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Os clubes de serviço no passado e o apartheid social. A agonia do Xadrez, Country Club e Clube dos 50
Ultimamente existe um debate em torno da restauração do chalet do Barão de Nova Friburgo, situado no Country Club. O orçamento para o restauro é assustador. Corolário a essa discussão vem à tona a questão da decadência dos clubes de Nova Friburgo. Primeiro foi o Clube do Xadrez, repleto de dívidas e que foi encampado pela prefeitura municipal. Depois foi o Clube dos 50, que foi vendido a uma incorporadora e será brevemente um edifício na cidade. Coincidentemente estamos falando de clubes sociais que foram criados no segundo quartel do século XX para serem exclusivos, restritos à elite local, cujos timoneiros não desejavam se misturar com a arraia miúda, com os populares.
O Clube do Xadrez foi formado pela elite friburguense de ricos comerciantes, diretores executivos das indústrias recém criadas no município, profissionais liberais, enfim, como diziam os friburguenses oitocentistas: “o que há de melhor e mais seleto em nossa sociedade”. Funcionou inicialmente no antigo Hotel Salusse, depois passou a funcionar em cima de uma confeitaria, onde é a Predial Primus, antes de construir sua nova sede em estilo mourisco. Seus bailes eram magníficos. Da sacada do prédio do Clube Xadrez vinha um saxofonista que tocava o retumbante instrumento, avisando que o baile já ia começar. Porém, começaram a adquirir títulos do clube pessoas indesejáveis, que não pertenciam à alta classe social. Em razão disso, um pequeno grupo começou a procurar um novo local para formar um clube social que correspondesse ao exclusivismo que se desejava imprimir. Nada menos do que um apartheid social. Logo, adquiriram a esplendida propriedade dos Guinle, outrora casa de campo dos Clemente Pinto, família do Barão de Nova Friburgo e o denominaram de Country Club. Dessa vez, o clube seria realmente seleto. O valor do título era tão caro que muitos homens prósperos titubearam em ingressar no seleto clube. Com o título realmente caro e mensalidade que não caberia no orçamento de um operário de fábrica, finalmente se conseguiria o exclusivismo desejado pela elite local. O Clube dos 50, pelo próprio nome, provavelmente foi mais um caso de apartheid social, restringindo o clube a somente cinquenta sócios.
Já a história da Sociedade Esportiva Friburguense é outro caso interessante. Originalmente era um clube restrito a alemães e seus descendentes. No entanto, depois da Segunda Guerra Mundial, os alemães passaram a ser hostilizados em Nova Friburgo, em razão do nazismo, e começaram a admitir friburguenses, ainda que não fossem descendentes de alemães, para contemporizar as tensões entre os alemães e a população local. Em Nova Friburgo é antiga a demarcação de espaços de sociabilidade entre as classes sociais. Nos bailes de máscara, no final do século XIX, o indivíduo não poderia mostrar a sua identidade senão à meia-noite. Para evitar que um ‘pobretão’, um ‘mal-nascido’ valendo-se do anonimato do disfarce participasse de um baile da elite local, uma comissão de cavalheiros era autorizada, logo na entrada do salão, a solicitar que os mascarados retirassem a máscara, revelando a sua identidade somente a esse pequeno grupo. Com isso, impediam a entrada da ‘canalha’ na restrita festa.
Quando atualmente vem à tona o debate em torno da decadência dos clubes como o Xadrez, Clube dos 50 e do Country Club, a história nos traz alguma luz. Foram criados como clubes de serviço exclusivistas, numa época em que havia em Nova Friburgo um apartheid social, aspecto atualmente destituído de sentido. Deve-se entender ainda que as sociedades evoluem, vão se tornando mais complexas, e que espaços de sociabilidade, a exemplo dos clubes, ficam sem sentido no momento em que os indivíduos passam a optar por outras formas de entretenimento. As academias, os condomínios dos prédios que já possuem área social comum, a instalação de piscina e sauna em residências, hoje acessíveis à classe média baixa, a facilidade de acesso ao litoral pela Serramar são alguns exemplos de novos espaços de lazer da sociedade atual. Logo, o problema não é a administração dos clubes, mas a mudança de comportamento. Historicizando os clubes sociais de Friburgo, posso garantir que irão agonizar por muito tempo, pois são espaços de sociabilidade do passado.
Janaína Botelho é autora do livro O Cotidiano de Nova Friburgo no Final do Século XIX. Para ler as matérias anteriores acesse historiadefriburgo.blogspot.com

Janaína Botelho
História e Memória
A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.
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