Os poetas da cidade: por onde andam? Onde se inspiram?

Escritora desafia o leitor a procurá-los nas ruas, no comércio, em um vizinho, no porteiro, no lixeiro que trabalha cantarolando ou em si mesmo
sábado, 21 de outubro de 2017
por Ania Kítylla Gevezier
Ania Kítylla Gevezier é autora dos livros “Café sobre tela” (2015); “Brisa, a história da tempestade” (2016); e publicou o conto “A teia sobre a escada escura”, na antologia “Nova Friburgo, contos, crônicas e declarações de amor” (2017)
Ania Kítylla Gevezier é autora dos livros “Café sobre tela” (2015); “Brisa, a história da tempestade” (2016); e publicou o conto “A teia sobre a escada escura”, na antologia “Nova Friburgo, contos, crônicas e declarações de amor” (2017)

Praça do Suspiro, dos Trovadores, Parque das Flores. “Nesta plaga onde o amor e a poesia são como as flores nativas também”, nos lugares, no hino, nos nomes, na história. Diversas referências nos contam a harmoniosa relação entre Nova Friburgo e a poesia, mas por onde andam os poetas friburguenses? Onde encontra-se a famosa inspiração?

Nas paisagens serranas, nos pontos turísticos, há tanta beleza que não é de se estranhar que nossas terras tenham sido fonte de inspiração de consagrados poetas e escritores, como Drummond, Clarice Lispector e Machado de Assis.

Se, no passado, a tranquilidade interiorana, as caminhadas reflexivas nos caminhos floridos, o clima ameno e o silêncio eram as qualidades descritas e citadas em livros ou biografias, para encontrar os poetas da atualidade, é preciso olhar além do bucólico, dos jardins quase platônicos da cidade e procurar na agitação urbana da nova cidade.

Nas calçadas cheias de passantes, na Alberto Braune, pelas faces que passam corridas na pressa do horário, onde está o poeta? Em meio ao barulho do trânsito e dos carros de som, onde está a sua voz?

Na sala de aula, a professora de redação Rachel Ventura Rabello ensina o uso formal da língua, mas, muito além disto, Rachel é artífice de palavras, escreve poemas e tem até livro publicado. E a inspiração para transformar palavras em arte, segundo ela, não tem lugar. Diz ter escrito, certa vez, um poema inteiro dentro de um ônibus. Quem vê uma jovem professora fazer suas anotações pode não imaginar estar diante da poetisa em exercício.

Nos lugares mais inusitados, sim, às vezes até disfarçado pelo jaleco e máscara brancos, como o dentista Chaiene Barbosa dos Santos, que, embora ponha o poeta em stand by para concentrar-se no motorzinho característico, após o expediente escreve suas poesias para descansar a mente da rotina e libertar a imaginação.

“Procuro separar a profissão de Odontologia do mundo literário, como se viajasse do mundo real”, disse o escritor e poeta.

Ainda, há quem transforme a rotina e o ambiente de trabalho em nicho de poesia. Até bem pouco tempo atrás, se você adentrasse o Armazém na Avenida dos Ferroviários, seria recebido com simpatia pelo Afrânio, que, detrás do balcão, ofereceria os serviços disponíveis em seu comércio. No entanto, meia-hora de prosa e o Afra poderia deixar escapar um verso. E, com sorte, em um sábado específico, você veria o local se rearranjar e o microfone anunciar o Sarau do Armazém. Afrânio se diz forasteiro, de Itaguaí, mas garante: “o poeta nasceu em Friburgo.” Movido pela paixão, veio atrás de uma moça e, em terra friburguense, escreveu o primeiro poema. Hoje reside em São Pedro, trabalha também como paisagista e empenha-se em seu projeto de construir um centro cultural no distrito.

Cada autor vive suas histórias, sua rotina, seu método, e, por vezes, camufla-se nas atividades formais, mas uma coisa não muda: o olhar do poeta não se ausenta. A professora Rachel afirma:

“Vejo muita poesia na minha profissão, as crianças nos mostram perspectivas diferentes sobre as coisas, além de podermos apresentar poemas a elas e ver algumas delas se encantarem.”

Para fazer valer o argumento, desafio o leitor a procurar pelo poeta nas ruas da cidade, no comércio, em um vizinho, no porteiro de seu prédio, naquele lixeiro que trabalha cantarolando Fagner e em si mesmo, quem sabe. E em mim, pois, enquanto lhe escrevo, faço um tremendo esforço para não rimar as palavras e, sem mais me pôr as travas, deixo a rima e fim.

 

 

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