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ESCRAVIDÃO EM NOVA FRIBURGO (Parte III) - Vida amarga
quinta-feira, 05 de setembro de 2013
De acordo com o diário do colono Joseph Hecht, foi sobre o ombro de 60 escravos africanos que as crianças suíças subiram a serra. Algumas abraçavam alegremente os pescoços cor de carvão, anjos brancos em cima de montarias negras. Chegaram os suíços para fundar a colônia que não se tornaria jamais uma suíça brasileira como desejavam os seus idealistas. Os atores principais, a força de trabalho se projetaria sobre os ombros dos escravos e não sobre o trabalho livre. Nova Friburgo não ficaria à margem da escravidão. Assim que os suíços chegaram se depararam com três propriedades rurais, a uma hora de Nova Friburgo, cujos agricultores possuíam muitos escravos: "Já em Nova Friburgo tínhamos boa oportunidade de observar os negros, pois os fazendeiros interessados em vender seus produtos vinham à cidade acompanhados de muitos escravos, os negros, que conduziam as mulas carregadas de mercadorias para serem vendidas. (...) Os pobres negros tinham de ficar ao lado das mercadorias e prestar atenção, mas não podiam vender coisa alguma. Se alguém queria comprar algo, deveria esperar pela presença dos fazendeiros. Isso, muitas vezes, demorava tanto tempo que nós e os negros ficávamos até com vontade de sair correndo de desgosto, mas nós tínhamos de obter o que comer, e os negros eram escravos”. Hecht destaca que os fazendeiros brasileiros podiam viver uma vida muito sossegada, pois quase todo o trabalho era feito pelos escravos, que possuíam em boa quantidade.
No cotidiano dos escravos, observou que comiam arroz ou legumes e um pouco de carne de porco: "Quando a comida fica pronta, todos os negros sentam-se no chão duro, em volta da panela de comida, seminus. Cada qual tem uma cuia, na qual se servem com uma grande colher de pau. Traz-se, então, farinha de mandioca e duas jarras de água. Eles polvilham farinha sobre o arroz e misturam tudo com os dedos até fazer uma massa espessa. Quando esta chega ao ponto certo, preparam pelotas redondas que seguram com três dedos e jogam com extraordinária habilidade para dentro da boca. Ajuntam-se em torno da panela e como não tem garfo nem colher o ano inteiro, não lhes ocorre a ideia de imitar os modos educados dos europeus para se alimentarem. Junto com as pelotas de comida bebem bastante água. Era um espetáculo realmente curioso de se ver tantas pessoas negras sentadas juntas em torno de uma panela preta. Os negros ficavam muito inibidos com a nossa presença e jogavam as apetitosas pelotas ainda mais rapidamente na boca”. O espancamento sem piedade dos escravos chocou o colono suíço Hecht. Destacou que o trabalho no eito, sob as ordens do rigoroso capataz, lhes tornava a vida amarga e desgostosa. Os escravos do eito, expostos ao calor inclemente do sol a pino, se não trabalhassem a contento, recebiam logo uma pancada nas costas dada pelo capataz, que ficava sempre entre eles com um chicote comprido de couro trançado ou com um açoite grosso de cabo curto. Pelos mínimos erros eram castigados rudemente. Nem aos domingos e dias santos eram poupados do trabalho. Nesses dias, são vestidos com roupas bonitas e vão com a família do fazendeiro para a igreja. Quando a missa termina, voltam todos para casa, substituem as roupas domingueiras pelos molambos e retornam ao trabalho que se prolonga até à noite. Os escravos recém-comprados vinham com muitas doenças e sarnas. A aplicação dos remédios era feita de modo bruto, sendo espancados quando se recusavam a tomar o medicamento. As crianças escravas eram batizadas coletivamente juntamente com os escravos adultos recém-adquiridos, todos doutrinados na religião católica. Quando um visitante chega, os escravos devem se mostrar gentis e executar todas as ordens sem discutir. As negras cozinham, lavam, arrumam as camas e servem à mesa.
Os escravos capturados pelos capitães do mato ou os recém-comprados eram vistos, nos parece, circular com frequência pela vila de Nova Friburgo. O escravo que fugia pela primeira vez era espancado terrivelmente; fugindo uma segunda vez, além de ser espancado brutalmente, passava a portar uma corrente presa ao seu corpo, pendendo para baixo, soldada a uma argola, que lhe prendiam as pernas. Nessa miserável condição, com o corpo coberto de grilhões, o escravo tinha que trabalhar e dormir. Hecht descreveu: "Quando dois escravos fugiam juntos, eram depois acorrentados juntos a uma argola e assim forçados a trabalhar. Se o escravo fugisse pela terceira vez e fosse preso, era então transportado para o matadouro da cidade do Rio de Janeiro, onde todos os dias recebiam cem chibatadas. Outros eram amarrados a um poste numa praça pública, inteiramente nus, e cruelmente surrados”.
Na próxima semana, a última parte do ensaio sobre a escravidão em Nova Friburgo com a matéria "Entre golpes e pancadas”.
Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora de diversos livros sobre a história de Nova Friburgo. Curta no Facebook a página "História de Nova Friburgo”

Janaína Botelho
História e Memória
A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.
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