O Jazz no Cinema

Gênero musical foi pano de fundo para diversas outras produções
sábado, 16 de março de 2019
por Alan Andrade (alan@avozdaserra.com.br)
O Jazz no Cinema

Em 1927, o filme “O Cantor de Jazz”, dirigido por Alan Crosland, rompeu a barreira do cinema mudo e apresentou, pela primeira vez, um diálogo audível. Foi um marco do cinema, com som gravado separadamente das imagens.

Depois deste filme, o jazz foi pano de fundo para diversos outros, como Bird, de Clint Eastwood, e Round Midnight (Por volta da meia-noite), de Bertrand Tavernier.

Para aprofundarmos mais sobre este tema, convidamos o crítico de cinema Rodrigo Fonseca, com quem tive a honra de estudar na Oficina de Formação de Autores da TV Globo entre 2013 e 2014, que divide conosco um pouco de seu vasto conhecimento sobre a Sétima Arte.

De que maneira o Jazz contribuiu para a história do cinema?

Rodrigo Fonseca: Eu acho que o que o Jazz muda é que ele introduz silenciosamente nos ambientes burgueses respeitáveis do cinema uma raiz negra, que é fundamental pra se entender a multiplicidade de uma cultura que mistura o “correr atrás” como uma forma de se reverenciar Deus: “Eu trabalho, então Deus vai me dar, e quanto mais eu trabalhar, mais eu terei”, que é o pé da cultura americana, com um sentimento de expansão, um sentimento de desbravamento que esbarra na diáspora africana. Eu acho que isso está incluso no Jazz. E no lamento e no festejo que o jazz, seja romântico, seja mais dançante, traz.

Qual é o ponto alto do Jazz no cinema americano?

É quando o Jazz entra no ‘cinema autoral’. Eu posso te dar um marco (a gente tá falando de 1965): Mickey One, do Arthur Penn, estrelado pelo Warren Beatty. O filme mais ‘nouvelle-vague’ do cinema americano. Foi um fracasso à época, porque as pessoas não entenderam um filme de Godard, feito nos Estados Unidos por um diretor americano, influenciado pela nova onda francesa. Este filme dá ao Jazz um peso estético fundamental de linguagem.

Há críticas em relação à veracidade de alguns elementos da vida de Glenn Miller, retratada no filme “Música e Lágrimas”, de 1954. Até que ponto um filme “biográfico” deve se ater fielmente à história diante da construção de seu roteiro?

O filme do Glenn Miller é um filme belíssimo. Os filmes biográficos existem para cometerem erros históricos. Ao cometerem esses erros, eles abrem precedentes pra inflamar a emotividade da plateia, como se viu, por exemplo, no Bohemian Rhapsody, que eu considero um dos maiores filmes dos últimos anos, sem dúvida nenhuma, como um fenômeno popular. Não vejo nenhum problema nas liberdades poéticas que este filme [Música e Lágrimas] toma, e considero este filme um dos documentos essenciais à história do Jazz de orquestra dentro do cinema.

Dexter Gordon, um dos pioneiros do bebop, foi indicado ao Oscar de Melhor Ator pela sua atuação em Round Midnight, de 1988. Na sua opinião, a forte relação com a música tem necessariamente como resultado uma melhor performance em um filme?

Eu acho que a importância do Jazz – em relação ao cantor de Jazz – é mínima, porque aquela é uma história sobre um cantor ligado a esse movimento musical, mas poderia ser sobre qualquer outra música. A música ali é muito coadjuvante, não é o foco. O canto dele e a figura dele são protagonistas.

Para finalizar, quais autores relacionados à história do Jazz – ou que se utilizam deste estilo em suas trilhas sonoras – você recomenda aos leitores do Jornal A Voz da Serra?

O Jazz é redesenhado como um objeto de fetiche, um objeto de prazer e um projeto de identificação de Nação, no caso dos Estados Unidos, com dois grandes autores: Woody Allen e Clint Eastwood. A maneira como esses dois utilizaram o Jazz subverte todas as convenções anteriores da utilização de uma música orquestrada, melódica, com ou sem letra, já feitas pelo cinema. Não só o Jazz, como o Blues, que alcança com, por exemplo, o Spike Lee, uma dimensão gloriosa, também em vários filmes. Mas acho que o grande destaque pro Jazz está em três grandes cineastas: Bertrand Tavernier (Round Midnight), Clint Eastwood – já como diretor no seu primeiro filme, “Perversa Paixão”, de 1971, e Woody Allen, já do início dos anos 70, mas, sobretudo, no desenrolar dos anos 80, quando ele também vai se tornar um músico de Jazz mais efetivo.

 

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