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A ESCRAVIDÃO EM NOVA FRIBURGO - A utopia da colônia (Parte I)
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
O tráfico de escravos no Brasil está estimado em cerca de três milhões e meio até a sua abolição. A escravidão estava tão presente no cotidiano das pessoas que até mesmo as mais dóceis com os seus escravos volta e meia lhes aplicavam sopapos e cachações por pequenas falhas domésticas. Já no século XIX, a escravidão era vista como um entrave ao sistema capitalista, responsável pela degradação dos costumes, impedindo que a sociedade alcançasse níveis de civilidade. Nova Friburgo foi concebida para ser um núcleo de povoamento de colonos suíços com a introdução de mão de obra livre, baseada na pequena propriedade e na produção de gêneros alimentícios. Diante dessa concepção teórica, pode-se afirmar que Nova Friburgo foi um município que se distanciou do trinômio latifúndio, monocultura do café e escravidão? Parece-nos que não. O Núcleo colonial era uma ilha circundada por latifúndios e, consequentemente, a presença escrava era significativa influenciando os colonos recém-chegados. Alguns suíços aparecem como proprietários de escravos a exemplo do médico Jean Bazet e do eclesiástico Jacob Joye, entre outros. O termo de Nova Friburgo foi criado em janeiro de 1820 e a população escrava, oito anos depois, era de aproximadamente 38% da população. Nova Friburgo possuía freguesias com significativo número de escravos, notadamente em São José do Ribeirão, que concentrava a maior parte dos cativos, e secundariamente, a freguesia de Nossa Senhora do Paquequer. Localizamos um ofício no Centro de Documentação de Nova Friburgo em que o vigário da Freguesia de São José do Ribeirão informa que em fins de 1857, havia 1.000 indivíduos livres e 700 cativos. Essa circunstância exclui Nova Friburgo como região com atividade econômica baseada na mão de obra livre.
No século XIX, Nova Friburgo compreendia um território muito maior do que o atual. Abrangia os municípios de Bom Jardim, Sumidouro e parte de Teresópolis, o qual prevalecia o latifúndio com o modo de produção escrava. Segundo o juiz de direito João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, em 1851, a população do termo de Nova Friburgo era de 4 810 indivíduos, dos quais 1.782 eram escravos. Na vila, a população era de 684 indivíduos, sendo 489 livres e 195 escravos. Já o recenseamento de 1872, indica que num total de 20.556 pessoas, o município possuía 6.684 escravos, ou seja, 32% da população. A Freguesia de São João Batista de Nova Friburgo possuía 5.496 homens livres e 897 escravos. Os cativos se concentravam nas freguesias de São José do Ribeirão e Nossa Senhora da Conceição do Paquequer, como dito antes, em razão do cultivo do café. Nesta primeira freguesia a população escrava superava a população livre. São José do Ribeirão possuía uma população de 4.890 indivíduos livres e 3.072 escravos. Nossa Senhora do Paquequer 1.828 homens livres e 548 escravos. Nova Friburgo se encontrava numa região repleta de latifúndios com imensos plantéis de escravos, e no caso em epígrafe, o município de Cantagalo. Na segunda década do século XIX, o colono suíço Josph Hecht registrou que era comum alguns proprietários rurais em Cantagalo possuírem entre 100 a 300 escravos. Os Viscondes de S. Clemente e Nova Friburgo libertaram 1.900 de seus escravos momentos antes da abolição. O número de escravos em Cantagalo em 1844, era de 9.621, aumentando para 17.526, em 1873. Já em 1884, Cantagalo possuía 20.432 escravos. Os fazendeiros de Cantagalo eram reconhecidos pela crueldade no tratamento de seus escravos. Era para Cantagalo, nos informa Figueira de Almeida, que se ameaçava enviar o escravo fugitivo e essa ameaça bastava para corrigi-lo tão má era a fama de seus fazendeiros. O republicano Silva Jardim ao se referir a esse município declarou ser "Cantagalo de fama negra nos anais da escravidão”. Nesse município, um escravo, cuja tarefa normal era cuidar de dois mil pés de café, era encarregado, em 1883, de cuidar de quatro a cinco mil. Fato bizarro envolvendo escravos acontecia em Cantagalo com a criação da Guarda Nacional. Essa instituição era formada em sua maioria por fazendeiros que adquiriam a patente de tenente, capitão, major e principalmente coronel. Em dias de comemorações oficiais os fazendeiros arregimentavam os seus escravos para formação da tropa numa demonstração marcial pitoresca e improvisada, nos informa Acácio Ferreira Dias em "Terra de Cantagalo”. Como não poderiam calçar sapatos, já que a condição de escravos não lhes permitia tal adorno, os pés achamboados gemiam dentro da tortura dos sapatos nos dia de formação da tropa. Os colonos suíços, que deveriam ter sido referência na introdução da mão de obra livre na agricultura, acabaram adquirindo escravos assim que a situação financeira lhes permitiu, o que era um paradoxo. Houve projetos de lei e iniciativas de coibir que colonos imigrantes adquirissem escravos, mas não chegou a se tornar lei. Dos 1.272 escravos mencionados no censo de 1828 pelo padre Joye, 152 pertenciam aos colonos suíços. Segundo Cansanção de Sinimbu, em 1851, os colonos e seus descendentes totalizavam 1.496 homens livres, sendo possuidores de 404 escravos. Sinimbu se refere a um arrolamento no ano de 1839, sob a direção do Sr. Dapples na colônia suíça o qual se registra uma população de 710 colonos e 152 escravos pertencentes aos mesmos. Logo, o projeto de uma colônia de homens livres não passou de mera utopia.
Na próxima semana a matéria "Os quilombolas da serra.”
Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora de diversos livros sobre a história de Nova Friburgo. Curta no Facebook a página "História de Nova Friburgo”

Janaína Botelho
História e Memória
A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.
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