Colunas
Sai do Facebook e vai pra rua!
quinta-feira, 27 de junho de 2013
E o friburguense saiu do Facebook e foi para as ruas. Não ficamos à margem do grande movimento social que envolveu todo o país. Iniciado com a revolta do "vintém”, ou melhor, o aumento de vinte centavos na passagem do ônibus, esse acontecimento acarretou uma verdadeira catarse nacional. O gigante povo brasileiro, deitado em berço esplêndido, soltou o seu grito do Ipiranga, colocando na pauta de reivindicações temas como corrupção, saúde, educação, transporte público, melhoria do judiciário, entre outros. Porém, como a proposta dessa coluna é a história local, vamos analisar por Nova Friburgo e deixar de lado a conjuntura nacional. A população friburguense foi em massa às ruas demonstrar a sua indignação. O inglês usa a palavra "demonstration” para esse movimento de protesto de rua que adequa-se bem a essa situação. Demonstração de indignação que já corria solto nas redes sociais, e do fórum virtual a população foi para as ruas. Vasculhando o passado encontramos uma crítica ao comportamento inerte dos friburguenses, no final do século XIX, diante dos acontecimentos políticos no município. Em editorial de O Friburguense, de outubro de 1893, a respeito de uma lei local, o articulista José Antonio de Souza Cardoso escreveu que o povo friburguense assistia a tudo "bestializado” se mostrando indiferente a tudo. Alguns anos antes esse mesmo articulista escrevera: "...Decretaram que o povo deveria pagar imposto por isto e por aquilo, e o povo calou-se e pagou. Depois outro imposto, mais outro, e o povo ainda calou-se e pagou. Proibição de umas tantas cousas, e o povo calou-se e obedeceu. Ah! Povo de Carneiros! Mais outro imposto, o tal de cinco tostões e escadas e degraus(...) Alto vareta! Gritou o povo já engasgado, isto é de mais! Safa! O povo também tem direitos mui sagrados que devem ser respeitados. Ele há de saber fazer-se respeitar, ou com gosto, ou com jeito, ou com força. (...) O povo de Nova Friburgo ante as provocações e crueldades que lhe são atiradas, há de mostrar sua grandeza de sentimentos: não há de ceder dos direitos que tem de defender a sua propriedade assaltada. (O Friburguense, coluna "O Repórter”, 19/10/1890). Quando o articulista declara que o friburguense assistia a tudo bestializado, fazia uma analogia a uma frase de Aristides Lobo, segundo o qual o povo brasileiro teria assistido bestializado à proclamação da República, sem entender o que se passava. Porém, José Murilo de Carvalho considera que este tipo de observação dos intelectuais republicanos baseava-se na busca do cidadão ao estilo europeu, o eleitor bem informado ou o militante organizado das barricadas. Para ele, a afirmação da inexistência de povo político, de apatia total da população era claramente exagerada. Se na proclamação da República, a participação popular foi arranjada de última hora e de efeito cosmético, logo após as agitações tornaram-se mais frequentes e variadas, a exemplo das greves operárias, passeatas, o jacobinismo florianista, a revolta da armada em 1893 e o atentado contra Prudente de Morais em 1897.
Seríamos um gigante adormecido, deitado em berço esplendido? A qualificação eleitoral excluindo os analfabetos e as mulheres deixou fora da participação política mais da metade da população brasileira durante boa parte de nossa história. Somos uma nação jovem em termos de exercício do voto e os anos de ditadura ainda nos tirou uma fatia dessa prática. Retornando aos protestos iniciado pelo movimento "passe livre”, em Nova Friburgo fica a seguinte questão: qual será o impacto desses protestos sobre a classe política? É notória a tragédia de 2011, ocorrida em Nova Friburgo, cujo fenômeno meteorológico provocou enchentes e deslizamentos de morros causando centenas de mortes e prejuízos materiais à população. Logo, Nova Friburgo tem uma boa pauta de reivindicações aos poderes públicos, em sua maioria não resolvidos. O prefeito de Nova Friburgo, Rogério Cabral, em inúmeras entrevistas, declarou que encontrou a prefeitura falida, sem receita e que mal consegue arcar com as despesas mais elementares. Sr. prefeito, administrar com dinheiro é muito fácil. O bom administrador é aquele que gerencia criando receita, cortando despesas até que o problema se equacione. Se o senhor conhecesse a história de Nova Friburgo, veria que o turismo foi, durante muitos anos, um dos pilares da economia local. Então por que não promover melhorias no espaço urbano, reformando as praças públicas, obrigando os estabelecimentos comerciais a retirar as horríveis placas em frente às suas lojas que acarreta uma terrível poluição visual. Igualmente, a prefeitura deveria retirar de imediato a fiação escabrosa no centro da cidade, o qual terá que fazer obrigatoriamente daqui há alguns anos, em virtude de lei. A revitalização do centro da cidade é essencial, pois Nova Friburgo era objeto de inúmeras crônicas de visitantes elogiando seus espaços de sociabilidade. É claro que os seus arredores, duramente castigados pela tragédia de 2011, merecem especial atenção, mas não há espaço aqui para outras sugestões. O objetivo dessa matéria é tão-somente demonstrar que os friburguenses não são como "carneiros”, como rotulou os nossos antepassados o articulista Souza Cardoso. Saímos das redes sociais e fomos pra rua. Nenhum cientista social e político deu uma explicação razoável a essa "onda” que tomou o país. Fazer ouvidos moucos a essas reivindicações é temerário.
Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora de diversos livros sobre a história de Nova Friburgo. Curta no facebook a página "História de Nova Friburgo”.

Janaína Botelho
História e Memória
A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.
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