Se podes dançar, podes trabalhar

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

No final do século XIX, muitos portugueses imigraram para o Brasil e na velha província fluminense as regiões preferidas pelos lusitanos foram a Norte fluminense (8.546), a Região Serrana (5.387) e a do Médio Paraíba (5.284). Na Região Serrana, Nova Friburgo teve a preferência dos lusitanos (2.319), seguida por Petrópolis (2.262). A matéria de hoje é para descrever um pouco da vida de Maria Thereza Babo Coelho, nascida em 18 de outubro de 1935, em Duque de Caxias, filha de um desses portugueses que imigraram para o Brasil no século passado. O pai, José Coelho Babo, nascido no Porto, veio com 17 anos de idade para o Brasil. Já a mãe, natural de Coimbra, imigrou quando tinha 7 anos de idade. José Coelho Babo trabalhou inicialmente com o tio no comércio, mas logo buscou a sua independência. Veio residir em Nova Friburgo na década de 50, do século XX, adquirindo o ponto do Bar América de seu irmão Justino Coelho Babo. O Bar América era um restaurante e ponto de encontro de pessoas “da roça”, agricultores de Amparo, que lá realizavam seus negócios. Eles tinham muito dinheiro, recorda-se Maria Thereza Babo: “Eu me lembro que eram homens grandões, com chapelão, roceiro mesmo”. Posteriormente, seu pai vendeu o Bar América e montou o restaurante Colombo, em frente à estação de trem. E vem a lembrança das viagens de trem, do farnel de pão, bolo, frango, frutas e água. Maria Thereza ajudava o pai no restaurante onde toda a família trabalhava. Recorda-se dos alemães que usavam o posto telefônico que ficava no restaurante de seu pai. Eram os executivos das fábricas de industriais alemães que se instalaram em Nova Friburgo, a partir de 1911. Sentia medo deles, “eram homens grandes, sérios, muito exclusivistas, não se misturavam, se sentiam superiores”. Segundo Maria Thereza, viviam muito isolados, não sorriam, não faziam “um agradinho”. No que tange as colônias em meados do século XX, as mais importantes eram a italiana, a portuguesa, a alemã e a libanesa. Já a colônia suíça não tinha muita visibilidade e nesse aspecto surge algo curioso. Somente depois que o historiador suíço Martin Nicoulin escreveu o livro sobre a gênese de Nova Friburgo foi que a valorização da imigração suíça se fez presente. Até então, os que descendiam dos suíços estavam no ostracismo. Pode-se seguramente afirmar que a obra de Nicoulin desencadeou as dezenas de biografias de memórias familiares dos descendentes de colonos suíços.
Próximo ao restaurante Colombo se localizava o Beco da Sofia, a esquina do pecado, uma casa de prostituição. Em frente ocorriam muitas brigas, tiros, “era um inferno”, recorda-se Maria Thereza Babo. Por outro lado, quando saíam da alcouce, as prostitutas se comportavam educadamente e se vestiam com recato. Não havia extravagância na maquiagem, na indumentária e no comportamento. Nota-se que há exagero, ou melhor, uma falsa representação das prostitutas em novelas e filmes brasileiros. Quando cruzavam os limites da Casa de Tolerância portavam-se com recolhimento por determinação de D. Sofia, proprietária do alcouce. As “moças-damas” chegavam ao restaurante de seu pai depois da meia-noite, em grupos, para jantar, recorda-se Maria Thereza, e era ela quem as servia: “Eram de uma educação, de um respeito, andavam bem vestidas, eram mulheres tratadas, tinha um médico especial para elas, o Dr. Feliciano (que depois foi prefeito da cidade), usavam roupas normais, não se maquiavam muito, pois D. Sofia era durona, quando não andavam na linha ela mandava embora”.
Na sua adolescência Maria Thereza Babo se recorda da sorveteria Única, o meeting da época, de propriedade de imigrantes espanhóis da família Ruiz, da sessão de cinema no Theatro D. Eugenia e o footing na praça Getúlio Vargas. No meio da praça ficava quem não tinha namorado; o lado direito e o lado esquerdo eram para as moças que já tinham namorado: “Éramos muito namoradeiras”. O que era uma garota namoradeira naquela época? Maria Thereza responde que “era quem flertava, sorria, conversava com um, com outro, mas não dava a mão, nem nada... quando ficava mais sério tomava um sorvete na Única... dava uns beijinhos escondidinhos... mas se desse a mão ficava moça falada”. O trem, os pêssegos suculentos do sítio da família Sertã, a Casa de Madame Santana com seu pomar de uva, pera, maçã, jabuticaba, goiaba e muitas camélias, uma das mais belas residências da Alberto Braune, hoje estacionamento de um supermercado, são as memórias de Maria Thereza Babo de Nova Friburgo, em meados do século XX. Mesmo com todo o romantismo de sua adolescência, Maria Thereza Babo destaca que trabalhava arduamente com toda a família no restaurante do pai. Todo o período de seus anos dourados foi permeado de muito trabalho e rigor na educação. Trabalhava-se muito à época, recorda-se, mesmo sendo uma moça de classe média. Depois do baile, nas domingueiras na SEF, o pai a acordava cedo para mais um dia de labuta, dizendo: “Já que podes dançar, podes trabalhar”. 

Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora do livro “História e Memória de Nova Friburgo”. historianovafriburgo@gmail.com

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História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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