Primeiro clube de futebol de Friburgo surgiu em 1913

Famílias Sertã, Spinelli e Van Erven organizavam as primeiras peladas, no campo do Anchieta
quinta-feira, 17 de maio de 2018
por Vinicius Gastin (esportes@avozdaserra.com.br)
Os estádios Eduardo Guinle e Serrano, em Olaria (Foto: Osmar de Castro)
Os estádios Eduardo Guinle e Serrano, em Olaria (Foto: Osmar de Castro)

O ano era 1913. Nova Friburgo estava a cinco anos de comemorar o seu primeiro centenário quando o jornal A Paz noticiou o primeiro clube de futebol do município formado por rapazes da elite. Naquele início do século 20, estudantes de várias partes do país vieram para Nova Friburgo e trouxeram um objeto ainda desconhecido pela maioria dos brasileiros: a bola de futebol.

Os moradores do bairro Vilage passaram a frequentar o Colégio Anchieta, e as tradicionais “peladas” (partidas amistosas de futebol) foram disputadas no campo da escola. Estes foram os primeiros registros oficiais do esporte por aqui. As famílias Sertã, Spinelli e Van Erven estreitaram as relações e passaram a organizar os jogos. No dia 26 de abril de 1914, uma reunião no Hotel Salusse fundou oficialmente o Friburgo Futebol Clube, alterando o nome Friburguense Futebol Clube, utilizado até então.

Em meados de 1918, o futebol amador passou por uma grave crise financeira e de interesses. As divergências dentro do Friburgo levaram alguns componentes a deixar o clube e fundar o Fluminense A.C.. Quatro anos depois, formou-se a primeira Liga de Futebol do município. Após o esporte conquistar a classe popular, foi criado o Esperança Futebol Clube, formado por operários.

Em 1925, surgiu o Clube Sírio-Libanês, patrocinado pela colônia de libaneses. As quatro equipes formaram a Liga Friburguense de Desportos, fomentando os campeonatos locais. O futebol se disseminou em Nova Friburgo e começaram a surgir os times de bairro, da segunda divisão.

Os clubes eram mantidos pelo aporte de grandes mecenas, a exemplo das famílias Guinle, Sertã e Spinelli. César Guinle, por exemplo, doou a área onde foi construído o campo do Friburguense, homenageando o pai, Eduardo, com o nome do estádio. O então prefeito César Guinle doou tanto propriedades particulares como áreas pertencentes ao município para diversos clubes, e as indústrias ofereciam empregos e benefícios aos craques da época.

Desta forma o esporte, em especial o futebol, acompanhou o desenvolvimento. Com o tempo, os estádios deram lugar aos edifícios e empreendimentos. Mas os sentimentos e capítulos ali escritos serão eternos.

Em 1979, Nova Friburgo aderiu ao profissionalismo com a fusão de Fluminense e Serrano, dando origem ao Friburguense Atlético Clube. O Tricolor da Serra, maior instituição esportiva do município, passou 18 das últimas 20 temporadas na primeira divisão do futebol carioca. Uma marca, ainda pouco reconhecida pelos próprios friburguenses, mas que carrega em seu nome e na sua história todo o valor da nossa população.

Nessa Maria Fumaça de sentimentos nós viajamos, e estacionamos nas “Leopoldinas” do coração de cada friburguense. A partir de então, a história do esporte municipal começou a ser escrita com capítulos vitoriosos, dramáticos e polêmicos. Especialmente importantes e inesquecíveis. O futebol, o basquete, o vôlei, as competições nas recreativas das fábricas e em cada canto de Nova Friburgo contribuíram para a formação sócio-cultural do município. O esporte faz parte da trajetória bicentenária.

O basquete friburguense, no início da década de 90, foi responsável por um saudável intercâmbio com os Estados Unidos, enviando jogadores e recebendo americanos. A Seleção Brasileira de Basquete chegou a realizar pré-temporadas aqui.

O Nova Friburgo Country Clube formou verdadeiros esquadrões, e o clube Sociedade Esportiva Friburguense eternizou inúmeros nomes da modalidade no município. São alguns deles, inclusive, que até os dias atuais tentam reerguer o basquete friburguense, com a ajuda de abnegados da nova geração.

O voleibol, de tantas conquistas, há quase três décadas luta pelo resgate - desde 1993, por iniciativa do então presidente do Friburguense, Antônio Deccache. A convite de Walter Thiele, então responsável pela equipe feminina do Friburguense, o professor Fernando Miranda deu início a uma escolinha de voleibol, que reunia garotos da faixa etária dos 12 aos 15 anos. O projeto ganhou forma de equipe, e no ano seguinte, já representava o Friburguense em competições municipais.

Em 1996 essa mesma equipe era considerada imbatível. As equipes do Vasco e a Seleção da Marinha vieram a Nova Friburgo, e o Friburguense conquistou a vitória nos dois confrontos. Naquele momento, José Eduardo Siqueira, o Siqueirinha, atual gerente de futebol do Friburguense, assistiu às partidas e abraçou a ideia de patrocinar a equipe no Campeonato Estadual Adulto de Voleibol. Desta forma, em 1997, o sonho de disputar o torneio foi concretizado.

No ano seguinte, no entanto, Fernando Miranda se retirou do projeto por motivos profissionais, e o clube escolheu o professor André para, juntamente com os dirigentes da equipe, comandar a equipe nos Jogos Abertos do Interior e nos Jogos Abertos Brasileiros.

Em 1999 e 2000, Nova Friburgo conquistou o vice-campeonato nos Jogos Abertos Brasileiros em Dourados (MS) e Atibaia (SP). Depois da glória, entretanto, o projeto acabou paralisado. O respiro vem com o Friburgo Vôlei, o master e alguns outros trabalhos, como o de Luiz Roberto Scheidt.

Mais histórias recentes de sucesso

Além dessas importantes passagens pelos esportes tradicionais (e tantas outras poderiam ser contadas), as modalidades olímpicas e as artes marciais compõem as histórias mais recentes de sucesso. Nas piscinas, Jhennifer Alves brilha cada vez mais forte, e até mesmo já participou de uma olimpíada. O futebol de mesa realiza um belo trabalho há décadas, assim como a Associação dos Corredores Friburguense (Ascof), responsável por tantos eventos e pela mudança de vida de inúmeras pessoas em mais de 30 anos.

 As competições de motocross atraíram milhares, bem como várias outras modalidades do mundo das motos e das bicicletas. O potencial natural de Nova Friburgo é bastante explorado, com competições em rios e cachoeiras, canoagem, provas de atletismo e caminhadas. No rugby e no futebol americano, através do Yetis, Nova Friburgo ganha o seu espaço. As escolinhas das mais variadas modalidades e os projetos sociais suprem a carência que, historicamente, o poder público ainda não consegue preencher.

É impossível falar sobre esportes e não citar os vitoriosos times de bolão do Country Clube e da SEF. Homens e mulheres, que representam seus clubes e Nova Friburgo, no Brasil e no mundo, mantendo viva a tradição plantada por alguns de nossos colonos e enraizada pelas gerações seguintes.

Até mesmo no dardo, neste próximo mês, o município terá um representante na Seleção Brasileira. As instituições, os clubes sociais e esportivos, as pessoas e, principalmente, os apaixonados. Em tantas modalidades aqui não citadas. Nova Friburgo vive e respira esporte.

Édson Barboza, Marlon Moraes e Anderson França merecem um capítulo à parte. Os dois primeiros vieram de famílias humildes, batalharam e hoje integram o casting do maior evento de lutas do planeta. Já França é responsável por revelar ambos, tantos outros e, mais do que isso, dar continuidade à vasta história de Nova Friburgo no mundo das artes marciais. Seja no muay thai, judô, jiu-jitsu, taekwondo ou qualquer outra modalidade da luta. A disciplina e os desenvolvimentos físico e psicológico mudam o destino de milhares de crianças e jovens diariamente.

São muitas as histórias que se confundem com a deste que vos escreve, com a do leitor e com a trajetória de tantos outros friburguenses. Brasileiros, fluminenses, mas principalmente, friburguenses. Privilegiados por isso, por eles, por nós. Por sermos desta terra. Que mais 200 anos possam vir, acompanhados pelos movimentos físicos, sociais, econômicos e intelectuais que apenas o esporte podem proporcionar. Parabéns, Nova Friburgo!

 

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