Sobre legados e mentiras

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Existe uma música linda e triste, intitulada “Cidadão”, que começa assim: “Tá vendo aquele edifício, moço? Ajudei a levantar. Foi um tempo de aflição, era quatro condução, duas pra ir, duas pra voltar. Hoje, depois dele pronto, olho pra cima e fico tonto, mas me vem um cidadão e me diz desconfiado: "Tu tá aí admirado ou tá querendo roubar?" Meu domingo tá perdido, vou pra casa entristecido, dá vontade de beber... e pra aumentar meu tédio, eu nem posso olhar pro prédio que eu ajudei a fazer”.

Lembrei-me dessa música quando li que um estudo analisou 167 obras prometidas para a Copa do Mundo que aconteceu no Brasil em 2014. Constatou-se que somente 88 foram entregues a tempo. Outras 45 foram entregues inacabadas; 23 ainda serão feitas e 11 foram abandonadas. E diziam que a Copa deixaria um legado para a população...

Por que me lembrei agora da Copa? Porque, comprovando que brasileiro não tem memória, as olimpíadas trazem como argumento do governo, adivinhe... de novo o tal “legado” que ficará para a população. E vejam que legado já temos:

- O governo do estado está negando medicamento à população, sob o pretexto de guardar os remédios para os turistas que virão às olimpíadas.

- O governo do estado está gastando cerca de R$ 10 bilhões com as olimpíadas, por isso não há dinheiro para pagar o salário de quem trabalha para o estado, como bombeiros, policiais, professores, enfermeiros, médicos, delegados, assistentes sociais, motoristas..., além de só receberem o 13° salário se fizerem um empréstimo no banco oficial do estado.

- Hospitais são fechados e UPAs só possuem função decorativa, sem medicamentos, sem profissionais, sem estrutura e sem recursos.

- Por causa das olimpíadas, empreiteiras nada idôneas têm recebido bilhões em obras que não terão qualquer utilidade para a população depois.

E por que me lembrei daquela música? Porque a população não vai se divertir de graça no velódromo, no campo de golfe, nas quadras de tênis ou nadar à vontade no parque aquático, todos feitos com o suor do nosso trabalho e o dinheiro dos nossos impostos. Assim como ninguém hoje consegue utilizar de graça o novo Maracanã, que custou R$ 1,5 bilhão, pagos com o nosso sacrifício...

E o que faz o governo? Transfere a culpa para os outros, numa ode a Homer Simpson, segundo o qual “a culpa é minha e eu a coloco em quem eu quiser”. Aí, o culpado passa a ser o servidor, que teima em querer receber salário em dia; A culpa é da população, que reclama à toa e cisma de adoecer e ficar contraindo dengues, chikungunyas e zikas só pra atazanar o governo.

 A culpa é também do Judiciário, que cometeu o sacrilégio de não deixar o governador abocanhar mais dinheiro que não lhe pertence e fazer sumir no ralo do governo, para onde já foram dois carros-fortes do Judiciário com mais de R$ 7 bilhões.

A culpa é de qualquer um, menos de quem a possui por mérito: um governo ineficiente, desorganizado e despreparado, que em vez de valorizar seres humanos, prefere ser leal a empreiteiras e não à população que o elegeu.

Num país decente, com governos decentes, quando houvesse a primeira crise na saúde, a ponto de faltar medicamento e hospitais fecharem, seria dado um basta, pelo motivo mais evidente: Não podemos gastar R$ 10 bilhões com olimpíadas enquanto a população morre e as crianças não têm merenda nas escolas. Num país sério, num governo sério e com pessoas sérias seria assim.

Esse é o legado que nos entregam? Então preferimos trocar legados por serviços públicos de qualidade. Queremos saúde, educação, segurança, transporte público, respeito e dignidade. E não é nenhum favor, porque pagamos impostos caros para isso. Existe legado melhor? Não. Mas governo melhor existe, com certeza. E está em nossas mãos mudar isso. 2016 bate à porta.

Feliz ano novo para todos. Com saúde, educação e respeito à população e vergonha na cara para os governantes. 

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Alzimar Andrade

Alzimar Andrade

Alzimar Andrade é Analista Judiciário do Tribunal de Justiça, Diretor Geral do Sind-Justiça e escreve todas as quintas-feiras sobre tudo aquilo que envolve a justiça e a injustiça, nos tribunais e na vida...

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