Se essa praia, se essa praia fosse minha...

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Ao contrário do que alardeia o estereótipo, nós, brasileiros, trabalhamos muito, sofrendo a semana inteira com transporte coletivo ruim, trânsito ruim, coleta de lixo ruim, saúde ruim, educação ruim, governos muito ruins e políticos muito muito ruins.

Precisamos de alguma diversão como saída para mantermos a sanidade. E, nesse contexto, a praia é, por excelência, a diversão mais democrática, já que gratuita, de fácil acesso e que comporta ricos e pobres no mesmo espaço, raridade neste país. Minto. Comportava. Não comporta mais.

O domingo do Rio de Janeiro, em particular, sempre foi sinônimo de maracanã, sol e praia. Hoje, o sol continua aí, mas o maracanã está impraticável pelo preço e a praia é para poucos, hoje fatiada entre "pobres vítimas da sociedade" que se acham no direito de roubar e atacar as demais pessoas, e falsos justiceiros, que acham que vão corrigir a violência com mais violência.   

No último domingo, assistimos, estarrecidos, à verdadeira guerra que se travou no mais improvável dos campos de batalhas: na praia, logo ela, democrática e generosa, hoje transformada em palco de selvagerias de todos os lados.

A explicação não podia ser mais óbvia. Podemos escolher: falta policiamento, falta educação, falta opção de lazer, falta estrutura, falta vergonha na cara dos governantes e falta bom senso a alguns magistrados, que, no afã de serem moderninhos, ditam regras de dentro de seus castelos seguros, sem saber o que acontece no mundo real, protegendo bandidos e condenando inocentes a viverem enclausurados, já que os espaços públicos estão virando terra de ninguém.

Se comemoramos hoje o fato de que, finalmente, alguns bandidos ricos estejam presos, por que outros criminosos, só porque são pobres, podem continuar roubando impunemente, sob o argumento de que são "vítimas da sociedade"? Queremos justiça ou queremos apenas trocar de lado a injustiça?

Vítimas da sociedade somos nós, diariamente roubados por governos, enganados por políticos e agora saqueados e atacados por vagabundos covardes, sob a complacência de uma justiça inerte e uma polícia despreparada. Uns galalaus de 1,80m, que, pra justiça e pra quem vive de teorias, são apenas "pobres vítimas da sociedade que estão exercendo o seu legítimo direito de vingança contra essa sociedade". Nesse país às avessas, é direito dos marginais roubar, matar, esfaquear... e ainda queremos que o futuro da nação seja melhor.

E erram da mesma forma os que querem fazer justiça com as próprias mãos. Numa suposta cruzada épica, os riquinhos inúteis da zona sul estão se preparando para enfrentar os "marginaizinhos". Aqueles que aplaudem isso me lembram a população que comemorou a chegada das milícias, que expulsava os traficantes das favelas. Aplaudiram até o momento em que descobriram que as milícias apenas substituíram os traficantes, dominando e aprisionando as comunidades da mesma forma.

A história se repete. Alimentem vingadores e criarão novos algozes. Talvez piores. Nós, os cidadãos comuns, queremos somente as nossas praias de volta. E a nossa vida de volta. E a nossa paz de volta. Não precisa expulsar ninguém de lá. A praia é de todos. Todos que saibam conviver em harmonia na sociedade. É assim em qualquer lugar do mundo, onde quem é bandido é preso. Menos no Brasil.  

Precisamos da praia. Precisamos de paz. E precisamos de paz na praia... só isso...

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Alzimar Andrade

Alzimar Andrade

Alzimar Andrade é Analista Judiciário do Tribunal de Justiça, Diretor Geral do Sind-Justiça e escreve todas as quintas-feiras sobre tudo aquilo que envolve a justiça e a injustiça, nos tribunais e na vida...

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