Famílias, lugares, história

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Foi em razão do Colégio Anchieta que Mário Saraiva conheceu Nova Friburgo. O sonho de seu pai era internar os filhos no vetusto casarão, que sob rígida disciplina "enjaulava” os alunos durante nove meses. A fama do Colégio Anchieta rivalizava com o do Caraça, em Minas Gerais. Teciam-se muitos encômios ao Colégio Anchieta, pois além da boa formação, os alunos tinham aulas de teatro, música, esgrima e passeios a cavalo. Conhecido até o último quartel do século XX como chateau, nesse mesmo local funcionou o colégio do provecto educador Barão de Tautphoeus, homem erudito, apreciado pelo Imperador D. Pedro II e citado por Joaquim Nabuco em "Minha Formação”, como um dos maiores educadores do Brasil. Mário Saraiva partiu em dezembro de 1915 para estudar em Nova Friburgo. Seu pai alugara uma vivenda próxima ao Colégio Anchieta, onde havia um pomar de magníficas ameixas amarelas e vermelhas. Diariamente desfilavam em frente à residência da família muitas tropas de mulas com produtos da lavoura vindos de Sebastiana (estrada Friburgo-Teresópolis) e de outros lugares. 

Na segunda década do século XX, através das lembranças de Mário Saraiva, percebe-se uma Nova Friburgo bucólica, sentindo-se no ar o perfume das magnólias. Nas grandes residências, além dos jardins, havia jabuticabeiras, figueiras e outras árvores frutíferas. O cravo era flor da moda e os mais disputados eram do Prof. Constantino, cuja plantação ficava atrás da Igreja Matriz. Em frente à estação de trem avistava-se um soberbo chalet, com dois torreões, rodeado de um jardim de crisântemos (provavelmente Saraiva se refere a Casa de Madame Santana). Havia, outrossim, o solar da família Sertã com magnífica chácara repleta de fruteiras que alcançava o Rio Bengalas. Antonio Lopes Sertã, imigrante português, incorporou ao seu nome o lugar onde nascera, a localidade de Sertã, em Portugal. Fez fortuna vendendo alimentos e roupas numa "tendinha” aos trabalhadores da estrada de ferro que chegavam à vila. Nova Friburgo era uma cidade que recebia grande contingente de tuberculosos. O Dr. Beauclair, tisiólogo, desenvolvera com êxito um trabalho educativo junto aos tuberculosos, mostrando-lhes a necessidade de adotar medidas higiênicas a bem da comunidade. Já o Dr. Zamith, advogado, senhor de vasta banca, foi o responsável pela introdução do caqui em Nova Friburgo, em seu sítio no Tingly. O Suspiro era o ponto de atração dos veranistas: jogava-se peteca, flertava-se, bordava-se e liam-se livros. Avistavam-se grupos de moças, algumas a bordar, outras caladas e atentas à leitura que se fazia de um livro. Na Rua Gal. Osório havia excelentes casas como o palacete do barão de Duas Barras (atual Faculdade de Odontologia). Lá havia igualmente a residência do Conde de Matosinhos, do pai de Galdino do Vale, e fronteiro ao Colégio Anchieta o palacete de José Marques Braga, homem de elegância discreta adquirida nos colégios ingleses. A bela vivenda de D. Emília Sertã, ao final da Rua General Osório, merece destaque. É atualmente a Casa dos Pobres São Vicente de Paula.   

A elite friburguense era festeira, estimulada pelos veranistas. Nas residências, as moças da casa tocavam piano, cantando trechos de ópera. Eram costumes de antanho, em noites de luar, improvisar serenatas nas residências mais próximas. No tempo em que a iluminação era precária os friburguenses andavam à noite com lanternas furta-cor. Os bons oradores eram apreciados rodas de conversa pela encantadora palestra, repassada de pontas de ironia. No verão, a praça XV de Novembro (atual Getúlio Vargas) regurgitava de veranistas e nessa ocasião ninguém tinha coragem de aparecer sem gravata e chapéu. Havia constante movimento entre a praça principal e a do Suspiro. Os hotéis ficavam lotados. O Hotel Engert era o mais caro e o mais procurado pelos que buscavam "repouso”. Possuía extenso parque onde os hóspedes passavam as horas embaixo de copadas árvores. Já os viajantes escolhiam o Hotel Leuenroth, por ser o mais próximo da estação de trem. O mais procurado pela turma da animação era a Pensão Central de Madame Araújo, mais conhecida por Dona Cocota. Se de quando em quando havia uma assuada (desordem, arruaça) no Hotel Engert, na Pensão Central era frequente, máxime aos sábados, depois da chegada do trem de passeio. Para as grandes festas, sempre aos sábados, procurava-se o velho Hotel Salusse, imenso casarão, já fechado. Dotado de ampla sala de baile, podia-se dançar à vontade. Era obrigatório o smoking ou roupa branca para os homens. Dançava-se jazz, tango, valsa, ragtime, fox-trot, one-step e peças havaianas. Nas casas particulares, igualmente, nos encontros da elite local, improvisava-se uma dança e o piano tocava até o raiar da madrugada. Na ocasião havia o periódico "O Farol”, um jornalzinho semanal que se ocupava de noticiar "trancinhas e namoros” e em fustigar a vida dos outros. A notícia de um júri atraía a população. Quando os partidos políticos estavam representados no acusado ou na vítima, a curiosidade da população era maior. Era uma diversão, mormente no inverno, quando os veranistas iam embora da cidade. Havia um cinema, barracão de madeira, colocado no fim da praça, perto do rinque de patinação, de propriedade do Sr. Leal. As principais solenidades religiosas eram as festas de São João Batista, padroeiro da cidade, de Santo Antônio, orago da Capela do Suspiro e de São Pedro, padroeiro de Duas Pedras. 

Nova Friburgo não sofrera até o primeiro quartel do século XX o impacto da industrialização, iniciado no município a partir de 1910. Ainda era uma cidade bucólica, repleta de chácaras em sua urbs, cuja população rural excedia em muito a urbana. Posteriormente, o complexo industrial acarretaria uma maciça imigração da população norte-fluminense em busca de emprego. Os sítios de sua periferia, a exemplo de Conselheiro Paulino, se transformariam em bairro habitacional; seus rios ficariam poluídos pela indústria e os palacetes destruídos para dar lugar aos edifícios. Sem planejamento, Nova Friburgo deixa de ser a mimosa bonina do Estado do Rio de Janeiro. 


 Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora de três livros sobre a História de Nova Friburgo. Curta a página no Facebook "História de Friburgo”.


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Janaína Botelho

História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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