Parar de fumar: dê uma tragada profunda nesta ideia

Conheça friburguenses que conseguiram derrotar o tabagismo e saiba onde buscar ajuda
sábado, 04 de novembro de 2017
por Guilherme Alt
Parar de fumar: dê uma tragada profunda nesta ideia
Você já está cansado de ler reportagens falando dos malefícios do cigarro. Números, porcentagens, gráficos, entrevistas comprovando o quão prejudicial é o ato de fumar e as doenças que desencadeiam, como consequência. Neste link criado pela Cancer Society of Finland você pode passear pelo corpo humano e, com o mouse, comparar os efeitos nefastos do cigarro no  cabelo, na pele, nas rugas, no ganho de peso etc.

"Parar de fumar é como cortar o cordão umbilical de uma “amizade” que não existe"

Gilmar de Almeida, ex-fumante

Mas o Caderno Z desta semana vai deixar de lado o clichê, não menos importante, claro, dos alertas do tabaco. Nosso especial desta semana quer passar uma mensagem de otimismo e incentivar a você, caro leitor que é fumante, a dar o passo inicial (o mais difícil) para largar de vez o vício.

E começamos com uma notícia boa para a saúde brasileira – e muito comemorada por quem não fuma: o número de fumantes está caindo. De acordo com a última pesquisa feita pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca), no período entre 1990 e 2015, a porcentagem de fumantes diários no país caiu de 29% para 12% entre homens e de 8% entre mulheres. São cerca de 22 milhões de fumantes, em um país com 207 milhões de habitantes, aproximadamente.

A intensificação das campanhas antitabagismo tem conscientizado a população brasileira. O estudo também constatou que, em 2015, aproximadamente um bilhão de pessoas no mundo inteiro fumavam diariamente: um em quatro homens e uma em 20 mulheres. A proporção é levemente diferente da registrada 25 anos antes: em 1990, era um em cada três homens e uma em cada 12 mulheres.

A redução coloca o país entre os campeões de quedas do volume de pessoas que consomem tabaco. O Brasil ocupa o oitavo lugar no ranking de número absoluto de fumantes (7,1 milhões de mulheres e 11,1 milhões de homens), mas a redução coloca o país entre os campeões de queda do volume de pessoas que consomem tabaco.

As boas notícias não param por aí. Segundo especialistas, quem decide parar de fumar sente efeitos imediatos: em 20 minutos a pressão arterial e a pulsação já estão normalizadas, em oito horas o nível de oxigênio no sangue também está normalizado e em 48 horas a capacidade de sentir cheiros e gostos melhora. Além disso, de duas semanas a três meses depois a função pulmonar, antes atingida gravemente pelo uso do cigarro, volta a funcionar em níveis adequados, o que gera uma melhora na circulação sanguínea e mais facilidade na prática de exercícios. Depois de cinco a 15 anos, a pessoa corre menos riscos de sofrer um infarto e um AVC, chegando ao mesmo nível de alguém que nunca fumou.

Friburgo tem serviços

Em Nova Friburgo, desde 2010 existe uma campanha constante contra o consumo do tabaco. De acordo com a médica Carla Moura, que é fonoaudióloga e coordenadora do setor de Promoção da Saúde que faz parte da Subsecretaria de Vigilância em Saúde, o cigarro é a maior causa de morte evitável no mundo. “São 428 pessoas que morrem por dia, por conta do tabagismo. Ela é considerada uma doença crônica gerada pela dependência da nicotina”.

“Nós percebemos, durante o tratamento, que com a proibição de fumar em lugar fechado, ajudaram na decisão da pessoa de parar de fumar. O fumante precisa ser sensibilizado e nós fazemos aqui. Temos oito unidades, em diferentes bairros da cidade que realizam o tratamento de fumantes”, afirma Carla.

Friburgo tem várias ações de combate ao fumo, segundo o coordenador do Controle de Tabagismo, Leones de Oliveira. “Existem grupos de tratamento de controle do tabagismo em diversas unidades do Sistema Único de Saúde (SUS). Temos ações preventivas junto ao programa Saúde na Escola. Os pacientes, após avaliação feita por esses profissionais, ingressam nos grupos de apoio e podem receber algum tipo de medicação de reposição de nicotina (adesivos, gomas) ou ainda uma medicação não nicotínica (bupropiona)”.

O tratamento é gratuito e depende do paciente. “O que se precisa para entrar para o Controle do Tabagismo do SUS: querer parar de fumar. E nós trabalhamos essa motivação na pessoa para que ela consiga se manter livre do cigarro”. Veja onde procurar ajuda na ilustração acima.

 

Depoimentos de friburguenses que derrotaram o tabagismo

Gilmar Moraes de Almeida - Contador

Eu fumei por 18 anos, dos 13 aos 31, e estou há quase 17 anos sem colocar um cigarro na boca. Notei que o cigarro me fazia muito mal, tanto na parte física, quanto na parte psicológica. Eu tive dificuldade para conseguir parar. Foram muitas tentativas. Eu botei na minha cabeça que eu conseguiria parar quando quisesse. Mas isso era ilusão, talvez a pior delas. Quando finalmente consegui, de cara eu já notei mudanças significativas. Eu tinha uma tosse surreal, toda vez que tinha a crise, sentia uma dor no peito. Parei de fumar e a tosse não veio mais. Comecei a praticar esporte, cheguei a ser campeão regional de Kung-Fu, na categoria acima de 80kg. Minha auto-estima melhorou, finalmente não me sentia mais um pária e tinha plenos controle das minhas vontades. Parar de fumar não é fácil, a pessoa tem que estar psicologicamente preparada. No meu subconsciente achava que só conseguiria resolver um problema ou tinha boas ideias quando fumava um cigarro! Se estava nervoso, dava uma tragada. É como se fizesse parte de cada momento da sua vida. Parar de fumar é como cortar o cordão umbilical de uma “amizade” que não existe. Eu comecei a me descobrir um viciado, um usuário de uma droga – mesmo que lícita – me vi como um dependente químico e até hoje, ajo desta forma. Todos os dias ao me levantar eu me policio e digo: “Só hoje eu não irei fumar – amanhã é outro dia”. Isso tem me ajudado muito! A força de vontade tem sido meu remédio. Mesmo quase 17 anos depois, não só sinto vontade, como, às vezes, sonho que estou fumando! É um vício que impregna, mas que tenho controlado bem.

 

David Pinho- Professor

Eu fumei por quase dez anos, dos 18 aos 28, e parei de fumar há seis anos. Quando eu comecei era bastante normal fumar, não existia uma campanha massiva contra o tabagismo. Com inúmeros casos de câncer vindo à tona e tendo como agente causador o tabaco, aquilo me despertou a vontade de parar de fumar e cuidar da minha saúde. Felizmente, só precisei de uma tentativa para parar de fumar. Estava bem consciente do que queria. Fumei umas duas vezes depois que tinha decidido parar e senti que não desceu bem. Essas duas vezes não foram por abstinência, eu já estava acostumado a ficar sem o cigarro. Assim que parei, a minha apneia melhorou muito. Eu costumo fazer exercício todo dia, dando uma corrida ou nadando. O resultado da minha decisão refletiu muito na minha saúde e de maneira positiva. Minha respiração e disposição melhoraram muito. Eu não cheguei a perder odor e paladar, mas muitos amigos que pararam de fumar notaram que a comida ficou mais saborosa. Além do aspecto físico, me senti bem comigo mesmo. Na época em que eu estava pensando em parar, já tinha a consciência de que isso não me fazia bem. Teve um bem-estar psicológico quando eu parei. O principal problema quando você para de fumar é controlar a ansiedade. Você decide parar, mas vem a vontade de fumar, você segura essa vontade e ela vem mais forte. Depois desses momentos de resistência, vem a ansiedade por conta do velho hábito. O segredo é saber controlar esse sentimento e seguir focado. Não é fácil parar de fumar, mas essa ansiedade, quando vencida nos primeiros momentos, passa. Nesses momentos eu pegava um chiclete, geralmente sem açúcar. Final de semana era mais complicado. Quando tomava uma cerveja, a vontade de fumar era maior do que durante a semana. Minha técnica era conversar bastante, me manter ocupado para não ficar ocioso e deixar que a vontade de fumar me dominasse. Hoje eu não sinto mais vontade. Logo que eu parei eu consegui levar na boa. Tem sempre algumas vezes que a vontade volta com tudo, mas eu não cheguei a sofrer com isso. Estava muito concentrado mesmo em deixar o cigarro.

 

Victor de Oliveira - Dono de restaurante

Eu fumei por dez anos e estou sem cigarros há três. Decidi parar de fumar porque não tinha mais prazer, apenas fazia manutenção do vício. Já estava com a ideia de abandonar o vício e por isso precisei apenas de uma tentativa. Assim que decidi parar, as melhoras foram rápidas. Me senti mais leve, mais cheio de energia, comendo melhor e sentindo mais sabor nos alimentos. A melhor foi em todos os pontos. Parar de fumar não é questão de ser fácil ou difícil, é de tomar consciência do interesse sincero em parar. Fumar é bom, dá prazer, mas traz males severos à saúde como resultado do uso exagerado e mais ainda da dependência. A questão talvez seria entender melhor a relação subjetiva que cada um tem com o cigarro e outras drogas. Existem pessoas que são controladas por elas, neste caso, empoderar o sujeito para retomar o controle de sua vida, para que o cigarro ou qualquer outra droga não seja usada como ferramenta de fuga, e sim para uso recreativo. Minha crítica é sobre o prejuízo social que o vício específico do cigarro traz. Geralmente fumantes jogam seus restos de cigarro na rua, por vezes até aceso. Frequentam ambientes fechados logo após fumarem e acabam levando o forte odor próximo a pessoas alérgicas. Sofrem preconceito  e pagam caro para manter o vício. Esses são alguns pontos entre outros que deveriam ser considerados quando a pessoa mantém uma relação de dependência com o cigarro.

Cigarro eletrônico e narguilé

Existe uma ideia errada de que o cigarro eletrônico pode ajudar no combate ao consumo de tabaco. Muitos usuários costumam substituir o cigarro convencional pelo cigarro eletrônico a fim de diminuir essa dependência. De acordo com Carla Moura, o cigarro eletrônico é ainda mais nocivo do que o cigarro normal.

“O cigarro eletrônico é proibido no Brasil. Comercializar esse produto é ilegal. Depois que o número de fumantes caiu consideravelmente, a indústria do cigarro contra atacou com esse produto, mas ele não ajuda em nada. Quem usa o cigarro eletrônico continua com o hábito de inalar fumaça e levar o cigarro a boca. Isso não ajuda em nada quem quer parar de fumar. Além disso, os malefícios desse produto são iguais aos do cigarro normal”, afirma.

O narguilé é ainda pior, diz a fonoaudióloga. Segundo a coordenadora do setor de Promoção da Saúde, fumar narguilé equivale a fumar, de uma só vez, cem cigarros. “Você usa o fumo para queimar, não é só a essência. Essa combustão do fumo é que faz mal”, explica.

Onde tem fumaça, tem perigo

O fumante passivo é o não-fumante que convive com fumantes em ambientes fechados, ficando assim, exposto aos componentes tóxicos e cancerígenos presentes na fumaça ambiental do tabaco, que contém praticamente a mesma composição da fumaça tragada pelo fumante.

“Essa fumaça da ponta do cigarro que o fumante passivo respira é três vezes mais prejudicial do que a inalada pelo fumante”, afirma  Carla Moura. De acordo com a fonoaudióloga, os fumantes passivos podem ter os mesmo problemas de saúde que os fumantes normais têm.

São potenciais fumantes passivos pessoas cujos parentes próximos tenham o hábito de fumar, profissionais como garçons, bartender e outros que costumam lidar com diversos tipos de públicos em ambientes onde é permitido fumar.

“Existe até uma curiosidade com relação à lei que proíbe fumar em locais fechados. Uma das principais causas que motivaram essa lei foram os garçons. Muitos profissionais estavam adoecendo porque inalavam a fumaça do cigarro, sendo que eles não fumavam. Imagina trabalhar cerca de oito ou mais horas por dia dentro de um lugar fechado, com pouca circulação de ar, e esse ar ainda estar contaminado por cigarros?”, diz Carla.

A fonoaudióloga cita um caso em que a esposa de um homem fumante por 35 anos, mas que parou há dez, hoje fica no balão de oxigênio, com problemas respiratórios, mesmo sem nunca ter acendido um cigarro na boca. “Essa é a principal consequência para o fumante passivo. Mesmo sem ter tocado em um cigarro, ele pode desenvolver problemas que um fumante desenvolveria. Chega a ser injusto”, compara.

 

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