O naturalista Burmeister em Nova Friburgo

quinta-feira, 06 de dezembro de 2012

Parte II
Em meados do século XIX, o naturalista alemão Karl Hermann Burmeister (1807-1892) passou por Nova Friburgo durante sua expedição científica, nos revelando interessantes aspectos do seu cotidiano. Burmeister registrou que a vila tinha 1.000 habitantes e fez referência à economia local: “...A terra, aí e nos arredores, é pouco fértil, pedregosa, com densas florestas e tão desnivelada que poucos são os lugares apropriados para roça. Por isso, a vida dos colonos era bem pobre no começo e mesmo hoje em dia poucos há que se possa considerar em boa situação. A banana e o café não chegam a amadurecer nessa altitude e as laranjeiras não medram; o milho e o feijão são os produtos essenciais e a criação de gado uma das principais fontes de renda, devido à indústria de laticínios. Os legumes europeus dão bem, mas há dificuldade em dispor-se deles. O transporte da manteiga para o Rio é bastante difícil e, por outro lado, não existem pastos bastante extensos para a manutenção de gado e para a matança. Por estes e outros motivos, o lugar nunca poderá florescer e continuará com o seu aspecto triste e medíocre de agora.” Burmeister não viu extensas plantações nos arredores da vila, mas apenas hortas e pomares. 
Sobre a vila registrou ter a forma de um retângulo comprido onde se localizavam as melhores casas, destacando a residência de Antônio Clemente Pinto, o barão de Nova Friburgo, cujos jardins do fundo se alastravam até a beira do rio. A vila ainda não possuía igreja, mas durante sua estada lançaram, a 20 de março de 1851, a pedra fundamental do que seria a igreja matriz. Na Casa da Câmara eram realizados os ofícios religiosos, palácio da justiça, salão de baile e sala de exames para a juventude. A cadeia local estava ainda em construção, observando o naturalista que as cadeias eram geralmente uma das primeiras construções feitas nas vilas brasileiras. Os prédios eram ao rés do chão, de madeira e barro e quase todos tinham vidraças. Apenas o Hotel Salusse, de grande renome, era um sobrado, mencionando ser uma hospedaria “para pessoas de destaque”. Era igualmente o local onde se realizavam bailes na vila. Outro espaço de sociabilidade que mencionou foi uma casa de bilhar. 
Como naturalista seu olhar voltou-se para a natureza local, assim descrevendo a vila: “Algumas grandes quaresmas, cujas flores maravilhosas, roxo e escuro, formam os mais lindos enfeites da mata brasileira, eram o único adorno desses cerrados que rodeavam a cidade (...) Os palmitos, dos quais existem ainda indiscutíveis vestígios nessas paragens, foram literalmente devorados e para tirá-los abateram as plantas, como é costume. A frequente existência dos mesmos em matas mais remotas não deixa a mínima dúvida quanto a sua ocorrência anterior perto da cidade, quando a capoeira era ainda uma opulenta mata virgem, pois até hoje os pretos trazem frequentemente os palmitos para os vender na cidade (...) Antigamente, haviam macacos em todos os bosques próximos das habitações de Nova Friburgo, mas hoje em dia, não se ouve nem se vê este animal; se algum se aventura até mais perto da vila, o olhar aguçado do caçador descobre-o logo, pois este faz bom negócio vendendo a caça ao Sr. Bescke. As corças, que eram frequentes, não mais existem nessas paragens; nunca vi nenhuma durante minha estada nessa vila. O mesmo se pode dizer dos outros animais, tais como o tapir (anta), o jaguar (onça ou o cuguar) dos quais não encontrei também um só exemplar. O único animal de certo porte que pude ver foi a capivara, da qual comprei um esqueleto...”  
A seguir, Burmeister discorre sobre Cascata Pinel, um dos mais poéticos recantos de Nova Friburgo, lugar de passeio de veranistas para fazer pic-nics. Carlos Pinel, descendente de Felippe Pinel, o grande psiquiatra francês, veio para o Brasil em 1839. Encantado com a suavidade do clima de Nova Friburgo adquiriu em 1842 uma propriedade conhecida como a “Fazenda dos Pinéis”. Foi no recanto bucólico da Cascata Pinel que em 1868, a Princesa Isabel e o Conde d’Eau promoveram uma festa campesina o qual compareceu o imperador D. Pedro II. Essa cascata se localiza entre Sumidouro e D. Mariana: “Nova Friburgo possui, pois o clima da costa norte da África e da Palestina e deve prestar-se à cultura de tâmaras e não às da banana (que não medra aí), mandioca, café, arroz ou cana-de-açúcar, que aliás, não dão bons resultados. (...) Além desse prado, divisamos então, um plano mais baixo, a habitação de um colono, a qual, ainda ao longe, já se distinguia pelo seu aspecto limpo e correto. A habitação pertencia a um francês, Sr. Pinel, cujo pai havia sido médico particular de Napoleão. Ignoro até hoje o que lhe induziu o filho a abandonar a pátria para viver nas matas brasileiras, nesse lugar tão solitário. Desde vários anos, vivia lá com sua numerosa família, ocupando-se, em suas horas de lazer, com o estudo da natureza, especialmente com o das orquídeas, das quais mandou algumas espécies novas para a Europa, fazendo-as conhecidas aí (...) A casa onde morava o Sr. Pinel se tornara, tanto pela agradável convivência de seu dono, quanto pelas belezas naturais que a cercavam, ponto de atração de todos os viajantes dessa região (...) Essa excursão, cheia de trabalhos, fez-me grande bem ao organismo. Com contentamento, vinha notando o aumento de minhas forças físicas, também devido aos banhos frios cotidianos, e pensei aumentá-las ainda mais com outras excursões semelhantes...” Burmeister discorre sobre muitos outros aspetos, mas fundamentalmente sobre a flora e a fauna da região, e nos limitamos nesses dois artigos apenas ao registro do cotidiano da população da vila de Nova Friburgo em meados do século XIX.

Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora do livro “História e Memória de Nova Friburgo”. historianovafriburgo@gmail.com

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Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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