Setembro Amarelo: mês de prevenção ao suicídio

Cerca de 800 mil pessoas por ano acabam com suas vidas no mundo, o que equivale a uma morte a cada 40 segundos
sábado, 14 de setembro de 2019
por Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)
Setembro Amarelo: mês de prevenção ao suicídio

A cada ano, cerca de 800 mil pessoas tiram a própria vida e um número ainda maior de indivíduos tenta suicídio. Cada suicídio é uma tragédia que afeta famílias, comunidades e países inteiros e tem efeitos duradouros sobre as pessoas deixadas para trás. O suicídio ocorre durante todo o curso de vida e foi a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos em todo o mundo, em 2016.

O suicídio não ocorre apenas em países de alta renda, sendo um fenômeno em todas as regiões do mundo. De fato, 79% dos suicídios ocorreram em países de baixa e média renda em 2016. Trata-se de um grave problema de saúde pública; no entanto, os suicídios podem ser evitados em tempo oportuno, com base em evidências e com intervenções de baixo custo. 

Estigma e tabu

O estigma, particularmente em torno de transtornos mentais e suicídio, faz com que muitas pessoas que estão pensando em tirar suas próprias vidas ou que já tentaram suicídio não procurem ajuda e, por isso, não recebam o auxílio que necessitam. A prevenção não tem sido tratada de forma adequada devido à falta de consciência do suicídio como um grave problema de saúde pública. Em diversas sociedades, o tema é um tabu e, por isso, não é discutido abertamente. 

Até o momento, apenas alguns países incluíram a prevenção ao suicídio entre suas prioridades de saúde e só 38 países relatam possuir uma estratégia nacional para isso. Sensibilizar a comunidade e quebrar o tabu são ações importantes aos países para alcançar progressos na prevenção do suicídio. 

Os vulneráveis

Embora a relação entre distúrbios suicidas e mentais (em particular, depressão e abuso de álcool) esteja bem estabelecida em países de alta renda, vários suicídios ocorrem de forma impulsiva em momento de crise, com um colapso na capacidade de lidar com os estresses da vida – tais como problemas financeiros, términos de relacionamento ou dores crônicas e doenças.

Além disso, o enfrentamento de conflitos, desastres, violência, abusos ou perdas e um senso de isolamento estão fortemente associados com o comportamento suicida. As taxas de suicídio também são elevadas em grupos vulneráveis que sofrem discriminação, como refugiados e migrantes; indígenas; lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e intersexuais (LGBTI); e pessoas privadas de liberdade. De longe, o fator de risco mais relevante para o suicídio é a tentativa anterior.

Qualidade de dados

Em todo o mundo, a disponibilidade e a qualidade dos dados sobre suicídio e tentativas são baixas. Apenas 60 estados-membros possuem registros vitais de boa qualidade que podem ser usados diretamente para estimar taxas de suicídio. 

Esse problema de dados sobre mortalidade de baixa qualidade não é exclusivo ao suicídio, mas dada a sensibilidade do assunto – e a ilegalidade do comportamento sucedida em alguns países – é provável que a subnotificação e a má classificação sejam maiores problemas para o suicídio do que para a maioria das outras causas de morte.

A melhoria na vigilância e monitoramento do suicídio e das tentativas de suicídio é necessária para efetivas estratégias de prevenção. 

Organização Mundial da Saúde

A OMS reconhece o suicídio como uma prioridade de saúde pública. O primeiro relatório sobre suicídio no mundo, da OMS, “Prevenção do suicídio: um imperativo global”, publicado em 2014, tem como objetivo conscientizar sobre a importância do suicídio e das tentativas para a saúde pública e fazer da prevenção uma alta prioridade na agenda global de saúde pública. O documento também incentiva e apoia os países a desenvolverem ou reforçarem estratégias de prevenção em uma abordagem de saúde pública multisetorial.

O suicídio é uma das condições prioritárias do Programa de Saúde Mental, da OMS, que fornece aos países orientação técnica baseada em evidências para ampliar a prestação de serviços e cuidados para transtornos mentais e de uso de substâncias. No Plano de Ação  2013-2020, os estados-membros da OMS se comprometeram a trabalhar pelo objetivo global de reduzir as taxas de suicídios dos países em 10%, até 2020.  

Cobertura jornalística 

Jornalistas da América Latina estão redefinindo a forma de comunicar suicídios. Por muitos anos, casos de pessoas que tiram a própria vida foram abordados pela mídia como “um espetáculo” ou simplesmente deixaram de ser noticiados por medo de gerar o efeito “contágio”.

No entanto, uma cobertura jornalística responsável pode contribuir para a prevenção do suicídio, reduzindo o risco de um comportamento imitador, ajudando a modificar falsas percepções e incentivando as pessoas a procurarem ajuda, disse Claudina Cayetano, consultora regional de saúde mental da Organização Pan-Americana da Saúde, Opas..

Desde que a OMS publicou o documento “Prevenção do suicídio: um manual para profissionais da mídia”, em 2000, muitos jornalistas e profissionais da mídia mudaram sua maneira de relatar o assunto.

“Nós notamos mudanças na maneira como os jornalistas comunicam sobre suicídio, que já não é tratado como uma espetacularização ou um ato heroico de amor, como Romeu e Julieta, mas como um fato da vida com causas complexas que podem ser evitadas”, explicou Cayetano, acrescentando que nas Américas, há mais de 81.000 mortes por suicídio a cada ano.

A Opas tem realizado treinamentos virtuais e presenciais sobre o assunto. Em 2017, mais de 130 jornalistas, comunicadores e profissionais de saúde mental de 30 países da região americana participaram de um workshop online. Os ministérios da Saúde, juntamente com os escritórios da Opas, também organizaram encontros para promover a cobertura responsável em seus países - entre eles Argentina e Uruguai. Confira 10 recomendações para noticiar suicídios na mídia:

  • Evitar descrever o suicídio como inexplicável e esclarecer os sinais de alerta;

  • Evitar glorificar ou romantizar o ato do suicídio e tentar apresentar uma história equilibrada sobre a pessoa;

  • Evitar incluir o método, local ou detalhes da pessoa que faleceu e limitar as informações aos fatos que o público precisa saber;

  • Evitar retratar o suicídio como uma resposta aceitável às adversidades da vida;

  • Evitar títulos sensacionalistas;

  • Evitar gráficos e fotografias prejudiciais;

  • Evitar o uso de linguagem estigmatizante;

  • Não compartilhar o conteúdo de cartas suicidas;

  • Evitar citar a polícia ou as primeiras pessoas que presenciaram o ato;

  • Apresentar recursos sempre que possível, como o telefone de linhas de ajuda.

(Fonte: Organização Pan-Americana da Saúde e Organização Mundial da Saúde). 

 

 

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