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A vida é feita de escolhas. Mentira.
Desde pequenos, ouvimos que a vida é feita de escolhas. Desde pequeno, ouso discordar. Como também sempre discordei da velha máxima de que “querer é poder”. Não é não.
É claro que podemos decidir se vamos entrar, sair ou permanecer na casa ou na vida de alguém; se vamos comprar ou vender bens, promessas e ilusões; se vamos falar ou calar sobre o que gostamos ou odiamos e se vamos acreditar no que ouvimos, no que vemos ou no que sentimos; decidimos se vamos jogar, cantar, pular, correr, dançar... podemos escolher se casamos ou não, se estudamos ou não, se treinamos ou não... mas a vida não se resume a isso...
Naquilo que realmente importa, raramente a vida nos dá chance de escolha e acabamos nos tornando espectadores de nós mesmos. Ninguém pode escolher se vai nascer ou se vai morrer, como não decide se quer crescer ou eternizar-se numa caricatura de Peter Pan; ninguém escolhe sequer ser o que é, já que somos fruto de tudo o que vivemos e acreditamos e, no decorrer da vida, mudamos de pensamentos, trocamos de ideias, alteramos sonhos e, quando vemos, nós mudamos a nós mesmos. Por completo.
Assim como a água de um rio nunca é a mesma, nós também nunca somos, porque vamos deixando pelo caminho pedaços de nossa história e vamos recolhendo pedaços de histórias que outros deixaram e que se moldam às nossas vidas como se tivessem sido feitos especialmente para nós, embora só durem até a próxima curva, trocados por novas histórias, novos objetivos e novas pessoas...
Não. A vida não é feita de escolhas. Ela pode nos surpreender de maneira dramática com um acidente ou uma doença. E ninguém escolhe isso, ainda que possa ter concorrido de alguma forma, mesmo que por descuido. Ninguém escolhe um câncer. Ninguém escolhe um hospital. Ninguém escolhe a dor. Ninguém escolhe sofrer.
Da mesma forma, ninguém escolhe ser premiado num sorteio e tampouco escolhe dar de cara com o que será o grande amor da sua vida simplesmente ao dobrar uma esquina. Não. Não é escolha. E ainda assim acontece. À nossa revelia. E nós amamos isso.
É ótimo que a vida seja assim. Porque se tivéssemos de escolher tudo o tempo todo, controlar tudo o tempo todo, organizar tudo o tempo todo e depender somente das nossas próprias escolhas, viveríamos amargurados, lamentando as escolhas erradas. Porque erramos. Muito. Na verdade, naquilo que temos a capacidade de escolher, mais erramos do que acertamos.
Sábia vida...
O que a vida nos faz ao decidir algumas coisas por nós é nos presentear com o acaso. Ou a sorte. O destino. Deus. Não importa, neste momento, no que você crê. O fato é que não é você o tempo todo quem decide. Quer você goste ou não.
Somos, ao mesmo tempo, protagonistas e coadjuvantes de um encontro constante entre rotinas e surpresas, planejamentos e acontecimentos, sortes e destinos, escolhas e ação divina, que se entrelaçam num abraço hermético todos os dias, para construir o que chamamos de vida. Aí, sim, é escolha de cada um de nós saber o que quer fazer desta vida. Bora ser feliz?
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Alzimar Andrade
Alzimar Andrade
Alzimar Andrade é Analista Judiciário do Tribunal de Justiça, Diretor Geral do Sind-Justiça e escreve todas as quintas-feiras sobre tudo aquilo que envolve a justiça e a injustiça, nos tribunais e na vida...
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