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O carnaval em Nova Friburgo: a Batalha das Flores
Francisco Pereira Passos, prefeito do Rio de Janeiro no quatriênio do presidente Rodrigues Alves (1902-1906), não se limitou a implementar a reforma urbana, alargando as ruas, destruindo cortiços, criando boulevards, enfim, transformando a Capital Federal que passou a viver a sua Belle Époque. De acordo com relatos, Pereira Passos frustrara-se com a pouca frequência da população em um desses boulevards, como os jardins da Praça da República, outrora Campo de Santana. Resolveu então promover, no local, a Batalha das Flores, uma festa animada e elegante como as famosas batalhas de flores de Nice, Viena e Paris. Em pavilhões elegantes, com caramanchões festivos, engalanaram-se as alamedas, gramados, pontes, grutas e ilhas da Praça da República. A população prestigiou o evento e todo o parque ficou tomado pelos cariocas para verem o desfile de automóveis enfeitados de flores.
Alguns ciclistas também participaram do desfile e, em 1903, os carros eram quase todos automóveis. Instituiu-se a Batalha das Flores no calendário oficial do Rio de Janeiro, a partir de 1903, no dia 15 de agosto. Posteriormente, a prefeitura mudou a data desse evento para o dia 25 de setembro, possivelmente em decorrência da primavera. O jornal O Commentário, de setembro de 1903, teceu a seguinte nota: “Sabem todos que essas Batalhas de Flores, tão animadas, elegantes e alegres quando feitas em Nice, em Viena e em Paris, são um divertimento de ricos com o qual tem o povo a ganhar: o gosto visual do luxo em exibição e a emoção artística nos aspectos ornamentais das carruagens. É, portanto, um meio de educar esteticamente os rudes e os pobres”. Foi o renascimento da vida social do carioca, conforme escreveu o jornal O Malho.
No entanto, anos antes, como em 1900, já existia o registro de que a Batalha das Flores ocorria em Nova Friburgo. Não é possível precisar desde quando, mas devido ao seu alto nível de organização, pode-se arriscar que ocorresse a partir de poucos anos após a proclamação da República. Desde o final do século XIX, veranistas cariocas frequentavam Nova Friburgo, ficando durante seis meses na cidade, chegando em novembro e retornando ao seu torrão natal em abril. A maior parte fugia das epidemias de febre amarela que se espraiavam pela Capital Federal. Há o registro de que a Batalha das Flores ocorrera no mês de março em Nova Friburgo. Logo, em se considerando que um evento desses ocorria regularmente no mês de março, pode ter sido um festim consagrado como o encerramento da temporada de verão. Na ocasião, havia uma comissão de cavalheiros que organizava essa festividade e se compunha de friburguenses e notadamente de veranistas. Como no Rio de Janeiro, era um desfile do qual somente a elite participava.
Com a sociedade musical à frente e soados os primeiros acordes da banda Euterpe, partindo da Igreja Matriz, o florido préstito dos alegres combatentes desfilava garboso e imponente pelas alamedas que circundavam a Praça 15 de Novembro (Getúlio Vargas), em direção à Praça do Suspiro. Em carruagens artisticamente ornamentadas, o entusiasmo era delirante e as toaletes das gentis-senhoritas formavam um quadro de variadas cores. Os alegres foliões passavam pelas duas alas de coqueiros que margeavam a bela alameda da Praça do Suspiro se dirigindo à poética colina de onde corriam as águas de sua fonte. As carruagens eram de uma criatividade triunfante e as senhoras e senhoritas igualmente se ornavam com flores, algumas trajando belíssimo chapéu ornado de elegante catolé, com delicadas orquídeas, as mesmas que ornavam o carro em que se encontravam. Ao fundo de uma dessas carruagens, uma riquíssima borboleta de seda e veludo com reflexos prateados. A carruagem de um desembargador estava ornamentada com flores amarelas e rosas e já a de Eduardo Salusse representava vistosa concha de rosas com fundo rosáceo, encimado por uma chic âncora de rosas brancas.
Em outra, uma mimosa corbeille em pequeninos arcos de rosas variadas, sobressaindo uma meia-lua de rosas amarelas e cor de rosa. Havia uma carruagem em estilo japonês com enorme e vistoso chapéu de sol artisticamente desenhado, trazendo, pendentes das varetas, guirlandas de papoulas. Uma verdadeira teteia! Uma delas estava enfeitada de cores amarelas e vermelhas, trazendo, ao fundo, na parte superior, a data da batalha de 21 de março de 1900, com flores da mesma cor e abaixo lindíssima cornucópia de flores delicadíssimas negligentemente pendidas. A seguir, uma toda ornamentada com flores naturais amarelas, trazendo ao fundo uma borboleta de seda da mesma cor. A carruagem dos descendentes do Barão de Nova Friburgo, famílias Dantas e São Clemente, todos os integrantes vestidos de branco, era uma delicada corbeille blanche de camélias artificiais e naturais, um mimo de delicadeza e gosto. A de Galdino do Vale representava um caramanchão de folhagens. Finalmente, a carruagem dos Rui Barbosa char à bancs, bouton d’or en feuillage, très distingué.
Dado o sinal, os alegres lutadores iniciavam o combate em que eram trocados projéteis perfumados, as flores que ornavam os carros. Subiam pelos ares rosas, camélias, orquídeas e papoulas numa luta renhida e inofensiva entre as carruagens que desapareciam sob uma nuvem de odoríferas flores. As senhoritas geralmente começavam a batalha, atirando flores, de um carro contra o outro e igualmente nos espectadores, que muitas vezes correspondiam. Possivelmente a Batalhas das Flores, em Nova Friburgo foi se esmaecendo a partir de 1904, quando esse evento começou a se consolidar no Rio de Janeiro. Mas o que é mais interessante é que ela tenha ocorrido na cidade serrana antes mesmo da Capital Federal, numa época em que Nova Friburgo viveu a sua Belle Époque.
Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora do livro “Histórias e Memória”.

Janaína Botelho
História e Memória
A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.
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