Faca de dois gumes

quinta-feira, 17 de novembro de 2016
por Jornal A Voz da Serra

ESTÁ NA MESA de trabalho do governador Pezão, para sanção, projeto de lei do deputado Wanderson Nogueira (Psol), aprovado pela Alerj, limitando o gasto de publicidade em um centésimo do orçamento aprovado para 2017, o equivalente a R$ 6 milhões da receita prevista de R$ 60 bilhões. Entre 2010 e 2016 o governo estadual gastou com a rubrica “publicidade e propaganda” cerca de R$ 900 milhões. Uma exorbitância.

VIAJANDO NA CONTRAMÃO da crise econômica nacional, o Portal Contas Abertas revela que os gastos do governo federal com publicidade saltaram de R$ 366,5 milhões em 2015 para R$ 571,9 milhões neste ano, um aumento de 56% de um ano para o outro. O mesmo governo que não tem condições de construir hospitais para atender a demanda da população por saúde de qualidade e que está congelando os investimentos em áreas fundamentais como a educação, a segurança pública e a infraestrutura, torrou mais de R$ 571 milhões com propaganda somente neste ano. 

A PERGUNTA que não quer calar é uma só: o que o governo federal tem de tão importante para mostrar a ponto de justificar gastos de mais de R$ 500 milhões com publicidade oficial? Todos conhecem as limitações tanto da presidente deposta quanto do seu substituto, de forma que torrar dinheiro público com publicidade em nada vai mudar a imagem do governo.

O FATO É QUE entre janeiro e setembro, período que engloba o final da administração da petista Dilma Rousseff, o governo interino e o primeiro mês de governo efetivo do peemedebista Michel Temer, os gastos com publicidade de utilidade pública, institucional, legal e mercadológica dispararam.

NA TENTATIVA de se salvar do impeachment, a então presidente Dilma Rousseff abriu os cofres federais em abril com gastos de R$ 79,9 milhões com mídia, valor 98% maior que o investido no mesmo mês do ano passado. Com a presidente afastada em julho, o interino Michel Temer fez a festa de amigos do poder com gastos de R$ 82,1 milhões com publicidade, valor 50% superior ao desembolsado em julho do ano passado. Detalhe: nos três meses de governo interino, houve aumento de 46% nos gastos com publicidade oficial do governo federal na comparação com o mesmo período do ano passado. 

EMBORA A PROPOSTA do deputado Wanderson Nogueira não tenha a magnitude dos números do governo federal, é de se louvar a sua intenção, principalmente considerando o estado caótico da economia fluminense. Seu projeto, se fosse copiado por outras assembleias legislativas do país, certamente contribuiria para reduzir o déficit social da população tão carente de serviços essenciais.

NO ESTADO ATUAL do Brasil, a propaganda oficial é uma arma poderosa que pode iludir a população. Não devemos, pois, nos enganar. É como diz o filósofo, comentarista e ativista político Noam Chomsky, “a propaganda representa para a democracia aquilo que o cassetete significa para o estado totalitário”. 

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