O homem diante da morte: ritos e mentalidade, somos todos caveiras do Bope - 9 de dezembro.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Pode causar estranheza, mas muitas vezes os historiadores se valem de fontes que o senso comum pode até considerar bizarro, mas que fornecem ao pesquisador material suficiente para se reconstituir as relações familiares, as mentalidades, as visões de mundo, o comportamento, entre outras informações. Assim o fez o historiador francês Philippe Ariès em dois volumes de sua obra O Homem perante a Morte, um clássico no tema. No Brasil, A Morte e os Mortos na Sociedade Brasileira, organizado por José de Souza Martins, é um livro interessantíssimo e igualmente A Morte é uma Festa, por João José Reis.

A morte vem sendo historicizada, dando importante contribuição à história das mentalidades. E chamou-me a atenção o emblema do Bope, em uma visita que fiz àquela instituição, em outubro deste ano, com meus alunos de História do Direito Brasileiro, da Candido Mendes. O símbolo do Bope, uma caveira com uma faca verticalmente encravada no crânio e duas pistolas transversas, foi apropriado de um esquadrão inglês da Segunda Guerra Mundial, que tinha como missão sabotar as bases nazistas na França ocupada. Essa alegoria significa vencer a morte. Não é necessário esclarecer aqui o risco diário a que estão sujeitas as vidas desses homens em suas atividades cotidianas. Em 2007, Marco Antonio Gripp, sargento do Bope, nascido em Nova Friburgo, foi baleado logo depois de sair do blindado numa incursão em uma comunidade no Rio de Janeiro. Em entrevista a um jornal, assim declarou: “Eram 23h quando avistamos um grupo. Trocamos tiros e eles entraram no beco. Demos a volta e desembarcamos para ver se tínhamos acertado alguém. Entramos no beco escuro e eu puxei a ponta [foi à frente]. Quando virei a esquina, estava a dois passos do cara [traficante]. Como estava escuro, só vi a boca de fogo da arma dele. Levei dois tiros na barriga. Uma passou a um centímetro do rim. Pensei que ia morrer. Continuei trocando tiros. Travou a arma e fui para um abrigo. Um tiro pegou no carregador e ficou no colete. Dois tiros acertaram o meu fuzil, um bateu na câmara de gás e outra na janela de injeção. Foi minha vitória sobre a morte”.

Apesar de dois tiros que o atingiu, ele sobreviveu e está novamente na ativa. Por isso, esses homens gritam sempre: “Caveira!”. Como disse antes, a “vitória sobre a morte” é representada pela alegoria da caveira com uma faca encravada sobre o crânio. Mas é possível uma vitória sobre a morte? Desde que a medicina evoluiu, é plausível que o homem contemporâneo tenha tal pensamento, o que era absolutamente inconcebível para o homem oitocentista (século 19), época em que a medicina ainda dava seus primeiros passos. Diante da morte, só lhes restava a resignação, a contrição, o resguardo e principalmente a humildade.

No século 19, quando a medicina nada mais podia fazer no padecimento da doença, quando se vai perdendo o vigor e azougam as forças, os poderosos homens de outrora, senhores de escravos e ricos proprietários, tornam-se humildes diante dos últimos sacramentos. Numa contrição religiosa e desprendidos de tudo que é profano, apressam-se a comparecer súplices, humildes e caridosos perante o Juiz Divino. Nesse momento, alguns se vestem com indumentárias de ordens religiosas, outros libertam escravos ou pedem mortalhas simples. D. Pedro I, homem autoritário, morreu tuberculoso aos 35 anos de idade em 1834. No seu leito de morte em Portugal, pediu que no seu enterro não houvesse exéquias reais, como determinava o protocolo. Queria ser enterrado em caixão de madeira simples, como um soldado. Já a sua amante, a biscaia Marquesa de Santos, falecida em 1867, encomendou 70 missas: cinquenta pela sua própria alma e, em um gesto de humildade hipócrita, característica das elites da época nessas ocasiões, 20 para seus escravos mortos. O Barão de Duas Barras (1840-1928), por ocasião de sua morte, é colocado como um benemérito por ter auxiliado na educação de “moços desfavorecidos” que depois alcançaram posição de relevo na sociedade. Na hora da morte, de senhor de escravo passa a “pai dos pobres”. O Barão de Nova Friburgo (1795-1869), igualmente, pediu ritos simples, por ocasião de sua morte, como nos informa Luiz Fernando Folly no livro Barão de Nova Friburgo. O barão solicitou ser envolto em um pano preto, colocado em caixão simples e enterrado em cova rasa, simbolizando nesse rito o desapego às coisas materiais. Tanto o Barão de Nova Friburgo quanto o de Duas Barras, no derradeiro momento de suas vidas, trocam o açoite do “bacalhau” que tanto rasgou os corpos de seus escravos, pelo cajado e o báculo dos humildes. Imaginam que os ritos simples na hora da morte os tornam sublimes e apagam seu passado em que amealharam fortuna à custa do sofrimento humano, a escravidão.

Passados pouco mais de um século, é interessante comparar essas duas visões de mundo do homem perante a morte: a das elites oitocentistas e a de Marco Antonio Gripp, soldado do Bope. Dos primeiros, a resignação, a contrição e a humildade. Do segundo, o desafio, a luta e o triunfo. Nessa ambivalência do pensamento humano, podemos perceber uma mudança de mentalidade que coloca um fosso profundo, ditado pela linha do tempo, entre esses dois estágios da história da humanidade. Muda-se o pensamento diante da morte que pode ser vencida pelo homem contemporâneo, sendo a ciência médica um fator determinante. Atualmente, doenças como a tuberculose, o câncer e a Aids não são mais sentenças de morte, começa-se a acreditar. Consequentemente, já que podemos vencer a morte, pode-se afirmar, por analogia à alegoria do Bope, que somos todos “Caveiras!”.

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Janaína Botelho

Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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