O que querem essas mulheres que chegaram ao século 21, aos 21, no início da vida adulta, jovens, belas, fortes e cheias de si? Enquanto investem na carreira visando postos cada vez mais altos, para um dia alcançar o topo, elas vão mudando definitivamente antigos padrões familiares, numa clara demonstração de que o universo feminino continua passando por grandes transformações, desde a década de 1960.
Nas universidades elas predominam e o mercado de trabalho se tornou um lugar de pura competição. Com o advento e posterior desenvolvimento dos métodos anticoncepcionais seguros, o momento mais oportuno para engravidar foi ficando cada vez mais distante. Este “sinal dos novos tempos” acabou adiando a espera pelo primeiro filho, e a plenitude da maternidade tem acontecido mais tarde, depois dos 35 anos, ou, muitas vezes, até depois dos 40. Bom, isto para o caso das moças que planejaram e pretendem ter filhos.
Pesquisas indicam que a gravidez tardia é considerada um fenômeno mundial. Nos Estados Unidos, estima-se que uma em cada cinco mulheres tem o seu primeiro filho após os 35 anos. Na última década, a gravidez tardia cresceu em nosso país 84%, resultado da mudança de comportamento que está redesenhando a família no mundo, inclusive no Brasil.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de mulheres que engravidaram pela primeira vez após os 40 cresceu 27% em dez anos. A decisão de adiar a maternidade é também reflexo do aumento da expectativa de vida do brasileiro, que já vive, em média, 74,6 anos. Para cada 100 jovens, há 25 idosos no Brasil. Como a mulher estabeleceu prioridades além do casamento e da maternidade, aos poucos ela foi postergando o momento de ser mãe.
O direito de não tê-los
Hoje, quando planejam o futuro, muitas mulheres estão priorizando a carreira. Além de o mercado exigir cada vez mais do profissional em termos de capacitação, conciliar a rotina diária da casa, do trabalho e dos filhos não é tarefa fácil. Por isso, os casais planejam ter filhos mais tarde. Ou não ter. Como é o caso da jornalista Letícia Reitberger, friburguense, casada e radicada no Rio há 10 anos. Ela nem chegou a planejar porque jamais cogitou ter filhos.
“Eu escolhi não ter filhos. Primeiro, porque nunca tive a maternidade aflorada em mim. Segundo, porque meu estilo de vida não permite. Gosto de viajar, de sair com amigos, de dormir até tarde e, principalmente, sou muito dedicada ao trabalho, focada na minha carreira. Tenho outras ambições. Apesar de amar os filhos das minhas amigas e achar criancinhas seres muito fofos e interessantes, acho que nasci mesmo pra ser mãe de gato e cachorro, como já sou. E por que não? Diante de tantos conceitos familiares, formatos diferentes de família, porque não posso ser mãe de pequenos animais, tão lindos e fofos quanto crianças? Feliz dia para todas as mães, para minhas amigas-mães e, claro, para a minha mamãe!”
Estes são os motivos mais frequentemente relatados para justificar a opção por não ter filhos. Mas há muitos outros. Uma mulher (que pediu para não ser identificada) na faixa dos 30 anos de idade usou argumentos ligados à sua família para justificar a sua opção. Nascida numa família grande e simples da zona rural, ela cresceu em meio a muitas dificuldades. Aos 14 anos veio morar na cidade, onde só então pode estudar, se formar, e ir se firmando no mercado de trabalho. “Tudo o que eu quero tem a ver com estudo e trabalho. Quero ser alguém na minha vida, realizar todos os meus sonhos, que são casa própria, carro, e coisas do tipo. Quero ter conforto, dinheiro na conta, poder viajar, me divertir. Quero ter o que minha mãe não teve, apesar de ela sempre ter me dito que não faria nada diferente. Ela foi e é feliz vivendo na roça, e entende que eu queira outras coisas”.
Há até quem tenha dificuldades para se “ver” grávida. Dayane Emrich, de 21 anos, universitária, foi categórica: “Não consigo me imaginar com aquele barrigão. Acho muito estranho. E também tenho medo de parto, não gostaria de passar por essa situação. Acredito que a imagem de gestante e mãe não combina comigo”, reiterou com ares de quem já sabe muito bem o que quer. Ou o que não quer.

Deixe o seu comentário