Equacionar as dívidas e ser criativo: o que o Frizão espera de 2019

Sem competições até maio, Friburguense ainda corre para organizar as finanças
quinta-feira, 31 de janeiro de 2019
por Vinicius Gastin
Revelações, à exemplo de Dedé, descoberto em um teste, ficam desprotegidas com a falta de calendário
Revelações, à exemplo de Dedé, descoberto em um teste, ficam desprotegidas com a falta de calendário

O ano e a temporada de 2018 terminaram para o Friburguense dentro de campo, mas fora dele, a direção de futebol ainda trava uma longa e árdua batalha para fechar as contas e organizar o clube. Os campeonatos terminam e as dívidas ficam. Sem apoio ou receitas antes e durante as competições, a busca por recursos se torna quase inviável com a paralisação da rotina profissional. Desta forma, qualquer planejamento para o ano de 2019 fica comprometida e incerta, apesar da manutenção de algumas outras atividades.

“O Friburguense não para. É também escolinha e divisões de base com a garotada. A preocupação de se manter o profissional o ano todo é justamente para fazer o que é obrigação dos clubes. Não só na formação de atletas, mas também na questão social. Temos incentivos fiscais para fazer esse trabalho, e a maioria não faz. Sequer disputa divisões inferiores para investir no profissional. Mas essa não é a nossa característica. Então, na medida do possível, vamos manter isso e dar uma equilibrada no que ficou para trás. É preciso ter muita paciência, um pouco mais de coragem para determinadas atitudes. Mas o profissional, por falta de calendário, para. A nossa história para 2019 é incerta, mas para ano passado também era, e conseguimos montar uma boa equipe. Não podemos perder as esperanças, com criatividade para fazer melhor. Mas, é um momento de incerteza, sim. Tudo mudou muito”, explica o gerente de futebol José Siqueira, o Siqueirinha.

As dívidas do Friburguense, que existiam antes mesmo do início da Série B1, aumentaram com as despesas de folha de pagamento, alimentação de atletas, viagens, custos das partidas e demais atividades de rotina para manter um clube de futebol ativo. Os valores exatos não foram revelados, mas pela explicação do dirigente é possível ter uma ideia do tamanho do desafio.

“Não posso ir para as ruas brigar pelo projeto de 2019 se eu não terminei o ano passado. Estamos tentando apagar os incêndios que ficaram, primeiramente. Pra se ter uma ideia, talvez nem os 500 mil reais que viriam por uma participação em Copa do Brasil resolveriam tudo, para cobrir o que gastamos até chegar à Copa Rio.”

Nova realidade

Nos últimos anos, o futebol brasileiro passou por uma série de transformações, desde as legislações que regem o esporte, passando pelo regulamento das competições e interferindo diretamente no planejamento dos clubes, especialmente os de pequeno e médio porte. A redução dos estaduais e a restrição do acesso às competições nacionais privam a grande maioria dos clubes de contar com um calendário amplo, preenchendo uma temporada completa de competições. O Friburguense, por exemplo, mantém quatro a cinco meses de atividade, contando preparação e disputa dos campeonatos, que atualmente se resumem na Série B1 do Campeonato Carioca e Copa Rio. 

A questão é complexa e traz diversas consequências, sob várias óticas de um prisma preocupante. Até mesmo a proteção a um dos principais patrimônios de um clube, o jogador, é comprometida com a falta de perspectiva.

“Hoje, um jogador que se destaca na base deixa o Friburguense para outros clubes de menor porte. Mas não dá pra fazer um contrato mais longo? Como, se a gente joga quatro meses e fica oito parados? Como motivar e ter receita pra isso? A facilidade para emprestar também não existe mais, pois as outras equipes também não têm competições. Apenas 80 a 100 clubes no Brasil jogam o ano todo. A realidade é para grandes investidores. Ou a gente administra com um grande grupo, ou cria um envolvimento forte com a cidade. É preciso mobilizar, como aconteceu com a Chapecoense, por exemplo”, explica Siqueirinha.

Apesar do retorno à elite do futebol carioca ser um dos principais objetivos do Friburguense a curto prazo, o enfraquecimento dos estaduais, como resultado de um longo processo silencioso de elitização, mostram que o horizonte apresenta novos caminhos. Mais do que voltar a se firmar no cenário estadual, o acesso de divisão em uma competição nacional poderia trazer uma estabilidade ainda maior para os clubes de menor investimento do país. O gerente de futebol do Tricolor da Serra reforça essa tendência, e volta a citar o impacto da eliminação na Copa Rio no processo de crescimento do clube. 

“Sem dúvida, a grande saída é o cenário nacional. Quando eu falo de perder uma decisão, não é só a questão do título, que obviamente é importante. Acima da Copa do Brasil ou Série D estava o título, mas em termos de planejamento o caminho é uma competição nacional. Não sei até quando vai existir essa resistência juntos aos grandes patrocínios e à CBF para se manter o Estadual. A cada ano que passa ele diminui, temos uma média de dois meses e meio de competição no Estado e o restante é nacional. É um processo que não vai ser mudado. Quem está na Série D pode chegar à C, e ficaria entre os 60 privilegiados que possuem competição o ano todo. Existe o calendário, o financeiro e a vitrine para fazer negócio com jogadores. Essa possibilidade existia há nove anos, mas agora mudou.”

A possibilidade de buscar parcerias ou trazer algum grupo de investidores tem dominado as conversas entre o dirigente, o presidente do Friburguense, Jones Canto, o presidente do Conselho Deliberativo, Marcelo Cintra, e outros diretores do Tricolor. Em busca dessa alternativa, Siqueira tenta agregar a necessidade do clube a uma viagem recente feita por ele a Portugal. O dirigente recebeu uma proposta de trabalho de um clube português, o Mendes de Desportos, que atualmente integra a segunda divisão de Algarve (uma espécie de Série B1 do Carioca). A proposta é subir, ser um dos dois melhores da primeira divisão do Estado e chegar à Liga principal de Portugal. Há um caso semelhante de sucesso na cidade vizinha de Portimão, onde o Portimonense trilhou o caminho até a primeira Liga do país.

O convite surgiu através do empresário Evandro Ferreira, amigo de longa data de Siqueira, e de um procurador (Luiggi), italiano com quem o gerente de futebol do Friburguense teve um primeiro contato há cerca de dez anos. O trabalho envolveria o Tricolor da Serra e o clube português, promovendo um intercâmbio de jogadores e a possibilidade de se criar um calendário cheio através da parceria. No entanto, todas as alternativas não passam de possibilidades, por enquanto. Novidades podem pintar nos próximos dias.

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