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Os bas-fonds friburguenses - Um inquérito sobre Nova Friburgo - 19 de janeiro 2012
Parte II
Desde 1910, Nova Friburgo passava por uma nova fase. A cidade passara a ter luz elétrica, novas indústrias se instalavam na cidade, o afluxo de veranistas ainda era significativo, e boa parte da população se beneficiava da atividade econômica do turismo. Consolidava-se, igualmente, como um município que abrigava os melhores estabelecimentos de ensino do país, fruto de uma tradição que remontava ao Instituto Colegial Freese, do inglês John Henry Freese, fundado em 1841, que formou boa parte da elite política do Império. Na matéria de hoje, daremos sequência à publicação de parte do livro de Arthur Guimarães, que escreveu diversas crônicas sobre Nova Friburgo em visita que fez ao município em 1916, publicadas pelo Jornal do Comércio, legando-nos importantes informações sobre o cotidiano da cidade. Inicialmente, Guimarães discorre sobre um empreendimento feito por um português, que segundo ele, era quase êmulo espiritual do barão de Nova Friburgo. Nesse episódio, praticamente nos relata a origem do bairro de Vila Amélia. Não cita o nome do português capitalista, mas possivelmente a quinta a que ele se refere é o casarão onde está atualmente a delegacia de polícia. Aquele local foi um sítio de pereiras e Arthur Guimarães assim escreveu:
“...Comprou velha propriedade situada no começo da estrada de Teresópolis, a partir do Suspiro, outrora conhecido por Moinho. Já parece outra coisa.(...) O edifício, construído num platô, traçado à moderna, batizado Vila Amélia, revela conforto interno, correspondente às linhas externas. Das varandas, dominando a estrada, deixa ver os montes e vales em torno num bucolismo encantador. A vista abrange a capelinha da Santo Antônio, o jardim do Suspiro, as bougainvilles, as magnoleiras e a serpeante orla do rio. Lá para adiante, rasgados os morros, do outro lado da estrada, o panorama ganhará em vastidão. A quinta dominá-lo-á completamente. O córrego que atravessa a propriedade, e alimenta o velho moinho, da casa antiga, foi canalizado a pedra e cal. Hoje é canalete de sólido aspecto, coberto por latada de ferro, com vides escolhidas. O vale, à esquerda, acha-se cultivado, e emenda com pequena mata. A frente, arborizada igualmente, entesta com a estrada, disposta em taludes. Será gozo para os olhos dos transeuntes...”
Mas nem tudo são flores na bucólica Nova Friburgo. Arthur Guimarães, a seguir, discorre sobre os cortiços existentes no centro da cidade, situação que remonta ao século XIX. Na realidade, nos parece que a divisão geográfica de bairros somente se fará muitos anos depois, quando a elite residirá no centro da cidade e as classes populares nos arrabaldes. Guimarães escreveu:
“Tendo-me ocupado das iniciativas da terra, é azado o momento de dizer acerca de seus elementos improdutivos, os bas-fonds [ralé, escória social] friburguenses. Por ali praticamente se avaliam a extensão e a profundeza do pauperismo existente nas localidades do interior. Nem a vida fácil, pela achega de alimentos obtidos quase sem esforço e sem dispêndio por plantações e outros meios, nem o preenchimento de necessidades imperiosas, como o vestir e outras, dá a essa gente, habituada à promiscuidade dos cortiços, das casinhas sem cubagem, e portanto, sem ar e sem luz, atividade e estímulo. Permanecem na ociosidade, fazem o soalheiro nas portadas, vencidos pelo parasitismo, entregues a promiscuidade. Em cada vinte, um só trabalha, embora todos se agitem esterilmente, nas noitadas, de violão em punho, ou nos cateretês e sambas característicos, ou ainda, nas conversas das vendinhas. Predomina o nacional em tais formigueiros humanos. Em um ou outro, a bronquite se expressa. Quanto ao mestiço, a generalidade revela vivacidade e real inteligência inculta. O preto é bom, em regra retardado. O caboclo rareia”.
Demonstrando exacerbado preconceito quanto aos afrodescendentes, conforme vimos, cuja análise sobre os egressos da escravidão aqui não cabe, Guimarães já se refere aos imigrantes brancos de forma positiva, como homens laboriosos e morigerados, que trabalhavam em ofícios, na lavoura e outros misteres. Prossegue ele: “A colonização italiana trouxe o gosto pelas artes. Os artistas nacionais e italianos promovem o gosto pela música, proporcionando à cidade revezadamente a audição de duas bandas no coreto da Praça Quinze de Novembro. Os brasileiros também compõem as figuras das bandas. Assim se explica porque muitos querem ver, em uma e noutra, filiações partidárias. Rivalidades sim, parecem existir. São naturais. As duas bandas dão, perfeitamente, seus recados sonoros.
“A Praça 15 de Novembro, aos domingos, santificados e feriados, regurgita de gente, à tarde, sendo muito mesclado o conjunto de passeadores e passeadoras”. Referindo-se aos mendigos, observa que esmolam todo o dia. “Orçam por dezenas, de ambos os sexos, acompanhados os cegos por crianças e guiadores, alguns com alforjes, para as esmolas em espécie. Há, como em toda parte, a indústria da esmola. Aos sábados, um contingente de fora explora o veranista. Aparecem falsos mendigos, mesmo da terra. A primeira revista [grupo], alegre, ruidosa. A segunda, triste, grave sintoma dessa enfermidade social, alarmante pelo aumento constante: o pauperismo. Orçam por cinquenta, os mendigos de Friburgo. Não faltam os tipos de rua. Alguns gozam popularidade. A garotada persegue-os e, a muitos, lhes faz partidas. O Serafim, por ex., é doido inofensivo. Perambula pela cidade, provocando a galhofa dos inconscientes.” Na próxima semana, a matéria “A Terra dos Cravos”.

Janaína Botelho
História e Memória
A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.
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