O médico trata, a natureza cura

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O médico trata, a natureza cura. Era o pensamento de Hipócrates, conhecido como o pai da medicina. Viveu na época áurea do pensamento grego e a sua obra “Dos Ares, Águas e Lugares” traduzia o pensamento da incipiente ciência médica do século XIX. A obra hipocrática caracteriza-se pela valorização da observação empírica não se limitando ao paciente em si, mas também ao seu ambiente. “Ares, Águas, Lugares” discute os fatores ambientais ligados à doença: efeito das estações do ano e as diferenças entre elas; os ventos; o efeito da água sobre a saúde, etc. 
A vila de Nova Friburgo no início do século XIX caminhava de forma satisfatória. Lugar de passagem dos tropeiros que transportavam o café de Cantagalo rumo ao Rio de Janeiro, o comércio local beneficiava-se com esse trânsito, mormente quando Cantagalo a partir de meados daquele século tornou-se um dos maiores produtores de café do país. No entanto, outro fator que vinha movimentando a economia local eram os doentes de tuberculose que procuravam o clima de Nova Friburgo, por recomendação médica, e os cariocas que fugiam das epidemias de verão na Corte. O juiz Cansanção de Sinimbu registrou em 1851 que pessoas doentes procuravam a salubridade do clima de Nova Friburgo para a cura de doenças e igualmente hóspedes que fugiam da canícula da Corte para respirar o ar puro e temperado das montanhas. A beleza da vila de Nova Friburgo e sua merecida reputação de salubridade atraía todos os anos os cariocas, que décadas depois ficariam até seis meses no município.
 Numa epidemia de 1850, D. Pedro II retirou-se para a Imperial Fazenda do Córrego Seco, atual Petrópolis. A morte dos dois herdeiros do Imperador, Afonso (1845-7) e Pedro (1848-50), consagrava o Rio de Janeiro como uma cidade de atmosfera pestilenta, com miasmas morbíficos, provocando a fuga de cariocas no verão. Iniciaria o hábito entre a elite do império do deslocamento para regiões salubres na estação calmosa. O ambiente das montanhas, como o bairro de Santa Tereza, e as vilas montanhosas de Petrópolis e Nova Friburgo passaram a ser uma solução imediata para livrar-se das epidemias. Petrópolis recebia maior afluxo devido a sua proximidade com a Corte, mas a atraente vila de colonos europeus, como era conhecida Nova Friburgo, igualmente recebia o seu quinhão de hóspedes. Nova Friburgo surge no mapa da geografia médica, indicada como um local salubre por suas condições climáticas e mesológicas.  
A reconhecida salubridade do clima de Nova Friburgo inauguraria um dos maiores institutos hidroterápicos da América Latina. O Instituto Sanitário Hidroterápico foi inaugurado em 1872, em Nova Friburgo, pelo afamado médico Carlos Éboli, cujo hotel que lhe era anexo, é o atual Colégio N.S. das Dores. Igualmente a Marinha procuraria a salubridade do clima de Nova Friburgo para estabelecer um centro de tratamento de cura de marujos com beribéri e posteriormente construiria o Hospital de Tuberculosos. Onde hoje funciona o prédio da Uerj, por muito pouco não se transformou em um segundo hospital para tuberculosos. Mas afinal, o clima era mito ou realidade na cura dessas doenças? Na verdade, trata-se de um mito. Em momento algum o clima seria responsável pela cura da tuberculose. Porém, fatores como o repouso e a boa alimentação favoreciam a cura dessa doença e daí surge o mito com a sua força criadora. Todo esse comportamento de fugir para lugares mais altos adveio da teoria dos miasmas, objeto de inúmeras teses médicas à época. Acreditava-se que os miasmas eram emanações provenientes de vegetais em putrefação; águas estagnadas em ruas e quintais; cadáveres sepultados nas igrejas; os matadouros; as valas entupidas de despejos, entulhando-a e impedindo a corrente da água, de onde partiam eflúvios pestíferos pelas imundícies que se ajuntam; entre outros fatores. Os médicos acreditavam que o ar atmosférico do Rio de Janeiro, quente e úmido, associado à falta de preceitos higiênicos faziam surgir os miasmas que favoreciam as doenças, e daí o grande sucesso da obra de Hipócrates originando uma geração de médicos hipocráticos. Logo, cidades como Petrópolis e Nova Friburgo se beneficiavam dessa tese dos miasmas abrigando boa parte da elite carioca que fugia das epidemias no verão, movimentando-lhes a economia. 
Porém, quando o Rio Janeiro fez a reforma urbana no centro da cidade, derrubando cortiços, alargando suas ruas, vacinando a população, realizando aquilo que se denomina a sua belle époque, a situação dessas duas cidades serranas se transformou rapidamente. Não receberiam mais tantos hóspedes que fugiam das epidemias, pois Oswaldo Cruz erradicara praticamente muitas doenças no Rio de Janeiro, como a varíola e a febre amarela. Restaria apenas a vinda de tuberculosos, que passou a incomodar os poderes públicos e a população. Nova Friburgo tinha a imagem de cidade dos tuberculosos e essa representação já não interessava mais. Ao contrário, prejudicava sua imagem como estância de veraneio. Eram tantos os tuberculosos que se tornou uma atividade lucrativa para muitas pessoas alugar quartos em suas residências tão grande era a procura pelo clima salubre do município. Como vimos, Nova Friburgo pagaria muito caro pela tese hipocrática de que o médico trata e a natureza cura.
Matéria dedicada ao meu querido sobrinho Felipe Batista Corrêa, que se forma em medicina nesse ano.

Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora do livro “História e Memória de Nova Friburgo”. historianovafriburgo@gmail.com

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História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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