Escolha de Halle Bailey para interpretar Ariel, em A Pequena Sereia, divide opiniões

Quem discorda, quer fidelidade à personagem, quem concorda quer aproveitar o momento para ampliar o debate sobre representatividade da cultura afro
sábado, 06 de julho de 2019
por Guilherme Alt (guilherme@avozdaserra.com.br)
Escolha de Halle Bailey para interpretar Ariel, em A Pequena Sereia, divide opiniões

Após o anúncio de que a cantora norte-americana Halle Bailey, de 19 anos, interpretará a personagem dos desenhos animados da Disney, Ariel, do filme A Pequena Sereia, milhares de pessoas foram às redes sociais manifestar opinião apoiando ou discordando da escolha.

O live action será dirigido por Rob Marshal, que foi só elogios a cantora. "Depois de uma longa busca, ficou muito claro que Halle tem aquela rara combinação de espírito, coração, juventude, inocência e substância - além de uma voz gloriosa. Todas qualidades intrínsecas necessárias para atuar neste papel icônico", disse Marshall sobre escolha de Bailey para viver Ariel, uma sereia cuja característica marcante é sua bela voz.

A discussão em torno da escolha coloca lado a lado opiniões distintas. Para quem desaprova, o argumento usado na maior parte das postagens é o de que a artista, negra, não possui as características da personagem – uma sereia branca, de cabelos vermelhos –, não sendo, portanto, fiel à proposta original.

“Não curti. Concordo que, principalmente no universo infantil, a representatividade negra é importantíssima e ainda muito baixa. Mas achei que eles lidaram com o tema de forma preguiçosa. Seria muito melhor criarem novas histórias com princesas negras (como é a Princesa Tiana) e fazerem filmes com atrizes fiéis às personagens”, dizia uma postagem.

Marcela Leite também discorda da nomeação da atriz para o papel e defendeu que as características originais sejam mantidas. “Queria fidelidade ao desenho original. Já tem muitas princesas representantes negras que arrasam, mas a Ariel queria fidelidade. É justo”.

No contraponto das opiniões acima, Maiara Felício, que está à frente do Império das Negas – um movimento sobre empoderamento negro e cultura afro brasileira e POP África, explica como Halle Bailey torna-se um símbolo de representatividade negra e que a insatisfação com a escolha da atriz é por falta de empatia.

“Esses comentários reivindicando uma atriz branca a gente sabe que é racismo. A história vem sendo contada a todo o tempo de um lugar eurocêntrico. Chamamos isso de branquitude e vale ressaltar que essa branquitude não está para os brancos como negritude está para negros, assim como o machismo não está para homens como feminismo está para mulheres”, disse Maiara, esclarecendo que a branquitude é o movimento de ideologia eurocêntrica que se fundamenta contra as iniciativas de identidade raciais diversas. “Embranqueceram Jesus e cristianizaram toda a história de forma que a fé fosse tão dominadora quanto às armas. Embranqueceram o Egito, quebraram o nariz das esfinges que apresentavam traços negróides (nariz largos) e nós não vemos tamanha manifestação, mas uma sereia ser representada por uma pessoa negra que é o problema”, acrescentou.

Black Money

Ainda segundo Maiara, o momento é de militância e a escolha de Halle Bailey para o papel de uma das principais princesas da Disney é, sem dúvida, uma grande vitória para a comunidade negra, abrindo pauta para outras discussões. Ela explica que, com a ascensão das pautas raciais, o mercado publicitário notou o alto potencial do consumidor negro que estava ali a todo tempo sem ser explorado. 

“Temos aí uma nova problemática em vista. Neste lugar, com o debate à tona, o preto percebe que tem que valorizar a sua própria cultura, a sua própria cor e principalmente a sua identidade racial. E isso vem também através do consumo, de forma financeira, o que chamamos de Black Money – ou seja, dar prioridade ao que nos representa. E a mídia faz o que? Começa a investir em camuflagem. Coloca um ator principal negro e bate na tecla da representatividade, mas todo o corpo desenvolvedor do projeto continua sendo realizado por uma maioria esmagadora de pessoas brancas e estamos falando de uma realidade pós-escravocrata, são apenas 130 anos da liberdade dos pretos”, finalizou.

 

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