O papel transformador da contação de histórias na educação infantil

Dia Internacional do Contador de Histórias foi comemorado em 20 de março. A VOZ DA SERRA entrevista a professora Selma Machado
sexta-feira, 22 de março de 2019
por Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)
A professora Selma Machado em atividade na sala de leitura  (Fotos: Acervo pessoal)
A professora Selma Machado em atividade na sala de leitura (Fotos: Acervo pessoal)
O ato de contar histórias para crianças ganhou espaço nos últimos tempos, principalmente depois que deixou de ser apenas um momento de lazer para se transformar em atividade profissional, reforçando a importância da contação de histórias na educação infantil. Hoje, o contador de histórias é uma figura indispensável neste segmento. Ao apresentar-lhes - de forma lúdica, diferente da tradicional -, os clássicos da literatura, conquista milhares de crianças e jovens. Resumindo, a prática de contação de histórias é uma poderosa arma, sob todos os aspectos, na formação do cidadão.

“Eu era uma tagarela cheia de ideias, desde que me entendo por gente. Fosse por diversão ou defesa, quando criança eu inventava, cometia até umas mentirinhas”

Selma Machado

Segundo pedagogos, além do fator interativo entre quem conta e quem ouve, narrar histórias para as crianças envolve fábulas, contos e lendas baseadas no repertório de mitos da sociedade. “Ao contar determinada história, o adulto permite que a criança inicie um processo de construção de sua identidade social e cultural. Contribui ainda para o desenvolvimento da linguagem — uma vez que amplia o universo de significados da criança — e do hábito da leitura, ambos de vital importância na educação e no desenvolvimento da criatividade e raciocínio lógico da criança”.

Essa é a missão que a professora Selma Machado, a Sesel, assumiu e à qual se dedica desde a formatura, embora contar histórias faça parte de sua natureza. “Fui uma criança inquieta, vivia inventando histórias, inclusive para me defender quando aprontava alguma... É que minha mãe, na tentativa de me controlar, ameaçava me bater, me botar de castigo. Então, para me livrar, inventava histórias”, adianta, com seu jeito maroto e largo sorriso.  

Ela conta histórias desde que começou a falar. “Eu era uma tagarela cheia de ideias, desde que me entendo por gente. Fosse por diversão ou defesa, quando criança eu inventava, cometia até umas mentirinhas. Inclusive acho que todo mentiroso é um bom contador de histórias, costuma ser muito criativo, tem muita imaginação”, descreve, rindo.

Entre outras atividades, no início da carreira, Sesel lembra da época em que trabalhou na secretaria de Saúde de Nova Iguaçu, com o grupo Doutores do Riso (ONG dedicada à humanização hospitalar), cuja missão é levar alegria e amor às pessoas em hospitais, asilos, orfanatos e outras instituições. “Foi um trabalho revelador e muito gratificante”, comenta.

Nascida no Rio, Sesel estava em Friburgo, em 2011, quando ocorreu o maior desastre climático da história do país na região serrana do estado do Rio. Sempre solidária e atenta às necessidades dos outros, ela entrou para um grupo de voluntários formado para atender a população atingida pela tragédia que matou mais de 420 pessoas e deixou outras 85 desaparecidas, no município. Impactada com tudo que viu e viveu, envolvida pelas amizades que fez, ela decidiu ficar em Friburgo. Hoje é funcionária da prefeitura, lotada na secretaria de Educação, onde faz o que melhor a define, na escola onde trabalha: contar histórias.  

É lúdico e divertido

“No 1º Encontro Internacional de Contadores de História, em Niterói (2013), surgiu a ideia de se criar naquele município, uma biblioteca móvel”, contou Sesel, apenas para informar que Friburgo já tinha, a alguns anos, uma biblioteca móvel - hoje sob a coordenação da professora Marcia Machado.

Iniciativas como essas na infraestrutura da secretaria de Educação, foram fundamentais para levá-la a aceitar o convite, em 2011, do então secretário de Educação, Marcelo Verly, para trabalhar com crianças e adolescentes da rede municipal de ensino. Desde então, ela não esconde o quanto tem sido estimulante o convívio com os alunos nas salas de leitura, superando suas expectativas em relação à meta que se propôs.  

“Tinha essa expectativa. Despertar a curiosidade natural que existe dentro de cada um de nós pelo desconhecido. Pretendo incentivá-los a criar suas histórias, fazer literatura de cordel, produzir seus próprios livros. Toda essa atividade, trabalhada de forma lúdica, acaba sendo também entretenimento. É por aí que encontramos maneiras de ajudá-los a lidar com as descobertas e transformações que ocorrem enquanto vão se tornando adultos. Ao ouvir uma história, a criança solta a imaginação e se vê nos personagens”, descreve. Uma vez por semana, Sesel também desenvolve projetos de teatro, lendas urbanas, ideias que vão surgindo. “Essas experiências, acredito, vão ficar para sempre na memória deles”, acrescentou.

A maneira como Sesel se reporta nesta entrevista é peculiar, típica de sua forte personalidade. Ela segue o formato de uma contadora de histórias, com seu jeito espontaneamente divertido, alegre e envolvente. Animada, faz uma rápida apresentação, em meio à entrevista, de um conto de autoria desconhecida, intitulado ‘Lenda do Amor’. Não deixa dúvidas quanto à sua capacidade de conquistar até o aluno mais avesso a livros e leitura. Ninguém pode negar o quanto é agradável ouvir uma história legal e divertida, ainda mais quando a pessoa que conta o faz de forma tão convincente que as palavras vão se materializando diante de nós.

Quando participou do projeto ‘Fala, autor’, para uma oficina do Sesc, com a renomada autora Maria Clara Cavalcanti, recebeu da escritora um elogio que não esquece:

“Em Friburgo, só tem uma pessoa que sabe contar minhas histórias, a Sesel Machado”. Em outra ocasião, sentiu certa dificuldade em atrair a atenção de um aluno do 9º ano. Para evitar que seu comportamento arredio contaminasse toda a turma, e conquistar sua confiança, botou o garoto do seu lado e o levou a externar o que estava sentindo. Assim conseguiu que ele se integrasse à dinâmica da leitura.

Desde o berço, por toda a vida

O mais comum é que os contadores utilizem o texto escrito como suporte. No entanto, alguns deles preferem narrar a história sem o livro, para que a imaginação flua e ele possa modificar o enredo. Mas, para chegar a esse ponto, certamente são necessários prática e treino. É como Sesel gosta de trabalhar: dando espaço para intervenção das crianças, para o improviso.

“Histórias infantis nos levam para um mundo fantasioso, no qual as crianças sentem medo, se consolam, relacionam o real com o imaginário, acreditam nas histórias porque a visão de mundo ali apresentada está de acordo com a sua. É importante que o hábito de ler seja cultivado também em casa. Desde o berço, a criança escuta a mãe cantando, ninando, contando histórias. Com isso a criança aprende a gostar do livro, também pelo afeto”.

Além da escola onde trabalha, Sesel conta histórias em outros espaços, como o EJA (Educação de Jovens e Adultos), Câmara dos Vereadores, Apae, EEM Neuza Brizola, além de eventos para crianças na secretaria de Educação.       

Uma curiosidade: a data passou a ser comemorada em 1991 na Suécia, com o objetivo de reunir os contadores de todo o mundo e promover um dia inteiro de histórias. No entanto, essa atividade é muito mais antiga do que imaginamos, e não é exagero afirmar que a evolução da humanidade está diretamente ligada à arte de contar histórias.

Foto da galeria
Sesel, como a professora é carinhosamente chamada, conta histórias desde que se entende por gente
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