Os invisíveis

sexta-feira, 19 de abril de 2013
por Jornal A Voz da Serra
Os invisíveis
Os invisíveis

Carlos Emerson Junior

A cena é quase diária em um ponto conhecidíssimo do Rio: a esquina da rua Bolívar com a Avenida Copacabana, em frente ao Cine Roxy. Anoitece e o morador de rua para seu carrinho em frente a uma loja já fechada e cuidadosamente se prepara para dormir. O que chama a atenção, no entanto, são seus fiéis companheiros, um vira-latas caramelo e dois gatos, um branco e o outro cinza, todos bem cuidados, limpos e aparentemente saudáveis. Nunca faltam os potinhos com ração e água e, principalmente, o cobertor vinho, a caminha dos bichos. 
Não sei se esse senhor é um catador de lixo, um simples mendigo, um dependente de drogas ou algum idoso abandonado à própria sorte. A população de rua da capital fluminense é muito variada e já chega a quase cinco mil pessoas, segundo a própria prefeitura. Na verdade, trata-se de uma parcela da sociedade que ninguém quer ver e daí vem um de seus apelidos, “os invisíveis”.
Reflexo da exclusão social, cada vez mais as ruas são usadas como moradia, sem que o Estado, seja em que nível for, consiga ou tenha interesse em procurar uma solução para o problema.  Não fosse a atuação de algumas igrejas, organizações não governamentais e uma meia dúzia de abnegados, a situação seria de completo descalabro. Os políticos só se interessam por essa camada social nas vésperas de eleições, quando prometem medidas, em sua maioria higienizantes ou excludentes, que jamais serão algum tipo de solução.
Sejamos honestos: temos uma enorme dificuldade em lidar com essa realidade, ainda mais quando nos damos conta que a maioria dessa gente não está nas ruas por vontade própria e sim por problemas como desemprego, perda da autoestima, drogas e doenças mentais. O mínimo que poderíamos fazer é colocar o assunto em pauta, cobrando uma postura séria das autoridades e ajudando da melhor maneira que pudermos.
Moradores de rua existem em qualquer lugar. Em Paris cansei de ver filas de mendigos esperando o sopão em uma praça perto da Gare Saint Lazare. Com doze mil desassistidos, segundo estatísticas extraoficiais, também são “invisíveis” para os turistas que frequentam o circuito Champs Elysée (onde, é bom frisar, são proibidos de entrar). No entanto, basta uma caminhada casual pelos arredores para perceber que as coisas nunca são o que aparentam. Vi mendigos em Madrid, Barcelona e viciados esmolando em Amsterdam. E olha que são cidades do Primeiro Mundo...
Meus caros amigos, como pode o Rio de Janeiro, onde estão gastando bilhões de reais para realização de dois eventos internacionais, não ter nenhuma política palpável ou realista para essa questão? Será que somos um bando de incompetentes ou alienados que não consegue dar uma vida decente para apenas cinco mil moradores de rua? Um Maracanã de um bilhão de reais vale mais do que esses seres que perambulam sem futuro pelas nossas ruas e dormem embaixo de nossas marquises? 
A beleza dessa fotografia é o momento de solidariedade de um cidadão esquecido pela sociedade, cuidando de animais abandonados nas ruas. O gato aconchegado no cachorro, lembra que espécies diferentes podem conviver harmoniosamente, ao contrário do que acontece conosco, eternamente presos aos nossos preconceitos e crenças.

*****  

Fico aqui pensando que tipo de gente é essa que acha natural jogar na rua, maltratar ou matar um cachorro, um gato ou qualquer outro animal de estimação... Pois é, Albert Schwweitzer, Nobel da Paz de 1952, dizia que  “quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante.”  Compaixão talvez seja o mais nobre sentimento que um ser humano pode ter. Seja por quem for.

Carlos Emerson Junior
carlosemersonjr@gmail.com

TAGS: