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Impressões — 22/08/2015
Fábula
Heróis – eram homens que se assinalavam pela excelência de suas ações e que muitas vezes depois da sua morte se contavam entre os deuses
(Dicionário da Fábula traduzido por Chompré – com argumentos tirados da história poética- Ed.Garnier –Paris)
Linha do tempo
A ocasião em que a inteligência do homem mais cresce, sua bondade alcança limites insuspeitados e seu caráter uma pureza inimaginável é nas primeiras 24 horas depois da sua morte.
Millôr Fernandes
Heróis sem nenhum caráter
A crise por que passa o Brasil, mais que econômica, é moral. Nossas instituições estão fragilizadas por obra de homens públicos que estão no foco dos principais acontecimentos, principalmente a Operação Lava Jato que busca investigar e punir empresas e políticos no chamado escândalo do Petrolão.
Cidadãos até então acima de qualquer suspeita hoje estão sentados no banco dos réus, acusados de corrupção e sangria nas finanças da Petrobrás, a mais importante empresa do país. Sem ainda concluir os trabalhos comandados pelo juiz Sergio Moro, podemos antever julgamentos que põem em xeque a integridade de representantes legitimados pelo voto da população e de partidos políticos. Podemos dizer que são heróis sem nenhum caráter.
Este lado sombrio do estilo de viver do brasileiro foi muito bem descrito na obra Macunaíma, do escritor Mário de Andrade, que relatou como poucos, as mazelas e as peripécias do cidadão comum. Seu trabalho mais importante, “Macunaíma”, é uma bem sucedida construção do retrato do povo brasileiro. Foi escrito em 1928, na linguagem falada do Brasil, utilizando o folclore e as tradições indígenas como matéria prima para descrever o povo brasileiro.
Mário de Andrade neste ano que completa 70 anos de sua morte, foi o homenageado da 13ª Festa Literária de Paraty. Seus escritos se tornam de domínio público no ano que vem. Sua obra perdura até os dias de hoje, sendo objeto de estudo literário e de análise de seu vanguardismo. Dele podemos tirar situações que se relacionam até hoje com o comportamento da sociedade nacional. Uma leitura fascinante e obrigatória, que mostra que o povo brasileiro não tem um caráter definido e que o Brasil é um país grande como o corpo de Macunaíma, mas imaturo, simbolizado pela cabeça pequena do nosso herói sem nenhum caráter.
Indolência
Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava: – Ai! Que preguiça!... e não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros (...)”
Imaturidade
“Então pegou na gamela cheia de caldo envenenado de aipim e jogou a lavagem no piá. Macunaíma fastou sarapantado mas só conseguiu livrar a cabeça, todo o resto do corpo se molhou. (...) Porém a cabeça não molhada ficou pra sempre rombuda e com carinha enjoativa de piá.”
Frases
“No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma...”
“Passado é lição para refletir, não para repetir.”
“Já não tenho tempo para mediocridades.”
“Não devemos servir de exemplo a ninguém, mas podemos servir de lição.”
Obras publicadas
- Há uma Gota de Sangue em Cada Poema, 1917
- Pauliceia Desvairada, 1922
- A Escrava que não É Isaura, 1925
- Losango Cáqui, 1926
- Primeiro Andar, 1926
- O Clã do Jabuti, 1927
- Amar, Verbo Intransitivo, 1927
- Ensaios Sobra a Música Brasileira, 1928
- Macunaíma, 1928
- Compêndio Da História Da Música, 1929 (Reescrito Como Pequena História Da Música Brasileira, 1942)
- Modinhas Imperiais, 1930
- Remate De Males, 1930
- Música, Doce Música, 1933
- Belasarte, 1934
- O Aleijadinho de Álvares De Azevedo, 1935
- Lasar Segall, 1935
- Música do Brasil, 1941
- Poesias, 1941
- O Movimento Modernista, 1942
- O Baile das Quatro Artes, 1943
- Os Filhos da Candinha, 1943
- Aspectos da Literatura Brasileira 1943
- O Empalhador de Passarinhos, 1944
- Lira Paulistana, 1945
- O Carro da Miséria, 1947
- Contos Novos, 1947
- O Banquete, 1978 (Editado por Jorge Coli)
- Dicionário Musical Brasileiro, 1989 (editado por Flávia Toni)
- Será o Benedito!, 1992
- Introdução à estética musical, 1995 (editado por Flávia Toni)
Macunaíma no cinema
A obra foi levada para o cinema dirigida por Joaquim Pedro de Andrade em 1969, tendo no elenco Grande Otelo, Paulo José e Dina Sfat
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