Representante do Papa, dom Giovanni d’Aniello virá a Friburgo nos 200 anos

Vigário geral e pároco da Catedral São João Batista, padre Marcus Vinícius Brito de Macedo fala da participação da Diocese na festa
sábado, 28 de abril de 2018
por Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)
O padre Marcus Vinícius Brito de Macedo dá entrevista na Diocese (Foto: Leo Arturius)
O padre Marcus Vinícius Brito de Macedo dá entrevista na Diocese (Foto: Leo Arturius)

Na festa pelos 200 anos de Nova Friburgo, a ser realizada a partir de 16 de maio, o município contará com a presença do Núncio Apostólico dom Giovanni d’Aniello (foto), representante do Papa Francisco, em visita de Estado. Segundo o padre Marcus Vinícius Brito de Macedo, vigário geral da Diocese e pároco da Catedral São João Batista, o Núncio traz a bênção papal e sua presença tem a finalidade de demonstrar ao povo brasileiro que a Igreja Católica também festeja o bicentenário de Nova Friburgo. “Estamos unidos agora, como estávamos há dois séculos, no início da criação deste município”, acentuou o padre.

O convite ao embaixador do Papa foi feito pelo prefeito Renato Bravo e pelo bispo dom Edney Gouvêa Mattoso, com o propósito de demonstrar a proximidade do Santo Padre Francisco com a população friburguense.  

“O bispo dom Edney (foto), juntamente com a Igreja Luterana de Nova Friburgo, fundada em 1824, idealizou uma celebração entre as duas primeiras religiões que chegaram a Nova Friburgo. Será um gesto de unidade e fraternidade dirigida a toda a nossa sociedade. Dom Edney fará uma oração acompanhado do pastor Geraldo Graf (denominado Pastor Sinodal, pela Igreja Luterana), e do pastor Gerson Acker (foto)”, revelou.

Durante os dois dias de visita, haverá também intercâmbios e troca de presentes. “Esta visita será um marco, um momento histórico, quando então mostraremos à comunidade friburguense que as religiões desejam e rezam pela congregação, pelo bem comum. Haverá de ser um momento feliz para toda a população friburguense”, reiterou.

No domingo, dia 20, às 10h, haverá uma oração na Praça do Suspiro, em memória das pessoas mortas na tragédia climática de 2011, com todas as denominações religiosas existentes em Friburgo. Todos os líderes religiosos, juntamente com dom Giovanni, depositarão uma coroa de flores no Memorial. “Será uma cerimônia curta, porém significativa, com a participação de seguidores de todas as religiões. Uma singela homenagem à memória dos falecidos, os quais lembramos com carinho. Temos certeza, de que, diante de Deus, estarão vivendo esses 200 anos, pedindo a Ele por nós que aqui continuamos”, ressaltou o padre, informando que às 16h desse mesmo dia,  dom Giovanni presidirá Missa Solene, também na Praça do Suspiro, na qual dará a bênção em nome do Papa a toda a cidade de Nova Friburgo.

Museu Diocesano de Arte Sacra

A criação do Museu Diocesano de Arte Sacra é um sonho de dom Edney Gouvêa Mattoso. Para tanto, o bispo vai dispor de seu acervo particular para dar início ao projeto, que vem sendo encaminhado cuidadosamente, com passos “constantes, seguros e prudentes”, segundo o padre. Prefeitura, Diocese e Fundação Dom João VI trabalham juntos para que ao projeto do Museu seja incorporada a criação de uma Escola-Oficina de Arte Sacra.

“Sem dúvida é um projeto empenhativo, que exige um prazo longo, já que estamos construindo um legado que abrange várias áreas. Precisamos contar com o apoio e o respaldo da prefeitura e certamente de outros órgãos. É uma iniciativa importantíssima, que reúne educação, cultura, arte. A possibilidade de criarmos uma escola de restauração, que forme não apenas técnicos, mas que seja também um polo de atração para a vinda de capital, investimento para a cidade, é muito encorajador. Sabemos que são poucas as instituições que oferecem esse tipo de conhecimento e especialização, atualmente, no Brasil”, salientou o padre Marcus Vinícius.

“O acervo existe, a vontade é grande, e no momento estamos fazendo todas as gestões para que esse projeto se concretize da forma mais correta, para mostrar e aumentar o orgulho do friburguense por sua terra. Hoje, temos uma chance real de montar um belíssimo museu de arte sacra, não só para o estado do Rio, como para o Brasil. Com peças que remontam ao século 17 até o presente século. Peças que são verdadeiras aulas de história brasileira e contam a história da fé no Brasil”, destacou, emendando que será bem vindo um “empurrão de Deus”, da Prefeitura e da iniciativa privada (comentou com um sorriso), para alcançar esse objetivo.   

“Este é o presente que o nosso bispo quer oferecer com amor para cada friburguense, da Igreja Católica. Que cada pessoa, no futuro, ao entrar no museu, possa descobrir que nessa cidade sempre existiu esse legado de fé, que é o que estamos celebrando desde 200 anos atrás. Que saibam que nossos antepassados vieram com fé para começar uma cidade”, enfatizou o padre, lembrando que, nos primórdios da criação desse município, através dos registros de todo o seu histórico, entendemos o vínculo de Nova Friburgo com a Igreja Católica.

Na gênese, o vínculo

O padre Marcus Vinícius destaca a presença de dois sacerdotes que acompanharam os suíços na vinda do Brasil, em 1818: o padre Jacob Joye, que foi o capelão daquela “expedição” de colonizadores no início do século XIX, e Joseph Aeby (este morreu afogado quando se banhava no Rio Macacu, às vésperas de chegar ao seu destino).

“Através do diário de bordo do padre Jacob, ficamos sabendo como ele foi administrando os sacramentos, batizando e encomendando as almas daqueles que não suportaram a longa e dura travessia. O padre fez um relato muito sensível e bonito, dando publicidade a tudo que viveu durante aquela jornada. Percebe-se então o vínculo da Igreja Católica com a chegada dos suíços a Nova Friburgo, que foram recebidos pelo Monsenhor Miranda, então regente nomeado pelo rei D.João VI, de todo esse território onde hoje está Nova Friburgo”.  

Ele conta que a Igreja Matriz, depois Catedral São João Batista, foi erigida por D. João VI no ato de emancipação deste território, do município de Cantagalo, em 1820, sendo a Catedral inaugurada em 1869. “O paroquiato foi dado ao padre Jacob Joye para que ele edificasse o templo religioso, desvinculando-se então, da potestade do governo do Monsenhor Miranda. Nesse aspecto, reiteramos a importância da vinda dos suíços acompanhados dos dois sacerdotes católicos,  e a recepção pelo Monsenhor Miranda. Isso mostra que a Igreja Católica estava presente na gênese deste município, tendo seu nome vinculado à Vila São João Batista de Nova Friburgo, com duas vertentes históricas: uma, em homenagem ao próprio rei, D. João, e outra pela devoção dele (D. João) a São João Batista”, esclareceu.

Por tanta história, a Diocese quer celebrar, não só com os católicos mas com toda a população o aniversário da cidade, com a ilustre presença de D. Giovanni d’Aniello. “Cabe destacar a importância deste evento diante do governo brasileiro, e perante a igreja católica no território brasileiro. Afinal, todo Núncio Apostólico é o decano do corpo diplomático, com exceção dos países de fé muçulmana. Como representante da Santa Sé (do Papa e todo o governo papal) é ele quem transmite as demandas do país onde se encontra acreditado. Portanto a vinda dele a Nova Friburgo, é uma visita oficial de Estado”, reiterou o padre Marcus Vinícius.

Pedro Machado de Miranda Malheiro, o primeiro Monsenhor Miranda, importante figura ligada à fundação do município

Pedro Machado de Miranda Malheiro nasceu na província do Minho, em Portugal. Era doutor em Filosofia pela Universidade de Coimbra, e substituto da cadeira de História Eclesiástica. Foi sacerdote, militar e magistrado luso-brasileiro. E Monsenhor da Santa Igreja Patriarcal de Lisboa.

Como militar, combateu as tropas de Napoleão em 1808, foi nomeado desembargador do Paço, e veio para o Brasil com a corte portugusa, sendo aqui nomeado chanceler-mor do reino do Brasil. De 1819 a 1821 foi inspetor da colônia de Nova Friburgo, responsável pela sua construção e organização. Acompanhou D. João VI em seu retorno a Portugal, mas, proibido de desembarcar por ordem das cortes de Lisboa, retornou ao Brasil.

Em 6 de maio de 1818 foi nomeado inspetor da colônia de suíços em Nova Friburgo, e 10 dias depois, foi estabelecida a colônia suíça, composta de 100 famílias. Para esse fim foi escolhida “a localidade Morro Queimado, na província do Rio de Janeiro, criada em Vila, em 3 de janeiro de 1820, com a denominação de Nova Friburgo”.

Proclamada a Independência do Brasil, Monsenhor Miranda naturalizou-se brasileiro. Foi um dos maiores defensores da imigração europeia, tendo atuado em sua promoção e organização no Brasil. Encarregava-se pessoalmente dos imigrantes alemães, sendo inclusive responsável por designar alguns, vistos como prejudiciais, para envio a colônias mais distantes, como o caso dos enviados para São João das Missões (RS).

D. Pedro I ainda agraciou Miranda Malheiro com o oficialato da Ordem do Cruzeiro, em 1825, e a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, em 1826. Em 1828, o Conselho de Fazenda concedeu-lhe pensão anual de oitocentos mil réis, sendo em seguida nomeado ministro do Supremo Tribunal de Justiça.

Monsenhor Miranda faleceu no Rio de Janeiro, em 9 de abril de 1838, e foi sepultado na Igreja de Sant’Ana, demolida por ocasião da construção da Estrada de Ferro D. Pedro II.

 

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