O bem que a música faz

A musicoterapia é um híbrido entre arte e saúde e serve para promover a comunicação, expressão e aprendizado
sábado, 14 de setembro de 2019
por Ana Borges (ana.borges@avozdaserra.com.br)
O bem que a música faz
“Há músicas que contêm memórias de momentos vividos. Trazem-nos de volta um passado. Lembramo-nos de lugares, objetos, rostos, gestos, sentimentos. (…) Mas há músicas que nos fazem retornar a um passado que nunca aconteceu”, escreveu o psicanalista e escritor Rubem Alves (1933-2014), em seu livro “Na morada das palavras”. 

“Eu penso em nós como sendo uma espécie musical”

Oliver Sacks

Inclusive, a música nos remete a uma conhecida expressão, usada quando queremos nos referir a uma boa notícia, a uma sensação prazerosa: “Isso soa como música para os meus ouvidos”. 

Tal é o poder e a magia da música. Como se fosse pouco, ao se descobrir seus benefícios para o tratamento de saúde, surgiu a musicoterapia, que vem a ser o uso da música num contexto de tratamento, reabilitação ou prevenção de problemas de saúde e para promover o bem-estar. Trata-se de um processo sistemático, que decorre ao longo do tempo e é baseado em evidências científicas, conduzido por um terapeuta a uma pessoa ou a um grupo. 

Através de sons, cantos e instrumentos musicais, o tratamento proporciona o equilíbrio do indivíduo em várias dimensões – psicológica, social e até fisíca. Também atua na recuperação de pessoas que apresentam distúrbios de fala e audição, bem como problemas neurológicos, deficiências ou doenças mentais. 

Abrir canais de comunicação

E como funciona e quais são os benefícios da musicoterapia? O terapeuta Alexandre Faria explica, no blog Eu sem Fronteiras, que a nomenclatura já é autoexplicativa, isto é, o musicoterapeuta é terapeuta e não professor de música. “Ele não tem como objetivo montar bandas ou corais com os pacientes/clientes, a menos que este formato faça parte do processo terapêutico”.

Segundo ele, esse método utiliza a música e/ou seus elementos (som, melodia, harmonia e ritmo) como ferramentas de trabalho dentro do processo terapêutico. “De acordo com Benenzon (autor de “Teoria da musicoterapia: contribuição ao conhecimento do contexto não-verbal”, 1988), a musicoterapia tem como objetivo abrir canais de comunicação no ser humano, a fim de estabelecer efeitos terapêuticos, psicoprofiláticos e reabilitação no paciente e na sociedade. Neste momento o sujeito passa a ser um todo e não partes, um olhar para o biopsicossocial”.

Resumindo, podemos definir a musicoterapia como um híbrido entre arte e saúde que serve para promover a comunicação, expressão e aprendizado. Pode ser utilizado em qualquer área que haja demanda, seja promovendo saúde, reabilitando ou atuando como medida de prevenção ou simplesmente para melhorar a qualidade de vida.

E também pode ser aplicada de forma comunitária, ou social, visando fortalecer grupos e possibilitar o engajamento e organização necessários para que os indivíduos tenham plenas capacidades de enfrentar os desafios comuns da vida em sociedade.

Segundo a Federação Mundial de Musicoterapia, “a musicoterapia objetiva desenvolver potenciais e restabelecer as funções do indivíduo para que ele/ela possa alcançar uma melhor integração intra e interpessoal e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida”.

A música e o cérebro

A música evoca emoções intensas e age no cérebro ativando diversas regiões. Um estudo publicado em 2014 na revista PLoS One analisou como o cérebro funciona quando sob influência de música.

Nesse estudo, os pesquisadores colocaram músicos de jazz para tocar seus instrumentos enquanto faziam uma ressonância magnética do cérebro. Essa prática serviu para averiguar quais partes do cérebro se acendiam quando os músicos estavam tocando.

Além de se constatar que todas aquelas regiões foram de fato ativadas, os pesquisadores pediram que os músicos improvisassem em conjunto. Isso possibilitou a constatação de que o cérebro, quando estamos improvisando uma música em conjunto, funciona de uma maneira muito similar a quando estamos conversando oralmente com outra pessoa.

Essa descoberta serve de respaldo para musicoterapia e seus benefícios para processos comunicativos, visto que as mesmas áreas de comunicação se acendem tanto quando estamos conversando como quando estamos tocando algum instrumento com outra pessoa.

Além disso, a música ativa diversas regiões do cérebro responsáveis pela memória, como o hipocampo. Isso faz com que ela possa ser utilizada de forma terapêutica em pacientes que sofrem com doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.

É bastante difícil descrever o que acontece em uma sessão de musicoterapia, pois existem diversas abordagens de tratamento. Ele pode ser realizado com o paciente passivo, somente escutando o musicoterapeuta tocando, ou ativo, ou seja, participando e fazendo música com o terapeuta.

Essas sessões de terapia são muito úteis para ajudar no desenvolvimento de habilidades comunicativas e de autoexpressão. Também é possível da musicoterapia ser utilizada em grupos, em que todos os membros tocam algum instrumento em conjunto e participam da execução de uma música. Segundo os estudos de caso, as sessões ajudam os pacientes a se soltarem mais e expressarem as próprias emoções com mais facilidade. (Fonte: blog Minuto Saudável).

Alucinações musicais, relatos sobre a música e o cérebro 

“A música é uma das experiências humanas mais assombrosas e inesquecíveis, e no livro “Alucinações musicais, relatos sobre a música e o cérebro”, o neurologista e escritor Oliver Sacks nos faz entender por quê. A exemplo de seus livros anteriores, entre os quais se destacam “Tempo de despertar” e “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu”, Sacks nos oferece histórias musicais cheias de drama e compaixão humana envolvendo pessoas comuns ou portadoras de distúrbios neuroperceptivos.

O que se passa com o cérebro humano ao fazer ou ouvir música? Onde exatamente reside o enorme poder, muitas vezes indomável, que a música exerce sobre nós? Essas são algumas das questões que Oliver Sacks explora, em seu estilo cativante, nesta admirável coletânea de casos, mostrando, por exemplo, como a música pode nos induzir a estados emocionais que de outra maneira seriam ignorados por nossa mente ou ainda evocar memórias supostamente perdidas nos meandros do cérebro.

É impossível não se impressionar com a história do médico que experimenta, depois de atingido por um raio, uma irresistível compulsão por música de piano, a ponto de se tornar ele mesmo um pianista. Ou com os casos de "amusia", uma condição clínica que faz Mozart soar como uma trombada automobilística aos ouvidos da pessoa afetada. 

Sem contar as histórias de gente afetada dia e noite por alucinações musicais incessantes. O estudo de casos surpreendentes de pessoas com distúrbios neurológicos ou perceptivos ligados à música reitera a crença de Sacks em uma medicina que humaniza o paciente e tenta, junto com a abordagem clínica, integrar as dimensões psicológica, moral e espiritual tanto das afecções quanto de seu tratamento.”

Sobre o autor

Oliver Sacks (1933-2015) foi um neurologista britânico, autor de diversos best sellers e professor de neurologia clínica na Columbia University. Com a publicação de “Enxaqueca”, em 1970, iniciou uma brilhante carreira de escritor. As histórias de seus pacientes lhe serviram de inspiração para escrever a maioria dos seus livros, em grande parte relatos clínicos da vida de seus pacientes. Além disso, teve um papel importantíssimo na criação e fundamentação científica do Institute for Music and Neurologic Function (Instituto para Música e Funções Neurológicas). Seu livro “Tempo de Despertar” inspirou o filme homônimo com Robert De Niro e Robin Williams. (Fonte: editora Companhia das Letras).

 

  • Oliver Sacks

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