Produção orgânica cresce e conquista consumidor de Friburgo

Alimentação saudável é o melhor remédio para uma vida plena, longa e feliz
terça-feira, 26 de abril de 2016
por Ana Borges
(Foto: Regina Lo Bianco)
(Foto: Regina Lo Bianco)

Aposentados ao fim dos anos 1980, o casal Jovelina e Luis Paulo Fonseca (ela, funcionária do IBGE, ele, agrônomo, professor da UFRJ, phD em bioquímica), havia decidido morar no campo e se dedicar à produção de orgânicos. Saíram da cidade do Rio com a expectativa de encontrar um lugar para morar e trabalhar na terra.

Em 1991, o casal adquiriu um terreno a 1.100 metros de altitude, no distrito de Amparo, e iniciou a produção de hortifruti no espaço batizado de Sítio Cultivar. A propriedade era tudo que pretendiam: localização privilegiada, tamanho e relevo do terreno perfeitos, grande potencial para a produção, como água pura, terra fértil e barreiras naturais de proteção. 

Enquanto aprendia a lidar com sementes e solos, Jovelina ampliava seus conhecimentos fazendo mestrado em agricultura orgânica (UFRRJ), enquanto a filha Carolina fazia pós-graduação em agricultura biodinâmica (Uniube - Universidade de Uberaba). “Hoje, passados 25 anos, olhamos para trás e vemos o quanto lutamos para aprender e desenvolver técnicas naturais de plantio adaptadas para a nossa região e clima. Nosso maior incentivo é saber que a busca pela sustentabilidade não é apenas um sonho, mas uma realidade”, escreveu Jovelina no site da empresa.

Entre legumes e verduras, o Sítio Cultivar produz abóbora, agrião, aipim, aipo, alho porró, batata andina e doce, berinjela, beterraba, brócolis, cebola, cenoura, couve, couve-flor, ervilha, espinafre, feijão, milho, nabo, pepino, pimenta, pimentão, quiabo, rabanete, radiche, repolho, rúcula, salsa, tomate e vagem. As frutas são abacate, banana, caqui, limão galego, morango e tangerina. E ainda ovos orgânicos de qualidade.

De onde vem o que eu como?

Em suas compras nas feiras e supermercados, Jovelina não pensava na origem dos produtos que adquiria. Nenhuma curiosidade sobre a complexidade por trás de cada alimento. “Até o dia em que comecei a pensar em como e onde as verduras, legumes e frutas eram plantados, colhidos, transportados. De onde vinham, o que estávamos comendo? Conheci umas pessoas que pensavam nisso também e queriam respostas. Durante a realização do 5º Congresso de Agro-Ecologia que culminou com a criação da Associação dos Agricultores Biológicos do Estado do Rio de Janeiro (Abio-RJ), surgiu um movimento para debater a questão. Essa movimentação chamou a atenção da mídia e uma das reportagens, do JB (Jornal do Brasil), me esclareceu muita coisa”, contou. 

Estabelecidos em Friburgo, levaram dois anos investindo, pesquisando, testando, observando o mercado local em relação aos orgânicos. A plantação inicial ocupava cerca de 2 hectares do sítio, e ao longo de 20 anos foi se desenvolvendo até atingir o estágio atual de 6ha de plantio. Começaram com um tipo de alface — mostra uma plantação de mini-alfaces, que não é comercializada — usada apenas em saladas para pronta-entrega, e foram expandindo para outras culturas, como a cenoura, e depois outra e outra. “Um pé de alface orgânico, num sítio que está a 1.100 metros do nível do mar, no inverno, leva mais tempo para estar pronta para o consumo do que uma galinha para o abate”, continuou explicando.

De todas as lavouras, Jovelina revela sua preferência pelo alface e cenoura. Para ela é importante considerar a vocação do produtor. “Tivemos a sorte de encontrar pessoas para trabalhar conosco que também se identificam com esse tipo de cultivo. Como não tenho vizinhos que complementem a minha produção, preciso trabalhar com outras lavouras para ter a diversidade que o mercado requer, e isso exige um mínimo de regularidade na entrega dos produtos. Como nem sempre isso é possível, tendo em vista o curto prazo de validade e os imprevistos climáticos, nem sempre consigo manter o abastecimento de forma constante”.

Dificuldades criam novas oportunidades

Para compensar essa brecha na comercialização, Carolina incentivou a mãe a abrir um canal direto ao consumidor: de pronta entrega. Hoje, com uma carteira de clientes fixos, o Sítio Cultivar foca mais nesse nicho embora mantenha pontos de venda em supermercados e feiras. “Nesse negócio somos muito dependentes do fator clima, e o tempo anda muito descontrolado: ou é muito quente, ou muito frio, tem muita enchente ou muita estiagem, enfim, a natureza tem se manifestado de forma catastrófica em várias partes do mundo. E Friburgo não foi poupada, lembremos 2011. Por exemplo, hoje eu tinha combinado de ir no Ibelga (escola agrícola localizada em Três Picos), buscar esterco de cabra. O dejeto de ruminantes é muito benéfico para a terra porque é rico em bactérias. No nosso composto, intercalamos esterco com capim e íamos iniciar a semeadura de alho e cenoura, mas como choveu, adiamos a ida ao Ibelga”. 

Para manter os empregos criados no sítio, que tanto orgulha a família Fonseca, as estufas merecem cuidados especiais suficientes para garantir o compromisso assumido com toda a cadeia de trabalho que abrange também o fator sócio-econômico. “A crise, que, para nós é política e não econômica, não nos atingiu. Produzimos menos por causa da chuva , mas as estufas estavam protegidas e isso manteve um mínimo de atendimento ao nosso público. Mas se tivéssemos produzido mais, teríamos vendido tudo da mesma forma”, contou Jovelina. 

Nas estufas, com uma diversidade de plantio que impressiona, os produtos ficam cerca 30 dias, protegidos das intempéries e das mudanças bruscas do clima, além de deixar uma boa porção de terreno para outra serventia. Segundo Jovelina, há hortaliças oriundas do mediterrâneo, amplamente adaptadas e que podem ser cultivadas o ano inteiro. Em outra estufa, morangos: suculentos, macios, levemente adocicados, simplesmente deliciosos, um sabor raro de encontrar. O gosto dos orgânicos é assim. O tomate, geralmente em tamanho médio, tem gosto de tomate como só as pessoas mais velhas experimentaram, em tempos idos. O sabor, o aroma, a cor, em tudo os orgânicos diferem dos demais, cultivados com outros métodos, nem por isso desqualificados. 

No galinheiro, cerca de 50 aves, muitos ovos e pintinhos. O chão é coberto por serragem orgânica e a ração, orgânica, claro (de milho e soja) é servida através de um sistema que a mantém sempre fresquinha, assim como a água, de nascente. Como bem disse, Jovelina, rindo, “elas têm casa, comida e roupa lavada”. Com tantos cuidados, só podiam ser belas, saudáveis e educadas (mansinhas). “Elas vivem em torno de 5 anos. Quanto ao custo/benefício, relativo à manutenção e a quantidade de ovos, é economicamente viável só até o primeiro ano. Depois disso, ela continua comendo, claro, mas já não coloca tanto ovo como antes. E a cada ano a produção vai caindo até parar”, encerra a produtora, admirando a paisagem à sua volta, pleno de alimentos, o qual, temos certeza, não vai cair, muito menos, parar.

  • (Foto: Regina Lo Bianco)

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TAGS: agricultura | Meio Ambiente | produtos orgânicos