Trocando a cama e o cobertor pelo desafio de subir montanhas no inverno

Exemplos de amigos que se conheceram por conta de um objetivo em comum: vencer os desafios da natureza
sábado, 20 de julho de 2019
por Guilherme Alt (guilherme@avozdaserra.com.br)
Amigos no Chapéu da Bruxa (Arquivo pessoal)
Amigos no Chapéu da Bruxa (Arquivo pessoal)

Sair da zona de conforto, deixar os cobertores e largar a cama quentinha, no auge do inverno para subir uma montanha de madrugada, com temperaturas muito baixas tem que ter disposição. A tarefa fica fácil quando estamos ao lado de pessoas da nossa confiança e que nos incentivam até o último momento. São os nossos amigos e neste sábado, 20, em homenagem ao Dia do Amigo, vamos contar histórias de um grupo que se conheceu com o objetivo de alcançar os lugares mais altos da cidade.

São 18 pessoas que só se conheciam de forma virtual. Encontro marcado. Todos querendo vencer seus limites. No dia 1º de junho, o grupo decidiu subir a Cabeça do Dragão, no Parque dos Três Picos. Durante boa parte do caminho o grupo se dividiu em dois. Os de maior preparo físico foram na frente enquanto alguns ajudavam quem mantinha um ritmo mais comedido. Por vários momentos palavras de incentivo eram proferidas para que ninguém desanimasse. Ao final da subida, estavam todos reunidos e o sol nascia no horizonte sem qualquer resistência das nuvens, recompensando o esforço com uma bela vista.

Duas semanas depois, parte desse grupo estava a postos mais uma vez para subir o Chapéu da Bruxa, no Cascatinha. Se juntaram a eles, mais quatro meninas dispostas a vencer limites. A caminhada até o topo corria tranquilamente até a última parte. Para vencer a subida íngreme, há uma corrente. Das sete pessoas que fizeram a trilha, uma delas tinha um terrível medo de altura, o que a fez “travar” e afirmar que ficaria na base da montanha esperando pelo retorno grupo. Depois de muito apoio e garantias de que ela estaria segura o medo foi vencido.

Leocádio Moraes estava lá. Ele foi determinante para que ela superasse seus limites. “Eu não gosto de deixar as pessoas para trás. Nem todo mundo lida da mesma forma com altitude e os medos, como na situação do Chapéu da Bruxa. O objetivo era motivar a superar uma dificuldade e fazer o grupo todo chegar ao fim. Com toda a dificuldade, a melhor parte foi ter conseguido. Ela não perdeu a emoção de estar no topo, superou da forma dela aquele obstáculo”, disse. 

Duas semanas depois, o grupo estava reunido mais uma vez. O desafio era subir o Pico do Caledônia. Praticamente o mesmo que subiu a Cabeça do Dragão, um mês antes, com alguns novos integrantes. Um deles é Isabella Demani. Debutando no tracking, Isabella ficou bastante satisfeita com a experiência, feliz por conhecer novas pessoas, animada por encontrar um grupo disposto às atividades físicas e já planeja as próximas conquistas. “A subida em si não foi muito difícil, aliás foi super divertida. Teve um momento em que me vi sozinha e não sabia direito qual direção seguir e um dos garotos (olha o Leocádio aí) me ajudou a chegar no pico onde estava todo mundo. Só nessa subida fiz umas dez amizades. O que mais me motivou foi o visual, a energia de cada lugar, a energia de cada pessoa, a conexão com a natureza, sem contar as fotos que ficaram incríveis. Chegar ao topo e ver o sol nascer foi uma sensação incrível, de êxtase, de imensidão, de gratidão. Quero muito continuar a fazer trilha. Sempre amei, mas nunca tive um grupo que animasse ir. Foi a primeira vez que subi o Caledônia, agora quero subir outras montanhas”, garante.

Pedro Paulo Fernandes, o Pepê, é figurinha certa nesses “rolês”. Pepê estava na subida à Cabeça do Dragão e também na subida ao Caledônia. Um cara que agrega, que motiva. Acostumado ao tracking, Pepê já viu Nova Friburgo de cima por vários ângulos. “Essa última subida ao Caledônia foi bem tranquila, tirando o frio. Fiz muitas amizades só por subir montanhas. Estar em grupo é sempre melhor, passa mais rápido. Chegar ao topo é uma conquista, um sentimento de vitória, de luta contra o cansaço físico. Creio que sou a pessoa que ajuda e incentiva as outras a chegarem ao final. Para as próximas oportunidades, gostaria de subir a Pedra do Sino, em Teresópolis e também a Pedra da Gávea, na capital”, planeja.

É impossível  traduzir em palavras a sensação de prazer quando, ao final da trilha, no auge da exaustão muscular e psicológica, eu contemplo do alto de mais de dois mil metros de altitude uma paisagem de montanhas, rios, nuvens, um céu azul e o sol emergindo no raiar de um novo dia. Despreparado fisicamente, com problemas respiratórios, entre outros problemas de saúde, é de se esperar que eu tenha uma dificuldade além do normal. Já nos primeiros cinco minutos meu corpo dá sinais de cansaço. A mente pede para parar. As primeiras dores aparecem. O corpo implora pelo descanso. Desistir é uma opção. A mais fácil delas. “Por que eu aceitei isso?”, penso. Enquanto subia a Cabeça do Dragão, tive dores musculares com apenas 20 minutos de caminhada. Foi aí que o apoio chegou. Agradeço ao Débson Coelho, Samara Castro, Pedro Barros e Kamila Monteiro e ao Guilherme Mattos, que fizeram questão de ficar para trás e me acompanhar no meu ritmo. Eles não me deixaram desistir. Foi uma das vistas mais bonitas que contemplei. Tomei gosto pela atividade e segui superando os meus limites. Por duas vezes subi o Pico da Bandeira (terceiro pico mais alto do Brasil), em menos de um mês subi duas vezes o Pico da Caledônia, Chapéu da Bruxa, além da Cabeça do Dragão. Na minha conta ainda são duas vezes a Pedra do Imperador e uma vez a Pedra da Catarina. Saí da minha zona de conforto, enfrentei frio, cansaço, fortaleci mente. Que venham outras montanhas. 

 

TAGS: Meio Ambiente | Turismo