Na morte se encontra o amor que era para estar presente em vida

Artigo de instrutor de yoga sobre a finitude da vida
sábado, 02 de novembro de 2019
por Igor Fonseca*
Igor Fonseca (Arquivo AVS)
Igor Fonseca (Arquivo AVS)

Finitude é a nossa única certeza e ao mesmo tempo nossa maior negação. Tudo acaba e tudo se transforma, e o que é uma percepção corriqueira para uma mente lúcida é o infortúnio para um coração que sente. Um medo tão primitivo pode ser um dos maiores impedimentos de uma vida plena, já que ele pode se tornar a base de apegos e aversões que atrapalham qualquer jornada espiritual. A verdade é que a gente não aceita o que não é desejável e não se conforma em perder aquilo que gosta, gerando muito sofrimento e abrindo brecha para a manifestação de muita ignorância, em uma espécie de alienação espiritual. 

Nada é mais desafiante do que a morte nesse sentido. Podemos dizer que isso sustenta até mesmo nosso comportamento religioso, como Saramago de forma humorada descreveu em seu livro intermitências da morte, em que uma cidade entra em colapso quando a morte resolve tirar férias -  “As igrejas se viram ameaçadas, pois se as pessoas não morrem não ressuscitam e, assim, a instituição passa a apresentar uma sustentação ilógica: “[...] as religiões, todas elas, por mais voltas que lhe dermos, não têm outra justificação para existir que não seja a morte”. 

O exercício de aceitar a fragilidade da vida humana nunca é demais, pois essa negação faz com que nossa fragilidade emocional seja esmagada quando a morte surge intempestivamente.  A morte, objeto de horror, de inconformação e de negação por parte de muitas pessoas, talvez seja a maior lembrança de como o tempo é curto para se sustentar mágoas ou sustentar uma série de autoprivações em nome da vaidade. 

Apesar de preferirmos os momentos alegres de nossa vida, cada emoção tem a sua importância e é necessário saber usá-las da melhor maneira diante dos desafios, e a tristeza do luto impulsiona uma série de percepções que inclusive podem dar sentido à vida e preservar a saúde das relações sociais. Negar a morte é negar que nosso tempo aqui tem um prazo, e dar sentindo a vida é saber o que fazer com esse prazo.

Entender que a vida tem um determinado tempo e que não depende de nenhuma outra pessoa fazer dela a melhor experiência possível para o seu próprio desenvolvimento, é motivo suficiente para se fazer melhores escolhas em todos os sentidos. Talvez a primeira coisa que a gente perceba na proximidade da finitude do outro é a falta que aquela pessoa vai fazer, o quanto de experiências poderiam ter sido compartilhadas e a verdade sobre a nossa própria morte. 

A dor é inevitável, mas saber o que fazer com ela é sinal de inteligência. Para que a dor traga bons ensinamentos não se deve somente passar por ela, mas quebrar os comportamentos reativos diante do indesejável e começar a agir de um modo novo, que te prepara para lidar com todas essas dualidades do mundo. 

Na morte se encontra o amor que era para estar presente em vida, e isso não te prepara somente para outras mortes, e sim, para a relação com o tanto de vida que te cerca de um modo que reajusta as nossas prioridades. Óbvio que tudo isso é indesejável, não tem como não ser, mas daí surge o terreno fértil para se discriminar o que de fato é relevante: aquilo que falta nas relações não pode ser mais significativo do que as potências daqueles laços. 

E compreender que certa porção de sofrimento é inerente à nossa vida pode estimular a nossa compaixão com o outro, por entender que esses sentimentos como medo, apego, aversão, traumas, carências, fragilidade de autoestima, expectativas exageradas sobre o futuro e falta de vigília sobre as emoções são aspectos humanos, compartilhados por todos e, por isso, a compaixão não surge da tolerância com a diferença e sim da extrema semelhança entre todos nós.

Sêneca dizia que erramos quando achamos que a morte é um acontecimento futuro, visto que cada hora do nosso passado pertence à morte. Da mesma forma podemos pensar que cada novo dia é a chance do renascimento. Toda aula de yoga termina em uma postura chamada de savasana, a postura do cadáver, que consiste em deitar do modo mais relaxante possível no tapete para contemplar os efeitos de uma prática de autoconhecimento, meditação e restauração. 

A morte simbólica representada por essa posição te mostra a capacidade que a gente tem de velar e se despedir de antigos hábitos, preconceitos, padrões emocionais que não precisam mais existir e que abrem espaço para um renascimento simbólico, de que a felicidade já está disponível para uma mente em vigília, que exercita o orai e vigiai. Esperar pela morte não é viver, e por mais que uma vida seja curta, ela não precisa ser pequena.

 

* Igor Fonseca é instrutor do Samsara Estúdio de Yoga

 

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