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José Bonifácio e a colônia dos suíços
quinta-feira, 23 de maio de 2013
Durante os primeiros anos da instalação dos suíços em Nova Friburgo, é possível encontrar uma significativa correspondência entre José Bonifácio de Andrada e Silva e a direção da colônia. Muitos historiadores atribuem a ele a condução razoavelmente pacífica do processo de independência do Brasil e de ter evitado o desmembramento das províncias da futura nação. José Bonifácio não foi somente um orientador político do jovem Pedro I. Acompanhava-o na boemia e costumava terminar a noite dançando lundu, uma dança tipicamente africana. Abolicionista convicto, nunca teve escravos e ao contrário das teses eugenistas de superioridade da raça branca sobre as demais, escreveu que "o mulato deve ser a raça mais ativa e empreendedora, pois reúne a vivacidade impetuosa e a robustez do negro com a mobilidade e a sensibilidade do europeu”. Preocupou-se igualmente com a inserção social dos libertos. Segundo ele, não bastava libertar os escravos, era necessário incorporá-los à sociedade brasileira com igualdade de direitos. Bonifácio além de defender a transformação dos escravos em "cidadãos ativos e virtuosos”, preconizava igualmente a reforma agrária, substituindo o latifúndio improdutivo pela pequena propriedade familiar. Logo, não é de se admirar que José Bonifácio tinha a sua atenção voltada para Nova Friburgo, que abrigava colonos suíços com base na pequena propriedade rural e no trabalho livre.
Como D. João VI partira para Portugal em 1821, a Vila de Nova Friburgo, criada no ano anterior, ficou sem o seu patrono e idealizador, deixando "órfãos” os colonos suíços. Ferrenho defensor do fim da escravidão e da reforma agrária, era natural que José Bonifácio fizesse o possível para auxiliar a colônia dos suíços. É provável que o consentimento dado por D. Pedro I, em 1821, para que os suíços ocupassem os sertões de Macaé de Cima, deixando as terras inférteis do núcleo colonial, tivesse a influência de Bonifácio. A intervenção de Bonifácio pode ter sido decisiva para que os suíços não passassem maiores dificuldades e sua significativa correspondência nos primeiros anos do estabelecimento da colônia deu fôlego ao projeto de D. João VI.
Assim, a correspondência que localizamos de José Bonifácio tratando do cotidiano da colônia demonstra um possível interesse em acompanhar um modelo de sociedade que, em tese, deveria ser constituída apenas por homens livres. O seu êxito serviria de fundamento para suas ideias abolicionistas e da reforma agrária. Porém, a vila de Nova Friburgo era circundada por fazendas com significativo plantel de escravos. Francisco de Assis Barbosa em "José Bonifácio e a Política Internacional", in Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, jul/set, 1963, menciona o projeto de Bonifácio em estabelecer "uma nova legislação sobre as chamadas sesmarias, com o aproveitamento das grandes áreas inaproveitadas, entregando-as a europeus pobres, índios, mulatos e negros forros, a quem se darão de sesmarias pequenas porções de terrenos para se cultivarem e estabelecerem”.
No entanto, José Bonifácio teria se frustrado com os suíços. O motivo? Cooptados para formar um núcleo de homens livres, muitos suíços assim que tiveram capital adquiriram escravos, utilizando-os como força de trabalho em suas lavouras. A correspondência trocada entre suíços comprova essa afirmação. Gisele Sanglard em "Nova Friburgo: entre o iluminismo português e a gênese bíblica”, nos informa que os suíços assim que puderam adquiriram escravos. Pierrre Gendre se assusta e se choca com a fácil adoção da escravidão por seus conterrâneos. Em sua carta relata: "Apesar deste preço, os negros são mais baratos que os outros empregados; eles aprendem tudo que queremos, se nos damos ao trabalho de os instruir, pois eles são inteligentes, dóceis, obedientes, polidos, fortes e robustos, comem somente legumes, mandioca, carne-seca e peixes. Eles não estragam roupas, dormem no chão ou sobre esteiras de junco e como eles são propriedade de seus senhores, eles não vão correr de um a outro para os trair. Os senhores Mandrot de Morges, Graffenried, Schmid, Morell etc. de Berne se encontram aqui, e se propõe adotar a cultura; eles compraram para este efeito negros, que os custou mais ou menos 1200 fr. a peça.”
Bonifácio em seu discurso "Representação à Assembleia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil sobre a escravatura”, em 1823, já se preocupava com o fato dos estrangeiros renderam-se à escravidão: "Demais, continuando a escravatura a ser empregada exclusivamente na agricultura, e nas artes, ainda quando os estrangeiros pobres venham estabelecer-se no país, em pouco tempo deixam de trabalhar na terra com seus próprios braços e logo que podem ter dois ou três escravos, entregam-se à vadiação e desleixo, pelos caprichos de um falso pundonor...” Falecido em 1838, Bonifácio viu o projeto da colônia de suíços desintegrar-se. É provável, outrossim, que tenha influenciado na vinda compulsória para a vila de Nova Friburgo, de famílias alemãs, em 1824, desviando-as da Bahia. O objetivo era alocar os alemães nas datas de terras abandonadas pelos suíços e dar novo fôlego à colônia. Logo, a ideias liberais de José Bonifácio e a correspondência com a administração colonial da vila de Nova Friburgo nos leva a crer que ele acompanhou pari passu a sua evolução.
Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora de diversos livros sobre a história de Nova Friburgo. Curta no Facebook a página "História de Nova Friburgo”.

Janaína Botelho
História e Memória
A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.
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