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Cantagalo: vila medíocre entre ricos solares
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Nos séculos passados, de um modo geral, as fazendas no Brasil eram autossuficientes. Da criação de animais lhes vinham a carne, o leite, a manteiga, os ovos, o toucinho e a gordura. Da lavoura, o café, o milho, o feijão, a mandioca, a batata, as frutas, e da horta, os legumes e as verduras. Algumas fazendas possuíam moinho de fubá, de farinha de mandioca, olaria e eventualmente carpintaria e ferraria. De um pequeno engenho vinha a rapadura e a cachaça. Da cultura da mamona, o óleo que alimentava as lamparinas, lubrificava as bruacas de couro e os eixos das carroças. Apenas o sal, o ferro, as ferramentas, a pólvora, os tecidos e artigos de armarinho eram adquiridos nas vilas e ainda assim, esses dois últimos produtos eram levados às fazendas por mascates. Foi em razão da autossuficiência das fazendas que as vilas no Brasil se amesquinharam.
A matéria de hoje é uma análise sobre o município de Cantagalo. Não obstante Cantagalo ter sido uma das regiões mais importantes do país, no Segundo Império, o seu espaço urbano está muito aquém da riqueza gerada pela cultura do café. Mas por que a vila de Cantagalo não refletia o desenvolvimento da sua região? A principal explicação é a de que os tributos provenientes da produção e comercialização do café, base de sua economia, não ficavam nos cofres municipais de Cantagalo. Enquanto os governos central e provincial recolhiam os tributos mais rendosos, aos municípios restavam apenas os de baixa rentabilidade, como a expedição de alvarás e licenças para abertura e exploração de estabelecimentos comerciais; o imposto de talho (abate) de gado bovino; a taxa de aferição de pesos e medidas; o imposto de líquidos espirituosos (alcoólicos); os foros e os laudêmios dos terrenos cedidos em enfiteuse e mais alguns outros. Se a tributação dos municípios incidisse sobre a renda de sua atividade rural, Cantagalo teria uma das maiores receitas de toda a província fluminense em razão de sua significativa produtividade agrícola. Logo, o orçamento de Cantagalo era pequeno em comparação com os de outros municípios bem menos desenvolvidos. Mesmo sendo muito mais importante economicamente do que a vila de Nova Friburgo, pouca diferença havia entre a receita de Cantagalo e a de Nova Friburgo. Durante os exercícios de 1855, 1856 e 1857, a sua receita era de 10:320$000 (contos de réis) e a de Nova Friburgo (6:672$000). Considerando ser Cantagalo o berço dos barões do café, sua receita era insignificante e insuficiente para cobrir gastos com as melhorias da vila. Das fazendas da Cantagalo se expedia diretamente o café para quatro portos: às margens do Paraíba, em São Fidélis, Magé, Porto das Caixas e Macaé, por estradas que não tocavam a vila desse município. Com a dispersão das fazendas pelo território cantagalense, as tropas de mulas transportando o café seguiam diretamente rumo aos portos, sem passar pela vila de Cantagalo, em meio a uma trama de caminhos que lhe fugiam. Mormente os latifúndios prosperassem com a cultura do café, enchendo de dinheiro as algibeiras dos barões do café, a vila de Cantagalo vegetava, ressentindo-se de reparos em suas ruas e praças. Enquanto “cidade dos melros” projetava-se além das fronteiras nacionais, atraindo cientistas e curiosos, sua vila mantinha aspecto medíocre contrastando com a riqueza dos solares das fazendas em suas cercanias, a exemplo do grandioso solar do Gavião, do primeiro barão de Nova Friburgo. Um teatro construído em 1853 (já demolido) era um dos raros elementos simbólicos de sua Era de ouro. Como observou Alberto Lamego, em “O Homem e a Serra”, a própria topografia da vila encarregou-se de amover as estradas do núcleo municipal, desviando-a para os sulcos naturais dos rios Grande e Negro, ou de fazê-las descer diretamente a serra do Mar, para Macaé ou para o Rio de Janeiro, sem necessidade de passar pela esquecida povoação.
Como todos os núcleos de administração que nasceram artificialmente de simples decretos (alvará de 1814), como foi o caso de Cantagalo, a arrecadação era pífia. Pode-se afirmar que Nova Friburgo, mesmo tendo sido igualmente criada artificialmente, foi uma exceção. A vila de Nova Friburgo tinha a vantagem de se beneficiar do tráfico de tropeiros que vinham de Cantagalo, rumo a Porto das Caixas, fomentando o seu comércio local. Entre esses quatro portos, o de Porto das Caixas é o que abrigava as casas comerciais do Rio de Janeiro e faziam as transações com o café. Se formos estabelecer uma comparação entre Nova Friburgo e Cantagalo, a vila de Nova Friburgo contabilizou muito mais investimentos dos barões do café, haja vista as propriedades do Barão de Nova Friburgo e de Duas Barras. Além de perder a maior parte de sua receita para o governo provincial e geral, outro fator concorreu para a mediocridade da vila de Cantagalo. Muito raramente os fazendeiros, seus familiares e agregados se dirigiam a vila. A maioria dos habitantes, como vimos anteriormente, residia nas fazendas e vinham à vila somente aos domingos e dias de festas religiosas, eram as denominadas “vilas de domingo”. Como a sociabilidade dos barões do café se fazia em saraus nos seus solares, restrito a relações familiares e a estreitos laços de amizade, não se preocuparam em dotar as vilas de espaços públicos condizente com a riqueza gerada na região. A política arbitrária do governo imperial em sugar a riqueza produzida por Cantagalo retirou do centro urbano desse município a oportunidade de ter legado à região uma herança arquitetônica e paisagística com padrões de riqueza corolários de seu grandioso desenvolvimento. Os barões do café e os “homens bons” da Câmara Municipal nunca procuraram reverter a situação da evasão dos impostos provenientes do café e, igualmente, não se preocuparam com a urbs, daí a característica medíocre, meão, de Cantagalo, não traduzindo o seu passado de berço dos barões do café.
Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora do livro “História e Memória de Nova Friburgo”. historianovafriburgo@gmail.com

Janaína Botelho
História e Memória
A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.
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