O crime de Tutucha Teixeira

quinta-feira, 03 de outubro de 2013

Vargem Alta foi a região de Nova Friburgo para onde convergiram colonos alemães, suíços e imigrantes italianos. Terra fértil, em que se cultiva couve-flor, batata-doce, repolho, inhame, feijão, brócolis, entre outras leguminosas. Vargem Alta e Ribeirão das Almas respondem pela segunda maior produção de flores do Brasil e de 40% da produção fluminense, cultivando astromélia, gérbera, era-paulista, crisântemo, boca-de-leão, chuva-de-prata, rosa. Região insular, abandonada há décadas por sucessivas administrações municipais, guarda longa tradição, sendo uma comunidade fechada, com matrimônios interfamiliares. Um crime ocorrido em 1933, em Vargem Alta, por Tutucha Teixeira e sua amante, ainda hoje permanece na memória local. É descrito em versos rimados, sendo interessante destacar como essa comunidade preserva a história local através da tradição oral: 

"Vargem Alta é comprida, na frente tem uma laje, fizerem um assassinato em frente à pedra do cais/ Cabeceira daquela pedra servindo de uma trincheira, causador daquela morte, Leontina e Tutucha Teixeira/ Leontina era mulher de Leonacinho e andava de farra com Tutucha pelo caminho/ Um dia ela disse, tu me tirou de casa, agora me acho perdida, faça agora dar um jeito na minha vida/ Tutucha disse, tu vieste andando à toa, o que é que eu vou fazer, minha mulher está em casa, não tenho onde botar você/ Leontina disse pra Tutucha, bota ela pra fora que eu não vou morar no mato, você fica sabendo que arsênico mata rato/ Tutucha enfiou a mão no bolso e encontrou com dois tostões e Leontina disse, onde vais Tutucha, e ele disse, eu vou comprar arsênico na vem de João Boi/ Venderam arsênio e não sabiam pra que é, e Tutucha com falsidade pra matar a mulher/ Quando Tutucha chegou em casa Leontina já estava lá, pegou o arsênico e foi logo preparar/ Tutucha entrou porta adentro e Leontina estava toda assanhada, e disse segura essa mulher, vamos dar veneno nessa danada/ E fizerem uma covardia e pegaram a mulher a força, deram tanto veneno que a garganta ficou roxa/ Depois que a mulher tinha morrido eles foram conversar, a mulher já estava morta e ainda quis lhe enforcar/ Pedro Mota foi passando e seu filho apareceu, chega lá nossa mãe já morreu/ Pedro Mota foi entrando pela porta da cozinha, topou com a mulher morta dentro da casa sozinha/ Bom dia, Tutucha, pode ficar à vontade, eu vou para Lumiar, dar parte às autoridades/ O delegado foi chegando no meio daquele conflito, entrou porta adentro e fez o corpo delito/ Essa mulher não foi morta com morte natural, mas foi envenenada, atestado não posso dar/ No fim de nove meses que vieram fazer a prisão, o Tutucha no caminho deu parte de valentão/ A polícia disse, eu sou soldado, é melhor você se entregar, porque eu tenho ordem de ter matar/ Augusto Peão tava junto e disse que esse homem faz assim, vamos levar ele na frente, vamos levar até Nestor Mury/ Quando chegou a Nestor Mury o delegado já estava lá, disse agora chegou a hora de você se entregar/ O Tutucha se entregou mas deu parte de valentão, o delegado disse, pega esse homem e mete no caminhão/ O Tutucha disse eu vou pra Friburgo preso mas levo minha oração, mas agora ele tá metido no terno de papelão/ No dia dois de maio Leontina foi intimada, passou na Vargem Alta dando gargalhada/ Com o cabelinho penteadinho, trombadinho detrás da orelha, quero ver o bonitinho que me bota na cadeia/ E chegou lá em Friburgo perante o delegado, ela não sabia que estava sendo entregada/ A tia de Tutucha, Joaquina Teixeira, que arrumou o namoro, metida na mesma classe, merece comer cadeia pra não ser tão fácil/ A vítima Clementina que foi morta com a filinha mamando, mataram a sua mãe e a filinha ficou penando/ A vítima Clementina foi sepultada no cemitério lá no mato, o doutor fizera autopsia e ainda tiraram o retrato/ Ao fazer a autopsia o sangue ainda corria, se essa mulher não fosse envenenada não morria/ O pai de Clementina era um rico miserável: Otávio Heringer, com pena de dinheiro não pôs advogado/ Era um rico sem energia não "pôs” advogado para defender a sua filha/ Que vale que em Friburgo tem um bom delegado, se não fosse a autoridade o povo tava todo desgraçado/ A nossa autoridade que seja de confiança, não solta esse marvado no meio da vizinhança/ No dia do jurado que foi muito engraçado, se não fosse o promotor o réu não seria condenado/ O nosso jurado julgou por engano, era pra ter condenado esse réu, pelo menos, 30 anos/ Tutucha passou mal lá na cadeia e foi levado para o hospital de São João, tomara que ele acabasse no fundo da detenção/ Foi levado no domingo e foi trazido na segunda-feira, foi montado no Catumbi puxando uma caganeira. 

Quem escreveu essa linda poesia foi o amigo Antônio Isaías, caboclo, peralta, lavrador de Vargem Alta. Tutucha Teixeira morreu com mais de 100 anos e cometeu outras "malvadezas” em Vargem Alta. Mas isso é outra história... Verso narrado por Edis Vitorino Pacheco (14/10/1937).

 

Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendese autora de diversos livros sobre a história de Nova Friburgo.Curta no Facebook a página "História de Nova Friburgo”

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História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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