A chegada dos suíços ao Morro Queimado

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Parte II
Através do decreto de 16 de maio de 1818, o rei D. João VI firmou acordo com o Cantão de Fribourg, na Suíça, por intermédio de seu agente no Brasil, Sebatian Nicolau Gachet, ordenando o estabelecimento de uma colônia de suíços católicos, composta de cem famílias. Nessas condições, base legal do estabelecimento colonial, foi designado para sede o distrito de Cantagalo, distante a 24 léguas da Corte. D. João VI, como prova de afeto aos seus novos súditos oriundos da Suíça, deu o nome de “Nova Friburgo” à colônia e colocou-a sob a proteção do santo de seu nome, São João Batista. Gachet ficou responsável pelo transporte das cem famílias da Suíça para o Rio de Janeiro. O eclesiástico Monsenhor Miranda, nomeado pelo mesmo decreto inspetor da projetada colônia, foi autorizado a efetuar a aquisição de terras e tomar as providências para o estabelecimento da mesma. Para patrimônio dos colonos, designaram-se duas datas de terras contíguas que tinham sido concedidas por cartas de sesmarias a luso-brasileiros, no final do século XVIII. Limítrofe a essas terras, havia a sesmaria de criação de gado que pertencera a Lourenço Correia Dias denominada de “Morro Queimado”. Essa sesmaria fora vendida a Monsenhor Almeida e adquirida por Monsenhor Miranda, para anexá-la aos terrenos coloniais. Nessa ocasião, foram adquiridas igualmente as fazendas do Córrego d’Anta e São José, destinadas ao domínio da Coroa e fazendo parte dos bens de Sua Majestade Imperial. Existindo alguns índios na região, por aviso de 3 de dezembro de 1819, foram removidos e aldeados para outra localidade para serem civilizados e não molestarem os colonos suíços que estavam por vir. Construídas as casas para instalação dos colonos, foi erigida a vila pelo alvará de 3 de janeiro de 1820. 
Entre novembro de 1819 e até março de 1820, os colonos suíços chegaram ao Rio de Janeiro a bordo dos seguintes navios: Daphne, Debby Elisa, Urania, Elisabeth Maria, Feliz Viagem, Camillus, Duas Catharinas e Trajano. O agente encarregado do transporte, achando lucrativo o preço estipulado, não se limitou a trazer o número de famílias convencionado (cem famílias). Não obstante o alto índice de mortalidade durante o trajeto, devido às más acomodações e as febres contraídas nos portos da Holanda, chegaram 1.682 colonos ao Rio de Janeiro. Além da mortandade da viagem da Europa ao Brasil, não menos incômodo e fatal foi o trajeto dos colonos do Rio de Janeiro ao “Morro Queimado”. As péssimas condições das estradas eram agravadas pelas chuvas, tornando-as quase intransitáveis, época em que chegaram os colonos. E naquele ano, a força das chuvas se fez assinalado. Sem o recurso de tropas tiveram que transportar consigo roupas, bagagens e utensílios.
Na viagem do Rio de Janeiro até o “Morro Queimado”, como era denominada a vila de Nova Friburgo, alguns colonos contraíram febres ao atravessar as planícies palustres das margens do rio Macacu. Alguns vieram a falecer imediatamente e outros quando de sua chegada a vila. De acordo com os registros oficiais, desde a chegada dos suíços, entre novembro de 1819 até março de 182, faleceram 123 colonos. Ao chegarem a vila de Nova Friburgo, os primeiros incômodos. As casas, suficientes para acomodar o número de cem famílias que se esperava, tornou promíscua a convivência entre eles devido ao excesso de pessoas. Recém-construídas, as casas se encontravam úmidas, sem assoalho e o terreno alagado pelas chuvas. Foi providenciada a medição e divisão das terras para serem distribuídas aos colonos, nomeando-se árbitros de sesmarias, pilotos e serventes, tudo sob a direção de Monsenhor Miranda, inspetor da colônia. Cada família (artificial) receberia uma unidade de 300 braças de frente com 750 de fundo, tendo a área do terreno a forma de um paralelogramo [300 braças x 750 correspondem a 1.650m x 660m, 1.089.000 m2 ou 108.9 ha].
Procedeu-se a divisão das datas de terras, que totalizavam 120, recebendo um número que a designava. Como a terra de cada família de colonos recebia a designação de um “número”, quando empregada no plural, ou seja, “Números”, indicava ser o distrito colonial dentro do termo de Nova Friburgo. O número de famílias estipulado no acordo entre a Coroa Portuguesa e o agente Gachet fora de cem famílias. Mas como Gachet havia excedido em muito esse número, fez necessário dividi-las em núcleos familiares denominando-se de “famílias artificiais”. Essa divisão reuniu uma média de 17 pessoas nessas famílias artificiais, utilizando-se como critério o grau de parentesco, afinidade, relações domésticas ou puro arbítrio do inspetor da Colônia. A distribuição das datas de terras fez-se entre essas famílias, sorteando-se os números em solenidade realizada no dia 23 de abril de 1820, na casa da Câmara Municipal, com a presença do inspetor da colônia, Monsenhor Miranda e demais autoridades. Quanto aos animais e sementes prometidos aos colonos, não consta que jamais o fizeram. Os suíços deveriam entrar na posse de suas terras, dentro de dois meses, após a demarcação, sob pena de suspensão do subsídio. Sofreriam igual pena os colonos que, sem licença do diretor, se ausentassem do distrito colonial. Na próxima semana a matéria “Terra Ingrata”.

Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora do livro “História e Memória de Nova Friburgo”. historianovafriburgo@gmail.com

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História e Memória

A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.

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