Medo

sexta-feira, 07 de dezembro de 2012
por Jornal A Voz da Serra
Medo
Medo

Carlos Emerson Junior

Quando o escritor moçambicano Mia Couto, um dos mais importantes nomes da moderna literatura na língua portuguesa, leu seu texto “Murar o Medo”, nas Conferências do Estoril, realizadas em Portugal, no ano passado, tocou na maior ferida da humanidade. Temos medo desde as nossas origens, quando sem luz procuramos abrigo dentro de cavernas contra inimigos reais e imaginários.
A humanidade evoluiu, foi ao espaço, aumentou seu conhecimento e o medo continua lá, sempre à nossa espera. O poder está sempre com quem tem a capacidade de provocar o medo, seja ele físico, moral, espiritual ou psicológico. O medo vence porque ele não tem medo. O medo se basta, é intangível e presumo, infinito. Talvez seja essa a nossa sina: para viver, precisamos temer. 

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Mia Couto afirma que “a nossa indignação, porém, é bem menor que o medo! Sem darmos conta fomos convertidos em soldados de um exército sem nome e, como militares sem farda, deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir razões. As questões de ética são esquecidas, porque está provada a barbaridade dos outros e, porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética nem de legalidade. É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha, a Grande Muralha, que foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora do quanto o medo nos pode aprisionar. Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos, mas não há hoje no mundo um muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente.”
O vídeo com a palestra na íntegra pode e deve ser acessado no endereço http://youtu.be/jACccaTogxE. Não deixe de assistir.

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E já que estamos falando em Mia Couto, quando é que a Companhia das Letras vai lançar no Brasil os seus livros de poesia “Raiz de Orvalho e outros poemas”, “Idades, Cidades, Divindades” e Tradutor de Chuvas”? Uma petição pública nesse sentido está correndo a rede e quem quiser assinar é só acessar o www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=P2012N31652. Aliás, como sou um chato mesmo, não se esqueçam da edição eletrônica, ok?

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Existe uma saída contra o medo? Segundo José Saramago, outro grande escritor português, vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 1998, em um artigo publicado na Folha de São Paulo, em 1991, é possível, mas só depende de nós mesmos: basta dizer não!
“A palavra de que eu gosto mais é não. Chega sempre um momento na nossa vida em que é necessário dizer não. O não é a única coisa efetivamente transformadora, que nega o status quo. Aquilo que é tende sempre a instalar-se, a beneficiar injustamente de um estatuto de autoridade. É o momento em que é necessário dizer não. A fatalidade do não – ou a nossa própria fatalidade – é que não há nenhum não que não se converta em sim. Ele é absorvido e temos que viver mais um tempo com o sim.” 
carlosmersonjr@gmail.com

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