Flanando em Nova Friburgo

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Vitor Hugo escreveu em os Miseráveis: “L’erreur est humain; le flâneur est parisien”. Para alguns autores, o flâner é apenas uma glosa literária, um tipo ideal muito lógico encontrado mais no discurso do que na vida cotidiana. No entanto, há registros de que diversos homens da elite do século XIX assumiram o pathos do flâner, tipo social que recebeu apologia na obra de Baudelaire. O poeta mergulhou nas ruas de Paris, em busca de experiências que pudessem ser agregadas à sua poesia. Alguns articulistas em Nova Friburgo, no século XIX, influenciados por sua obra, também se aventuraram nas ruas da incipiente urbs para extrair inspiração à sua coluna.

O desenvolvimento da imprensa contribuiu para que a escrita sobre a cidade se afirmasse: o texto rápido que narra o desenrolar da vida no dia a dia é moda que ganha as páginas dos jornais, inaugurando a reportagem. Dickens, Balzac, Hugo, Dostoiévski, Gogol, Zola, entre outros, foram exemplos de escritores que, ansiando por desvendar a alma humana, compreenderam que deveriam debruçar-se sobre o bulício das ruas. O flâner foi um tipo citado por diversos autores, desde o início do século XIX. No entanto, foi na obra que Baudelaire que ele mais se evidenciou. Baudelaire foi o flâner do século XIX. Ele louva o artista que mergulha na multidão, recolhe impressões, e as joga no papel assim que regressa ao seu studio. O surgimento de espaços públicos de prazer e lazer criou uma figura pública com disposição para vagar, observar e folhear as cenas de rua: o flâner—elemento central na literatura crítica da modernidade e da urbanização. Na literatura, ele foi descrito como observador arquétipo da esfera pública, nas grandes cidades europeias, do século XIX: “FLANANDO.. Tenho philosofado um pouco, sobre essas cousas de Friburgo e seriamente uma me impressiona e deixa-me as vezes um pouco receioso do futuro d´esta nossa poética e encantadora cidade/ Tudo vae muito bem, dirão os leitores./ Sim é o que parece, respondo-lhes eu./ Dir-me-hão que não tenho razão, mas eu provo e deixo-os todos ahi com côr de água quente, e um sorrizosinho amarello nos lábios./ É questão de dia menos dia, nos temos grandes acontecimentos; os factos vão se accumulando e em breve alguma causa de extraordinário surgirá, provocando um basbaque geral./ Cogito, prescruto, ouço, observo, vejo uma desordem, uma anarchia geral por baixo da capa pezada d’esse silencio que nos envolve, d’essa paz que mos illude...” (O Friburguense, 1896).

O jornalista Souza Cardoso de O Friburguense criou a coluna “Pif-Paf” onde “lia” a cidade, admirava sua paisagem, observava seus costumes, relatava seu cotidiano e descrevia seus tipos sociais. Como o flâneur, percorria as ruas do centro de Nova Friburgo de onde retirava a matéria-prima do seu ofício. A seguir, dirigia-se para a redação do periódico transformando suas “leituras da rua” em crônicas. Alguns anos depois, assumiria a sua flanerie e mudaria o nome da coluna “Pif-Paf” denominando-a “Flanando”. Na realidade, o articulista encarnava uma mistura do dândi inglês, quando se tratava da indumentária, com a personificação do flâner francês, ambos personagens emblemáticos do século XIX. Como o Baudelaire, Souza Cardoso usou a máscara, a farsa, o anonimato, assinando a coluna como “Pof-Puf” para viver novas experiências e ter mais liberdade, fugindo à seriedade dos editoriais que escrevia. Na qualidade de flâner percorria as ruas narrando os acontecimentos como leitor do social, já que era o cotidiano que prendia sua atenção: “Bello céo de Friburgo! Se é dia, o azul do firmamento tem um colorido (...) se é noite, o negro de suas trevas, destaca a luz de myriade de estrellas que scintillam dobrada claridade (...) confesso: gosto mais da noite (...) por isso, gosto mais da noite, negra como a aza da graúna, porque os astros vivem e scintillam dobrada claridade, e eu posso então contenplal-os espandindo a minha phantasia que se perde em mil cogitações sobre os corpos sideraes; (...) Felizmente, não sou o único e assim ao menos, pensa commigo a municipalidade, tanto que a illuminação é conservada somente até certa hora porque o material que ella fornece não dá luz senão até pouco depois da meia-noite./ No fim tudo fica em trevas e a gente póde melhor contemplar os astros./ Toma-se uma estrella por guia para não errar a casa, á outra a gente reza, para não levar uma facada, nem quebrar uma perna na vala... Flâner.” (O Friburguense, 1896)

Evidentemente, faltavam em Nova Friburgo a multidão e a metrópole, habitat do flâner e matérias-primas do poeta francês, já que as pequenas cidades não ofereciam o mesmo espaço que as grandes, para os passeios e a observação. Mas isto não inibiu o articulista em encarnar o personagem incorporando este tipo em suas colunas. No cabeçalho da coluna “Pif-Paf”, havia o desenho de um cavalheiro elegante, pince-nez à mão, numa representação simbólica do tipo físico do flâner. É através da riqueza deste olhar sobre a cidade, que é possível reconstruir o cotidiano de uma cidade no passado: “Flanar! Aí está o verbo universal sem entrada nos dicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da população, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco (...) É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. O flâner é ingênuo quase sempre (...) e conhecendo cada rua cada beco, cada viela, sabendo-lhe um pedaço da história, como se sabe a história dos amigos (quase sempre mal), acaba com a vaga ideia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio. O balão que sobe ao meio-dia no Castelo sobe para seu prazer; as bandas de música tocam nas praças para alegrá-lo;... E de tanto ver que os outros quase não podem entrever, o flâner reflete. As observações foram guardadas na pela sensível do cérebro; as frases, os ditos, as cenas vibram-lhe no cortical. Quando o flâner deduz, ei-lo a concluir uma lei magnífica por ser para seu uso exclusivo, ei-lo a psicologar, ei-lo a pintar os pensamentos, a fisionomia a alma das ruas (...) Eu fui um pouco este tipo complexo, e talvez, por isso, cada rua é para mim um ser vivo e imóvel...”

Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora do livro “História e Memória de Nova Friburgo”. historianovafriburgo@gmail.com

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Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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