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“Graças à iniciativa alemã, Friburgo será industrial” - Um inquérito sobre Nova Friburgo - 2 de fevereiro 2012
Parte IV
O cronista Arthur Guimarães veio a Nova Friburgo em 1916, nos legando várias crônicas sobre o que observou no cotidiano da cidade. No campo da sociabilidade, registrou a existência de charutarias, casas de bilhar, cinema, um teatro, circo, rink de patinação, fora o encontro casual nas vendas. O sport sobre os patins já tinha fiéis adeptos, mas a diversão maior era observar a queda dos patinadores novatos. Cenas grotescas e risíveis se passavam no rink para gáudio da galera. Na Praça do Suspiro, um campo para lawn tennis. Em 1916, ainda predominava o sistema de transporte de carroças, registrando-se a existência apenas de quatro automóveis. Mas o que se destacava como meio de transporte era a bicicleta, sem distinção de classe, sexo, idade e raça, sendo o veículo de toda a gente. Médicos utilizavam as bicicletas para visitar seus pacientes. A passeio ou a serviço, quase toda a população utilizava esse veículo. Pedalar era o gozo maior dos veranistas e não faltavam garagens de aluguel pela cidade. Um negociante italiano, o Sr. Orestes, fabricava bicicletas (Casa Oreste), mandando vir as peças da Itália, daí a origem da coqueluche entre os friburguenses na utilização de tal veículo. Segundo o cronista, o Sr. Orestes, “tornou vitoriosa a sua indústria e até a democratizou em excesso, o ativo e inteligente italiano”.
No que tange ao comércio da época, havia açougues que apenas comercializavam carne fresca de porco e de toucinho. A venda de lenha era feita por cargueiros e carreiros, além de ser vendida aos feixes nas quitandas e armazéns. Nas quitandas, geralmente uma atividade de italianos, muito “afreguezada”, vendiam-se criação, ovos e legumes. Nova Friburgo se abastecia de leite vindo de Cantagalo, Macuco, Cordeiro e Bom Jardim, sendo esse produto transportado congelado, em barras. O comércio de laticínios era fixo e ambulante. Nas leiterias, comercializavam-se leite, coalhada, manteiga e doce de leite. Produtores da região também vendiam, em determinados dias, produtos frescos de seus sítios como queijos, requeijões, manteiga, etc. Já no comércio de frutas, predominavam os ambulantes, apregoando pelas ruas da cidade manga, uva, melão, jabuticaba, morangos, bananas, caqui, ameixa, melancia, marmelo e abacaxi. A maçã produzida em Nova Friburgo, em geral, somente servia para se fazer doces e, por isso, importava-se de outros locais.
Os botequins forneciam café, leite, chocolate, caldo de cana e cerveja. Moía-se o café, bem como o milho para se tirar o fubá, à vista do freguês. Confeitaria, colchoaria, tamancaria, charutaria, tinturaria, ourivesaria, alquilarias e várias ferrarias complementavam o comércio. Os estabelecimentos de arreios, malas e molduras eram modestos. A confecção de balaios de taquara era feita por afrodescendentes. Havia curiosamente um serviço especializado em alugar móveis aos veranistas. Os livros escolares e de literatura eram vendidos em bazares e em uma alfaiataria se poderiam encontrar revistas nacionais e estrangeiras. Nas ruas, ouviam-se os reclamos dos camelots e apregoadores volantes de sorvetes e nougats.
Como vimos em matéria anterior, os imigrantes dominavam o comércio. Os sírios na venda de fazendas, armarinhos e modas; os italianos as alfaiatarias, relojoarias, sapatarias, funilarias, açougues, venda ambulante de jornais, e dividiam com os portugueses o comércio das padarias. No campo da indústria, era peculiar aos italianos a fabricação de massas, a exemplo do macarrão e macarronete. Fora dos limites urbanos, havia um curtume e várias olarias, sendo uma delas a do Cônego, fundada pelo Barão de São Clemente. Havia ainda no local uma fábrica de tijolos e telhas. Na Ponte da Saudade, uma charcuterie de um alemão que fabricava salsicharias, salames, mortadelas, linguiças, morcilhas, etc, e ainda uma fábrica de cerveja. Eduardo Guinle montara no Parque São Clemente um cevadouro de grandes proporções, importando várias raças de porcos.
A partir de 1911, empresários alemães implantaram indústrias têxteis, de artigos em couro e metalúrgicas em Nova Friburgo. Peter Julius Ferdinand Arp, Maximilianus Falck e Otto Siems inauguraram as fábricas de Rendas Arp, Ypu e fábrica Filó, respectivamente. Mas quando o cronista Arthur Guimarães visitou Nova Friburgo, essas indústrias não representavam nem um terço do império que se tornariam nos anos vindouros. Os agricultores pobres destinavam, pelo menos, uma das filhas para trabalhar na fábrica ou no serviço doméstico, como meio de auxiliar a família. A maioria das mocinhas friburguenses, descendentes de imigrantes, optavam pela fábrica como meio de vida, salvo se os pais fossem agricultores remediados ou fizessem um casamento com alguém de boa condição social. Guimarães fez uma crítica aos empresários alemães por desprezarem a mão de obra nacional em cargos de melhor qualificação: “As fábricas de rendas e passamanarias não abrem mão de teutos nos postos de responsabilidades, e nisso são mais rigoristas do que os ingleses, os quais aproveitam as aptidões dos brasileiros nos cargos técnicos e burocráticos de importância.” Finalmente, o cronista profetiza: “Graças à iniciativa alemã, Friburgo será industrial”.
Na próxima semana, a última parte: “No tempo das hortas nos quintais”.

Janaína Botelho
História e Memória
A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.
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