As corridas de bicicleta: O great attention do verão friburguense

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Ontem no dia 27, aconteceu o movimento “Bicicletada Nova Friburgo”, que visa chamar a atenção das autoridades e da população para substituir outros meios de transporte pela bicicleta. Não é necessário justificar o quanto é oportuna tal iniciativa, já que o trânsito da cidade é cada dia pior. Pegando “carona” nesse importante movimento, vamos percorrer um pouco sobre a história do ciclismo no mundo e em Nova Friburgo no passado. Os primeiros traços da existência da bicicleta ocorreram em projetos de Leonardo da Vinci, por volta de 1490; mas é o alemão, o Barão Karl Von Drais, considerado o inventor da bicicleta. Von Drais patenteou a novidade em 12 de janeiro de 1818, mas ainda que sendo um avanço para a época, a bicicleta não tornou-se popular.

O ciclismo como atividade desportiva teve seus primeiros torneios na Inglaterra com a criação da Bicicle Union, no fim do século XIX. Em 1892 houve a intenção de oficializar competições a nível continental com a criação da Internacional Cyclist Association, com sede em Londres, participando a Bélgica, Itália, Holanda, Alemanha, França, Canadá e os Estados Unidos da América. No final do século XIX, a bicicleta chega ao Brasil vinda da Europa e em São Paulo, D. Veridiana da Silva Prado constrói a primeira praça do país contendo um velódromo. Esta praça era dentro de sua chácara, na região da consolação. Logo em seguida é fundado, na capital paulistana, o Veloce Club Olímpico Paulista. Mas cumpre destacar que a importação da bicicleta era um regalo para poucos àquela época.

Em Nova Friburgo, no final do século XIX, as ruas e praças, não obstante apresentarem traços de contiguidade com o mundo rural, já possuíam elementos de modernidade, como as bicicletas, um luxo à época. Inúmeras bicicletas já circulavam pela cidade e exigia-se que os ciclistas, à noite, tivessem marcha moderada e a lanterna acesa, pois a população friburguense ainda não se habituara aos tempos modernos. Os meninos também exibiam outra novidade, os velocípedes. Com a chegada dos veranistas em Nova Friburgo ao fim do ano, se projetavam vários eventos para a temporada na cidade. As corridas de bicicleta eram a great attention do verão friburguense. A então Praça 15 de Novembro (atual Getúlio Vargas) era transformada no Velódromo Friburguense. Eduardo Salusse, de tradicional família da cidade, criou em 9 de abril de 1899 o Bicyclette Club Friburguense, destinado a competições desse veículo. Além de ser considerado um divertimento, era ainda um exercício físico de primeira ordem para robustecer o corpo e dar um porte atlético.

As corridas de bicicleta eram realizadas aos domingos, sempre ao meio-dia. A presença de juízes de partida, de chegada e juízes de raia dava uma conotação de que a disputa era acirrada entre os participantes, muitos dos quais vinham do Rio de Janeiro. Essas corridas tinham normalmente seis páreos, com uma média de seis participantes em cada um, os quais distribuíam prêmios como medalhas de ouro, prata, bronze e caixas de champanhe. Quando os ciclistas friburguenses participavam de torneios fora da cidade e retornavam vitoriosos, eram recebidos na gare da estação de trem com grande festa pela população que os acompanhava até as suas residências gritando VIVAS durante todo o trajeto. Tendo na comissão organizadora Eduardo Salusse, um campeão da cidade, esses eventos restringiam-se à elite local, a exemplo do barão de Mesquita, que servira como juiz de partida. Próximo ao velódromo, encontrava-se o Botequim do Velódromo Friburguense, e após as partidas os ciclistas se regalavam com cervejas nacionais e estrangeiras, chope gelado, vinho do Porto, cognac, vermout, champanhe Veuve Clicquot, sorvetes, frutas, sanduíches e pastéis.

A cidade, ao final daquele século, deveria possuir muitos ciclistas, já que havia um anúncio de conserto de bicicletas em um jornal da época, além de uma reclamação sobre a necessidade de o Código de Posturas regular o trânsito delas, pois já vinham causando atropelamentos de transeuntes.

Alguns anos mais tarde, quando Nova Friburgo já é uma cidade industrial, a bicicleta era um meio de locomoção dos operários e das classes populares. Os industriais alemães financiaram esse veículo para que seus funcionários não atrasassem nas fábricas, pois não havia ainda a companhia de ônibus na primeira metade do século passado.

Na década de 50 do século XX, na Praça Getúlio Vargas era autorizado o tráfego de bicicletas em uma de suas alamedas. É óbvio que não é possível tal postura nos dias atuais, mas isso demonstra como esse meio de transporte estava inserido no espaço de sociabilidade da cidade. Desejamos, ansiosos, que o movimento social “Bicicletada Nova Friburgo” tenha êxito e que consigamos retornar a uma época em que Nova Friburgo era considera uma das cidades mais bonitas e aprazíveis do estado do Rio de Janeiro.

Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora do livro “História e Memória de Nova Friburgo”. historianovafriburgo@gmail.com

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História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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