Logo eu, um gago

Repórter de A VOZ DA SERRA conta como é lidar com o distúrbio no dia a dia
sábado, 20 de outubro de 2018
por Alerrandre Barros (alerrandre@avozdaserra.com.br)
Alerrandre e Heitor (Arquivo pessoal)
Alerrandre e Heitor (Arquivo pessoal)

Heitor, meu sobrinho de 3 anos, começou a gaguejar faz poucos meses. Quando diz frases simples, alonga algumas palavras. No último fim de semana, tentou contar para a avó que viu uma cobra morta na rua, mas não conseguiu organizar o raciocínio em frases com sentido, por conta da gagueira. Foi interrompido por mim, que não tive paciência de esperar o menino concluir o que queria contar. Logo eu, um gago.

Interromper um gago para ajudá-lo a falar é constrangedor, sobretudo para o gago. Expõe ainda mais a dificuldade que ele tem para articular a fala que deveria fluir naturalmente. Não percebi se o Heitor ficou chateado comigo quando o interrompi. Acho que não. Ele pegou o patinete e voltou a correr pelo quintal, depois que a avó entendeu, com minha interferência, a história da cobra atropelada.

Há um ano, o pequeno me chamava de “Nhanhe”. Hoje, “Tirrande”, uma versão em três sílabas para “tio Alerrandre”, que tem o dobro de sílabas. Como está aprendendo a falar, não tenho certeza se ele é mesmo gago ou se está me imitando. Tenho uma prima, a Kamila, que, de tanto me imitar, na infância, ficou gaga alguns meses, mas voltou a falar sem travas na língua depois que levou um puxão de orelha da mãe.

Lá em casa, os gagos estão espalhados no lado do meu pai e da minha mãe. Todos são homens: avô, tio, primo e eu temos problemas com a fala. De todos, eu fui o primeiro a procurar tratamento com um fonoaudiólogo. Ou melhor, fui levado pela minha mãe. Antes disso, fui alvo de simpatias que não deram certo. Minha mãe, cristã, detestava esses experimentos realizados por familiares e decidiu me encaminhar a um profissional.

Na Pestalozzi, em Cantagalo, onde eu morava, tratei a gagueira por dois anos. Lembro da caderneta repleta de exercícios motores que eu, aos 11 anos, era obrigado pela minha mãe a fazer todos os dias. A fluência melhorou, inclusive, a pronúncia de palavras iniciadas por “f” e “s”. Eu falava de modo incorreto, com a ponta da língua entre os dentes, em vez de atrás dos dentes incisivos.

 Aos 13 anos, adolescente, abandonei o tratamento. Mas acabei voltando à fonoaudióloga 16 anos depois, já em Nova Friburgo, a pedido da minha dentista. Minha língua estava atrapalhando o tratamento ortodôntico. Tive de fazer os conhecidos exercícios para posicionar corretamente a língua. Aproveitei para tratar outras falhas de pronúncia que eu nem sabia possuir.

Aprendi a lidar com a gagueira. Na verdade, acho que nunca tive problemas de relacionamento por causa dela, apesar de alguns constrangimentos. Fui alvo de bullying na escola, mas pouco, nada traumático. Hoje, busco sincronizar a respiração com a fala. Em dias de tensão e estresse, é mais difícil falar sem tropeços. Continuo gago, mas falo em público sem grandes dificuldades e me tornei jornalista.

Sobre o Heitor, já pedi aos pais para levarem o menino ao fonoaudiólogo.

Com a palavra, o fonoaudólogo Luiz Felipe Bastos

“Inicialmente, é necessário explicar um pouco sobre a fonoaudiologia. É muito comum nós, profissionais do ramo, ouvirmos queixas sobre gagueira e distúrbios de fala de modo geral, mas a fonoaudiologia aborda diferentes aspectos da comunicação humana e se subdivide em 11 áreas de atuação: audiologia, linguagem, voz, motricidade orofacial, disfagia, fonoaudiologia educacional, fonoaudiologia do trabalho, gerontologia, saúde coletiva, fonoaudiologia neurofuncional e neuropsicologia.

Atualmente, tenho foco na área de Audiologia e estou cursando uma pós-graduação no tema para poder me especializar ainda mais. No meu dia a dia, é comum o público geral não saber que o fonoaudiólogo lida também com audição. Parte do meu trabalho, por exemplo, é com aparelhos auditivos.

O fonoaudiólogo é o profissional que faz a indicação do aparelho auditivo adequado a cada tipo de perda auditiva e também a programação do mesmo, além do acompanhamento. Todo o processo, desde a descoberta da perda auditiva – através da audiometria e outros exames auditivos -, até a indicação, adaptação e, por fim, ajustes e acompanhamento do aparelho e do paciente são de responsabilidade do fonoaudiólogo audiologista.

Além disso, também atuo com audiologia ocupacional, realizando exames de audiometria em funcionários de empresas, monitorando sua saúde auditiva e trabalhando na prevenção e auxílio na identificação precoce de uma possível Painpse (Perda Auditiva Induzida por Níveis de Pressão Sonora Elevados). Nem todo fonoaudiólogo vive de distúrbio de fala e é importante divulgar para a população as outras funções desse profissional.”

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Causas, sintomas, diagnósticos e tratamentos da gagueira

Cada som da fala tem um tempo usual para sua emissão. Esse tempo depende da região onde a fala é produzida. No caso da gagueira, alguns sons demoram mais para serem ditos e esse tempo maior interfere na fluência, configurando um distúrbio na ‘temporalização’ - que significa tempo de execução dos sons, sílabas, palavras e frases, que afeta a fluência e a comunicação.

Aproximadamente 5% da população mundial é afetada pela gagueira durante o desenvolvimento da linguagem e poderá se tornar crônica dependendo de inúmeros fatores que possam estar relacionados. Cerca de 1% da população mundial gagueja cronicamente. Isso significa cerca de 70 milhões de pessoas no mundo, sendo que destes, 2 milhões vivem no Brasil.

Atualmente, a gagueira é vista pela ciência como um distúrbio causado por diversos fatores, entre eles, a genética, as condições médicas e fator social. No que diz respeito ao fator psicológico, está comprovado que problemas emocionais não causam gagueira: podem ser considerados agravantes, mas não são cientificamente considerados como causadores do distúrbio. Crianças que apresentam alguns dos fatores de risco para a gagueira mas que ainda não se manifestam na fala, ou seja, já têm predisposição para tal, ao passarem por alguma situação de maior impacto emocional, poderão começar a gaguejar. Mas tem que haver a predisposição.

Entre alguns fatores que aumentam os riscos das crianças desenvolverem a gagueira estão histórico familiar, atraso no desenvolvimento infantil e ser do gênero masculino. Ao redor de 5% das crianças poderão gaguejar até a adolescência: metade meninos, metade meninas. No entanto, a taxa de remissão espontânea nas meninas é maior. Portanto, meninos são mais sujeitos a desenvolverem a gagueira crônica, principalmente se continuar por oito semanas ou mais. Importante ressaltar que nenhum desses fatores, sem a pré-disposição orgânica levará a pessoa a desenvolver a gagueira.

  • Sintomas - São vários os sintomas da gagueira sendo o mais perceptível a repetição de sons e sílabas. Por exemplo: “a-a-bra a porta” e a troca de palavras durante a fala; tensão para produzir uma palavra; ansiedade devido às sucessivas experiências com a fala gaguejada; capacidade limitada para se comunicar; e movimentos motores involuntários como tensões faciais, tremores de lábios, piscar de olhos etc.
  • Ajuda - Caso a gagueira persista por mais de oito semanas, é necessário procurar um fonoaudiólogo especializado em fluência, principalmente se ocorre acompanhada de outros problemas de fala e linguagem, gerando problemas emocionais. A chance de alcançar a remissão espontaneamente pode chegar a 80%. Uma criança que gagueja não necessariamente será um adulto gago.
  • Diagnóstico - Na lista médica de diagnósticos da Saúde, a gagueira consta no Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-V) como os de Fluência ou de Comunicação. Ainda não existe um padrão mundialmente utilizado para o diagnóstico, mas, normalmente ele é realizado por meio da contagem do número de rupturas na fala em um intervalo de tempo, entre outros meios. Apesar de os diagnósticos se iniciarem imediatamente após o padrão de oito semanas de dificuldades observadas, muitos pais procuram um especialista antes desse prazo, antecipando informações preciosas para a observação da evolução nas semanas seguintes.
  • Tratamento - O tipo de tratamento deverá ser compatível com a idade da pessoa e com os objetivos de comunicação de cada um, especialmente se for adulta. Os psicólogos não estão instrumentalizados para o tratamento, uma vez que o distúrbio não é emocional ou afetivo e sim, neuroquímico. O DSM V não classifica gagueira como um problema emocional, mas um profissional da área pode colaborar no tratamento da gagueira em relação às dificuldades de autoestima ou autoimagem.
  • Prevenção e cura - Não há como prevenir. Contudo é possível evitar a evolução do quadro, alcançar a remissão, com a detecção rápida e a intervenção precoce. A gagueira pode ter cura desde que o tratamento seja iniciado o mais próximo possível do início das manifestações, com 98% a 100% de chances de superar o problema. Quanto menos demorar uma intervenção adequada mais chances de cura haverá.

 

 

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