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A agonia do Solar do Gavião
Cantagalo: Berço do Centro-Norte Fluminense—última parte
Como as fazendas no Brasil eram autossuficientes, muito raramente os fazendeiros, familiares e agregados se dirigiam à vila. Apesar de Cantagalo ter sido uma das regiões mais importantes do país durante o Segundo Império, percebem-se construções simplórias no seu espaço urbano em relação à riqueza gerada pela cultura do café. Como a sociabilidade dos barões do café se fazia em saraus em seus solares, restrito a relações familiares e a estreitos laços de amizade, não se preocuparam em dotar as vilas de espaços públicos condizentes com a riqueza gerada na região. Por outro lado, os tributos provenientes da atividade agrícola do café não ficavam nos cofres municipais de Cantagalo. Logo, mesmo sendo muito mais importante economicamente do que a vila de Nova Friburgo, pouca diferença havia entre a receita de Cantagalo e a de Nova Friburgo. Até janeiro de 1833, a província fluminense estava dividida do ponto de vista da organização judiciária, em duas comarcas: a do Rio de Janeiro, à qual pertencia toda a Região Serrana e a de Campos.
Quando o Governo Regencial procedeu em 1833 à reestruturação judiciária da província, ampliando para seis o número de suas comarcas, Cantagalo devido a sua importância econômica e política passou a figurar como cabeça da comarca, ficando sob sua jurisdição Nova Friburgo, Paraíba do Sul, Vassouras, etc. Como os juízes municipais das vilas estavam sujeitos ao controle do juiz de direito, que podia rever e reformar as sentenças por eles proferidas e esse juiz de direito ficava lotado em Cantagalo, assumiu esse município a supremacia jurisdicional sobre a região.
Cantagalo atraía, além de suíços e alemães que abandonavam o Núcleo dos Colonos em Nova Friburgo, investidores nacionais e estrangeiros, cientistas, viajantes europeus e até o Príncipe Adalberto Hohenzollern, da Prússia, que por lá passou para conhecer o centro produtor de café que exportava para os USA e a Europa. A Princesa Isabel igualmente ali esteve em 1868. Todos tinham curiosidade em conhecer o município de onde se extraíam toneladas de arrobas de café na província fluminense. Em 1857, a vila de Cantagalo foi elevada à categoria de cidade em razão de sua expressiva produção de café e influência política de sua aristocracia rural. Paradoxalmente, a vila de Cantagalo ainda era modesta se considerado o montante econômico produzido pela região e igualmente pífio o seu crescimento demográfico. A mudança de status para cidade não beneficiou a economia local, pois nenhuma fonte de receita foi acrescida à sua arrecadação. Apenas o Teatro Cantagalense, fundado em 1853, foi reformado em 1878, ampliando o seu espaço. Mas prestígio não faltava a Cantagalo. Sua igreja Matriz, concluída em 1876, foi inaugurada em 1878, pelo próprio Imperador D. Pedro II. O Imperador retornaria a Cantagalo em junho de 1883, para inauguração de um ramal ferroviário.
Em decorrência da vasta produção de café, tornaram-se obsoletas as tropas de muares. Logo, o Barão de Nova Friburgo, juntamente com outros sócios, organizou em 1857 a Sociedade Anônima Estrada de Ferro Cantagalo. Dois anos depois, iniciou a construção do ramal ferroviário. O percurso foi dividido em três seções: de Porto das Caixas a Cachoeiras de Macacu; de Cachoeiras a Nova Friburgo e desse município a Macuco. Em 18 de dezembro de 1873, foi inaugurado o trecho de Cachoeiras a Nova Friburgo, com a presença do Imperador D. Pedro II a quem foi oferecido um lauto banquete no Parque São Clemente por Bernardo Clemente Pinto Sobrinho. No campo das sociabilidades da elite agrária, um hipódromo foi construído na Fazenda Gavião onde a aristocracia cafeeira se reunia aos domingos para participar da poule e exibir seus cavalos de raça, bem ao estilo inglês. Cantagalo vivia a sua Belle Époque em meados do século XIX.
Mas as terras fluminenses cansaram. O café é uma planta que suga o solo com uma voracidade incomum e o seu ciclo produtivo gira em torno de 25 a 40 anos. Depois desse ciclo o agricultor não pode mais aproveitar as terras onde vingou os cafezais, salvo com o emprego de adubos e técnicas que, no entanto, a elite rural cantagalense desconhecia. Em 1877, já há o registro de discursos na Corte a respeito do exaurimento das terras de Cantagalo. Veio o fim da escravidão que não foi bem-vindo pelos cafeicultores fluminenses, provocando inúmeras falências. Algumas experiências já vinham sendo encetadas trazendo para as fazendas colonos italianos, portugueses e alguns espanhóis, através do sistema de parceria, em que os colonos trabalhavam como meeiros.
Mas a exploração dessa mão de obra não logrou frutos. Para agravar ainda mais a situação de Cantagalo, em 1891, ocorreu um surto de febre amarela, dizimando boa parte da população, quando cadáveres eram enterrados em grandes valas devido a virulência da doença. Os que puderam, abandonaram a cidade. Mas a pá de cal foi o fracionamento territorial da Magna Cantagalo, com suas freguesias dando origem a novas unidades políticas, como Itaocara, Duas Barras, Bom Jardim, entre outras, arrebanhando-lhe significativa parte do seu território. Por fim, os fazendeiros de Cantagalo migraram para a pecuária devido a pouca mão de obra demandada nesse setor. Anos depois, Cantagalo teria como referência um polo cimenteiro, mas que gera poucos empregos não fomentando a economia local. E o Solar do Gavião, o monumento histórico mais emblemático de um passado de “galas e louçanias”, jaz, silencioso, à espera dos órgãos responsáveis pelo patrimônio histórico para lhe sustar a decrepitude, rememorando a Magna Cantagalo, berço do Centro-Norte Fluminense. (Fonte: ERTHAL, Clélio. “Cantagalo. Da miragem do ouro ao esplendor do café”.)
Janaína Botelho é professora de História do Direito na Universidade Candido Mendes e autora do livro “História e Memória de Nova Friburgo”. historianovafriburgo@gmail.com

Janaína Botelho
História e Memória
A professora e autora Janaína Botelho assina História e Memória de Nova Friburgo, todas as quintas, onde divide com os leitores de AVS os resultados de sua intensa pesquisa sobre os costumes e comportamentos da cidade e região desde o século XVIII.
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