Colunas
Viajantes: cotidiano e história—Parte 1: As zonas cafeeiras
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
A chegada da família real portuguesa para o Brasil em 1808, e a abertura dos portos brasileiros, acarretou a vinda de muitos cientistas europeus, notadamente franceses, ingleses e alemães, ávidos de curiosidade sobre um país que até então estivera rigorosamente fechado a quem quisesse percorrê-lo e estudá-lo. As observações das expedições desses cientistas sobre as cidades e vilas do Brasil produzem representações, que embora sob uma perspectiva subjetiva, permitem construir a história de uma sociedade em determinado período de tempo e em uma região. Nas matérias seguintes vamos apresentar a narrativa de Johann Jakob von Tschudi (1818-1889). Naturalista e médico, Tschudi assume em 1860 o cargo de embaixador suíço no Brasil, permanecendo nessa função até 1868. Tschudi percorreu o interior das províncias do Rio de Janeiro e de São Paulo com a missão de observar e relatar ao governo de seu país as condições de vida e de trabalho de colonos suíços. Será através das percepções e impressões de Tschudi que vamos conhecer um pouco do cotidiano da vila da Nova Friburgo e do distrito de Cantagalo na segunda metade do século XIX.
Tschudi percorrera, sob incessantes chuvas, a freguesia de Sebastiana de Nova Friburgo, com destino a fazenda Bom-Fim, onde se hospedara. A propriedade era de Heckerdorn, do Cantão de Solothurn, há pouco tempo ali estabelecido. Na manhã seguinte, foi até a fazenda Palmital do Córrego da Anta, a meia légua de distância, igualmente pertencente a um suíço, que nela residia havia muitos anos numa reclusão de misantropo. Ao deixar a fazenda Palmital descreve o trecho percorrido como uma região bem cultivada, com várias fazendas dedicadas à cultura do café, “em larga escala”, apesar dos cafezais não lhe parecerem tão bem cuidados como os que vira, meses atrás, na província de São Paulo. Tschudi criticou as estradas, observando encontrarem-se todas elas em péssimo estado. À noite, pousou em uma fazenda de propriedade de três irmãos de Heckerdorn, o da fazenda Bom-fim, onde pernoitara dois dias antes. O pai dos Heckerdorn encontrava-se entre os primeiros suíços que imigraram para o Brasil em 1819, por iniciativa do rei D. João VI, que fundaram o termo de Nova Friburgo. Descreve-os como gente muito simples, arraigada ainda aos costumes da pátria, de “vida patriarcal”. Trabalhavam parelho com seus 70 escravos na lavoura, faziam suas orações matinais em conjunto com a escravaria e tratavam-nos “com desvelos humanos e fraternais, que seria difícil encontrar igual tratamento algures”.
Tschudi descreve o assentamento de colonos suíços em Nova Friburgo como um “malfadado empreendimento”, observando que muitos colonos abandonaram a primitiva colônia em busca de terras mais férteis e de clima mais propício, estabelecendo-se, parte deles, entre Cantagalo e Aldeia da Pedra [Itaocara]: “Aí continuaram a trabalhar, mais favorecidos pelo solo e pelo clima, sem desfalecimentos, e alguns conseguiram tornar-se fazendeiros abastados”. Encontrou um dos raros sobreviventes dos primeiros colonos suíços que imigraram para a vila de Nova Friburgo, Xaver Wermelinger, com 84 anos, originário do cantão de Luzerna, de Willsau. Esse ancião sonhara que enriqueceria na América e quando soube que reuniam colonos para o Brasil, foi um dos primeiros a se alistar, acompanhado da mulher e dos filhos: “Os primeiros 12 ou 15 anos foram-lhes duros, de amargas decepções, pois sofreram toda a sorte de reveses que traz a miséria. Mas aos poucos a situação foi melhorando e, afinal, o sonho se tornou realidade, pois havia já longos anos que vivia contente e satisfeito”.
Tschudi descreve no decurso de seu trajeto em direção a Cantagalo uma paisagem cultivada com numerosos cafezais. Chega até as fazendas São José e Gavião pertencentes ao barão de Nova Friburgo e segue para a fazenda Nossa Senhora da Conceição do Rio de Negro, de propriedade do Sr. Dietrich, o qual relata ter passado horas agradáveis com homens de grande cultura. Observa ser Cantagalo um dos mais importantes centros de cultivo do café no país, o qual se colhiam diversas espécies de café, como o Mocca, o Aden, o Mirtha e Le Roy e destaca as onze fazendas pertencentes ao barão de Nova Friburgo naquela região. Mais uma vez ressalta a precariedade do transporte por via terrestre que provocava inúmeros acidentes nas tropas de mulas, além das chuvas que desvalorizavam a carga devido à umidade: “Caminhos transitáveis e boas estradas de ferro são, pois, elementos indispensáveis e vitais para as zonas cafeeiras...”. Destacou algumas fazendas instaladas no distrito de Cantagalo utilizando métodos modernos e práticos, na contramão da “apatia e indiferença geral que reina no meio brasileiro”, observando que muitos dos fazendeiros eram europeus “de grande inteligência”. Cita como exemplo Jakob Van Erven, o primeiro a trilhar pela agricultura racional, tendo introduzido várias inovações na tecnologia agrícola. Van Erven administrava onze fazendas do barão de Nova Friburgo, sendo coproprietário de algumas delas. Sua técnica com excelentes resultados influenciou os demais fazendeiros do distrito.
Na próxima semana, “O fim da lavoura branca”.
Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora do livro “Histórias da História de Nova Friburgo”. historianovafriburgo@gmail.com

Janaína Botelho
História e Memória
A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.
A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.
Deixe o seu comentário