Pesquisa da UFF Friburgo sobre relação entre agrotóxicos e obesidade avança

Estudo entra na segunda fase, análise em células animais, e descobre quatro pesticidas que podem provocar até diabetes
sexta-feira, 05 de abril de 2019
por Paula Valviesse (paula@avozdaserra.com.br)
A equipe de pesquisadores da UFF Friburgo (Divulgação)
A equipe de pesquisadores da UFF Friburgo (Divulgação)

Pesquisadores do Instituto de Saúde de Nova Friburgo (ISNF), unidade de ensino superior da Universidade Federal Fluminense (UFF) no município, descobriram que os agrotóxicos Ametrina, Abamectina, Carbosulfano e Óxido de Fembutatina promovem o acúmulo de gorduras em células animais. Os professores Flora Milton e Leonardo Mendonça estão investigando se esses produtos químicos, utilizados como pesticidas, são mesmo obesogênicos, ou seja, se induzem ao acúmulo de gorduras no organismo.

Segundo os pesquisadores, na segunda fase da pesquisa, que é dividida em duas etapas e análises em células animais (fase atual) e testes em camundongos, que ainda serão realizados, foram descobertos os quatro agrotóxicos que promovem o acúmulo de gordura nas células animais.

As quatro substâncias pesquisadas são utilizadas, com frequência, em lavouras. A Ametrina, conforme explica o estudo é um herbicida muito utilizado nas culturas de abacaxi, algodão, banana, café, citros, cana-de-açúcar, mandioca, milho e uva. A Abamectina, pertence às classes acaricida e inseticida, sendo utilizada nas culturas de algodão, alho, batata, cana-de-açúcar, café, cenoura, cebola, citrus, coco, ervilha, feijão, figo, maçã, mamão, manga, melancia, melão, milho, morango, pepino, pêra, pêssego, pimentão, soja, tomate e uva. O Carbosulfano pertencente às classes acaricida, inseticida e nematicida e é utilizado nas culturas de algodão, arroz, cana-de-açúcar, feijão, fumo, milho e soja. Já o Óxido de Fembutatina, classe acaricida, é usado em cultura de citros.

Além do acúmulo de gorduras, a pesquisa tem o objetivo de identificar se os agrotóxicos utilizados no Brasil também induzem ao desenvolvimento de diabetes. A pesquisa é gerenciada pelos professores Leonardo Mendonça, coordenador do Curso de Graduação em Biomedicina do ISNF, e Flora Milton, coordenadora do Laboratório Multiusuário de Cultivo de Células e Tecidos animais (LMCT), em parceria com a Universidade de Brasília (UnB).

De acordo com os responsáveis, a descoberta é fundamental para o estudo da obesidade e diabetes. A pesquisa tem ainda como meta a análise de outros seis agrotóxicos: Acefato, Benalaxil, Bitertanol, Metamitron, Metomil e Tiram. “Ainda tem muita coisa a ser analisada, mas uma coisa já é certa e nós provamos: esses agrotóxicos acumulam gordura nas células animais, o que pode contribuir para o desenvolvimento de obesidade e de diabetes. Nossos resultados devem ser considerados na hora de se regulamentar novos produtos, para que possamos, enfim, argumentar através de estudos e provas que esses itens fazem mal à saúde”, alerta Flora.

Em humanos

Apesar da recente descoberta, a pesquisadora e professora Flora Milton esclarece que ainda não há motivo de alarde sobre a influência desses defensivos agrícolas no organismo humano. De acordo com ela, neste quesito a pesquisa ainda precisa considerar outros fatores relacionados aos seres humanos.

“Nós testamos em células de camundongos. Os estudos precisam avançar para que possamos afirmar alguma coisa em relação aos humanos. Não vai ser o consumo de uma única banana ou de um prato de arroz com feijão que vai provocar obesidade ou diabetes nas pessoas. Até porque essas doenças possuem diversas causas. No entanto, a descoberta é um grande passo para entendermos essas enfermidades”, garante a cientista.

 

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