Terra dos inhames: cotidiano e memória

quinta-feira, 08 de agosto de 2013

A presença hegemônica de luso-brasileiros e de escravos em Nova Friburgo mina qualquer tipo de representação do município como Suíça Brasileira. Quando os suíços se estabeleceram na Fazenda do Morro Queimado, no princípio do século XIX, já haviam sesmarias distribuídas aos luso-brasileiros e sesmeiros provenientes de Minas Gerais. Em razão da má qualidade das terras distribuídas aos colonos suíços e alemães, eles se deslocam para o Vale do Macaé de Cima com a autorização de D. Pedro I, que continua a política do pai, D. João VI, de estabelecimento de núcleos coloniais. Daí a denominação de São Pedro da Serra, que homenageia seu benemérito, D. Pedro I. Conhecida como a terras dos "Inhames”, o Vale do Macaé tem exaltada a qualidade de suas terras, excelentes para o cultivo do café, produto agrícola de maior lucratividade no Brasil oitocentista. Nesse vale, os colonos suíços encontram um quilombo e fazendas pertencentes a luso-brasileiros, como a Fazenda de Lumiar, preito tecido à localidade de mesmo nome em Portugal, de onde vieram os alfacinhas. 

No entanto, aquilo que poderia ser uma insular "Suíça Brasileira” nada nos remete à cultura helvética. Os colonos suíços e alemães de Lumiar e São Pedro da Serra foram absolutamente aculturados, assemelhando-se ao matuto brasileiro. Não existe vestígio na língua, nos hábitos, na sociabilidade, na música, no trabalho e na vida cotidiana. Em entrevista com os agricultores Aldenir Augusto Ouverney (1927), Moacyr Marchon (1922) e José Maria Heringer (1943), descendentes de suíços, temos uma ideia de como era o cotidiano daquela região, em meados do século XX. Os agricultores vendiam os produtos de sua lavoura no centro de Nova Friburgo. Toda semana, na segunda-feira, a tropa seguia rumo ao centro da cidade transportando nas bruacas (bolsas de couro com tampa) capado, batata-inglesa, ovos embalados na palha do milho e toucinho. O toucinho é prova da influência da charcuteria portuguesa e aculturação dos suíços. Para o português "não há sermão sem Santo Agostinho, nem panela sem toucinho”, ou ainda "toucinho e pão fazem almoço são.” Em São Pedro fazia-se o "brissi”, uma massa de fubá com torresmo, assado no forno. 

Ainda nas primeiras décadas daquele século utilizavam como transporte o sistema de tropa de burros e o trajeto não era o que se utiliza atualmente entre Lumiar e o centro da cidade. Tomavam o caminho da Tapera e do Colonial 61. Como se levavam muitos dias para fazer esse trajeto, arranchavam no Colonial 61, fazendo o mesmo no retorno da viagem. Arriava-se a carga, empilhada-as, lavava-se os animais e a seguir conduzia-os ao pasto. Cada qual cuidava de sua tropa. Acendiam o fogo, preparavam o café e cozinhavam arroz, feijão, carne seca e batata. Complementavam a refeição com animais que caçavam nas proximidades.

Na localidade de Lumiar e de São Pedro, a descendência suíça era hegemônica. Sabe-se que onde a concentração de brancos é significativa, normalmente a adaptação do africano é mais difícil. Na região não se permitia que os negros fizessem seus próprios bailes. Quando fugiam a regra local, alguns "valentões” do Sana iam a esses bailes aplicar-lhes um corretivo. Faziam com que os negros tirassem os sapatos e dançassem em cima do sapê, planta espinhosa, além de obrigar os infelizes a tomar purgante com café. Outrossim, quando brancos e negros ocupavam o mesmo espaço de sociabilidade em festas locais, o costume da época tolerava que comessem e bebessem irmamente, mas dançar juntos, jamais. O delegado exercia grande autoridade e não permitia que a rapaziada fizesse arruaça. Para punir os rapazes que provocavam sarilho mandava arrancar "vassouras”, um tipo de planta nativa, dura de extrair do solo. 

Nessa época a vida material comparada aos padrões atuais era paupérrima. O banheiro ficava do lado de fora da residência, geralmente próximo às bananeiras. Improvisando o que seria um vaso sanitário, abria-se um caminho no solo para passar água corrente, fazia-se um cercado de barro e ali aliviavam as necessidades fisiológicas. Nas escolas raramente se utilizava cadernos de papel. Escrevia-se em pedras de ardósia com borda de madeira. A ardósia ficava dentro da capanga do escolar e, se quebrasse, o castigo era a palmatória e os "bolos”. A merenda que se levava para a escola consistia em batata-doce e banana. Era um tempo em que nos velórios se lavava o defunto e servia-se aos presentes café, broa, sopa, rosca, canja e cachaça. Não foram poucos os velórios que terminaram em confusão devido ao excesso de consumo da cachaça nessas ocasiões. De acordo com as práticas dessa comunidade insular, observamos a aculturação dessa comunidade originariamente helvética. Como eles próprios reconhecem e admitem, de suíços ficaram apenas os sobrenomes. 

 

Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora de diversos livros sobre a história de Nova Friburgo. Curta no Facebook a página "História de Nova Friburgo”

TAGS:
Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

A Direção do Jornal A Voz da Serra não é solidária, não se responsabiliza e nem endossa os conceitos e opiniões emitidas por seus colunistas em seções ou artigos assinados.