando tinha que chamar a atenção de alguém, d. Clemente jamais alterava a voz.

Organizou o Seminário Diocesano, que funcionou em Lumiar, depois Prado, e hoje está num moderno espaço, de característica suíça, no Tingly, do qual participou da inauguração em 19 de agosto de 2006.

Depois que deixou a Diocese, doou todos os seus paramentos ao museu diocesano. Retornou mais oito vezes e, numa delas, em 2004, para celebrar uma missa de pedido de perdão aos padres Antonio Manguti, José Suarez e Fernando Rojo Hernandes, em virtude de acontecimentos lamentáveis de 1985, que culminaram com o afastamento dos três religiosos da diocese.

Exercia muita influência sobre os principais dirigentes da cidade, a ponto de ter sempre o carinho de todos eles, seja qual fosse o partido, cor da camisa, agremiação política, cargo ou função na sociedade. Dom Clemente era sempre procurado para aconselhá-los na hora de uma decisão importante. Se, antes de encerrar seu episcopado em Nova Friburgo, tinha sempre a agenda cheia com pregações de retiros, palestras, conferências, encontros e outras atividades no Brasil inteiro, quando saiu isto não mudou e até pouco tempo o nosso bispo mais querido tinha uma agenda bastante lotada.

No ano de 2004 teve sua vida contada no livro Na porta do Mosteiro, escrito pelo professor Alexandre Gaze, e em 2008 publicou o livro Reflexões de um bispo, falando sobre as instituições eclesiásticas atuais.

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